The Sign of the Last Days -- When? (O Sinal dos Últimos Dias -- Quando?) (Atlanta: Commentary Press, 1987) de Carl Olof Jonsson e Wolfgang Herbst, pp. 266-271.

Apêndice C: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

Carl Olof Jonsson e Wolfgang Herbst


Também encontramos guerra, fome e pestilência no livro de Revelação na forma de três cavaleiros sentados respectivamente num cavalo vermelho, preto e descorado (literalmente amarelo-esverdeado), precedidos por um quarto cavaleiro, um archeiro, sentado num cavalo branco. -- Revelação 6:1-8.

A questão principal aqui é saber se a visão envolvendo estes quatro cavaleiros representa uma descrição do tempo do fim aplicável a algum período imediatamente antes do dia do julgamento final e constituindo por esse motivo um sinal da proximidade daquele dia.

Uma leitura do próprio relato nada revela que atribua a cavalgada destes cavaleiros a um período específico. É verdade que a visão destes cavaleiros faz parte de uma série de "selos" que foram abertos, sete ao todo, e que depois da abertura do sexto selo, que trata de um grande terramoto, os homens tentaram esconder-se, reconhecendo que 'o grande dia da ira de Deus chegou.' (Revelação 6:12-17) Mas isto por si só não fornece base sólida para dizer que os "selos" anteriores se encaixam todos em algum período de tempo particular imediatamente antes daquele dia de julgamento. Nada é dito que indique que estes selos formam parte de um "sinal" destinado a alertar as pessoas para a proximidade do julgamento divino. Guerra, fome, pestilência têm sido, como já foi mostrado, uma constante na vida humana ao longo de todas as eras. Não o são mais no nosso tempo do que em gerações anteriores.

Num esforço para atribuir a cavalgada destes cavaleiros a um período específico, a Watch Tower Society foca a atenção no cavaleiro do cavalo branco. Afirma-se que ele representa Cristo Jesus e que o fato de se falar dele como tendo "recebido uma coroa" fixa o tempo da profecia no período desde e depois de 1914 quando, segundo a doutrina da Watch Tower, Cristo Jesus foi entronizado no céu e começou a exercer autoridade real sobre toda a terra. Que validade tem este ensino?

Quem é o cavaleiro no cavalo branco?

Claro que os cavaleiros não representam pessoas literais. Eles são símbolos, tal como os seus cavalos e as cores destes.1 Três deles são facilmente identificáveis. Existe um consenso geral entre os comentadores que o segundo cavaleiro, tendo uma grande espada, é um símbolo da guerra, mais freqüentemente guerra civil, apropriadamente ilustrada pela cor vermelha do seu cavalo, um reflexo do derramamento de sangue.2 O terceiro cavaleiro é um símbolo da fome e este flagelo também está bem representado pela cor do seu cavalo, sendo preto a cor das colheitas atingidas pela praga nos campos. O quarto cavaleiro simboliza morte por pestilência, e a cor pálida ou amarelo-esverdeada do seu cavalo denota a cor de uma pessoa doente, atingida pela praga. Todas estas identificações são também confirmadas pelas missões dadas a cada um deles. Mas quem é o archeiro montado no cavalo branco?

Aqui começam os problemas, e várias sugestões têm sido dadas por diferentes comentadores. Alguns acreditam que este cavaleiro é o símbolo do cristianismo, ou o progresso triunfante do evangelho cristão. Outros pensam que ele representa a conquista militar, em oposição ao segundo cavaleiro que, segundo esta interpretação, simboliza guerra civil ou de extermínio. O Dr. Graham apresenta a razão por que acredita que o cavaleiro simboliza o engano, tendo uma aparência superficial que é enganadora, e com tendência para a conquista voraz.3 Ainda outros, incluindo a Watch Tower Society, identificam-no com o próprio Jesus Cristo. Visto que a Watch Tower Society encara toda a visão como sendo um paralelo dos acontecimentos descritos por Jesus em Mateus capítulo vinte e quatro versículos 6-8, e como eles proclamam que esses versículos se aplicam de 1914 em diante, alegam que os quatro cavaleiros começaram a sua cavalgada devastadora na terra naquele ano. É dito que uma evidência particularmente forte disto pode ser encontrada na coroa dada ao primeiro cavaleiro:

O cavaleiro deste meio de transporte rápido significa um reino recém estabelecido, pois uma coroa real foi-lhe dada.... Então, necessariamente, o cavaleiro do cavalo branco que avança vitoriosamente tem de ser Jesus Cristo na sua coroação no céu no fim dos Tempos dos Gentios em 1914.4

Esta interpretação, contudo, não pode estar correta porque é fundada sobre um sério equívoco lingüístico. A língua grega tinha duas palavras diferentes para "coroa." Uma é stéphanos, a outra é diádema. É diádema que significa uma "coroa real." É usada, por exemplo, para se referir às muitas coroas usadas por Jesus em Revelação capítulo dezanove, versículo 12:

E os seus olhos são uma chama de fogo, e sobre a sua cabeça estão muitos diademas [diademata].

Estes muitos diademas simbolizam evidentemente a autoridade real de Cristo sobre todos os outros reinos, também enfatizada pelo nome escrito sobre a sua roupa e sobre a sua coxa, segundo o versículo 16, "REI DOS REIS, E SENHOR DOS SENHORES."

Este significado da palavra diádema é apresentado por todos os dicionários de grego. Assim, por exemplo, Vine's Expository Dictionary (Dicionário Expositivo de Vine) diz na página 260:

DIADEMA ... nunca é usada como stephanos: é sempre o símbolo da dignidade real ou imperial, e é traduzida como 'diadema' em vez de 'coroa' na R.V., a respeito das pretensões do Dragão, Rev. 12:3; 13:1; 19:12.

Mas a "coroa" dada ao cavaleiro do cavalo branco em Revelação capítulo seis, versículo 2, não foi um diádema. Foi uma stéphanos. O que significa, então, esta palavra uma vez que não foi usada da mesma maneira que diádema? Vine explica adicionalmente na mesma página:

STEPHANOS ... denota (a) a coroa do vencedor, o símbolo de triunfo nos jogos ou outras competições similares; portanto, por metonímia, uma recompensa ou prêmio; (b) um sinal de honra pública por serviços distintos, proezas militares, etc., ou alegria nupcial, ou contentamento festivo, especialmente na parousia de reis.

Uma stéphanos, portanto, denota normalmente a coroa da vitória, e isto é verdade no Novo Testamento, onde é usada em conexão com a ilustração das competições atléticas. (Compare com 1 Coríntios 9:25; 2 Timóteo 2:5.) É este tipo de coroa que os cristãos recebem como recompensa divina de Deus através do seu rei Cristo Jesus, tal como indivíduos eram honrados pela atribuição de uma stéphanos aquando de uma visita real ou parousía de um rei ou imperador. -- 2 Timóteo 4:8; Tiago 1:12.

Curiosamente, a stéphanos não era apenas dada como um prêmio depois de uma vitória. Tal como no caso do archeiro no cavalo branco, era também dada a guerreiros antes da batalha como uma promessa de vitória. Assim os Espartanos coroavam-se a si mesmos com uma stéphanos quando saíam para a batalha como um sinal de vitória prometida. Os generais romanos faziam o mesmo. Supunha-se que a coroa ou grinalda influenciava o desfecho da batalha. Tanto entre os gregos como entre os romanos a stéphanos era o símbolo da vitória, e Nike, a deusa da vitória, era representada vindo com uma coroa de vitória na sua mão.5

Portanto, quando é dada ao cavaleiro do cavalo branco uma stéphanos, não lhe é dada, como pretende a Watch Tower Society, uma "coroa real." A cena não descreve nenhuma cerimônia de coroação no céu, e certamente não há razão para ligar a atribuição da grinalda ao archeiro ao ano 1914. A visão retrata um guerreiro armado saindo para a batalha, e como promessa de vitória nesta batalha é-lhe dada uma coroa, não uma coroa real mas uma coroa de vencedor. As palavras que se seguem -- "e ele veio conquistando, e para conquistar" -- explicam prontamente o propósito da coroa que lhe é dada. Tal como ao segundo cavaleiro foi dada uma grande espada como um símbolo da sua missão -- tirar a paz da terra -- assim também a este primeiro cavaleiro foi dada uma coroa de vencedor como um símbolo da sua missão: conquistar. Por isso, o archeiro pode simbolizar ou representar conquista vitoriosa. E isto estaria em harmonia com a cor do seu cavalo. Como assim?

Certamente é verdade que a cor branca é muitas vezes usada como um símbolo de pureza e de justiça, como por exemplo em Revelação capítulo dezanove, versículo 8. Mas este não é automaticamente o caso. Em Zacarias capítulo seis, versículos 1-8, onde encontramos carros puxados por grupos de quatro cavalos, três deles tendo cores idênticas às dos que lhes correspondem em Revelação, não existe nenhuma qualidade particular atribuída ao carro puxado pelos cavalos brancos. Muito pelo contrário, é a respeito do carro puxado pelos cavalos pretos que se diz que estes "deram descanso ao meu Espírito na terra do norte." -- Zacarias 6:6, 8.

O branco era também um símbolo antigo de triunfo e vitória. "Quando um general Romano celebrava um triunfo," diz o comentador Bíblico William Barclay, "isto é, quando ele desfilava pelas ruas de Roma com os seus exércitos e os seus prisioneiros e os seus despojos depois de alguma grande vitória, o seu carro era puxado por cavalos brancos, pois eles eram os símbolos da vitória."6 Em Revelação capítulo seis, versículo 2, portanto, a cor branca do cavalo pode muito bem simbolizar vitória ou triunfo militares, de acordo com a missão dada ao seu cavaleiro.

Pode-se argumentar que, mesmo se o cavaleiro com o arco fosse um símbolo de conquista vitoriosa, ele ainda poderia ser um símbolo de Jesus Cristo, especialmente em vista do fato de Jesus também ser representado como montando um cavalo branco em Revelação capítulo dezanove, do versículo 11 em diante. Deve-se notar, contudo, que as duas visões são completamente diferentes, e os dois cavaleiros também são diferentes. No capítulo dezanove o cavaleiro segura uma espada em vez de um arco; ele usa muitos diademas ou coroas reais (diademata), não uma stéphanos ou coroa de vitória. Como tem sido algumas vezes sublinhado, "os dois cavaleiros não têm nada em comum além do cavalo branco."7

Ainda mais significativamente, os outros três cavaleiros em Revelação capítulo seis são todos símbolos de calamidades (guerra, fome, pestilência), não de indivíduos reais. Seria tanto lógico como consistente, portanto, interpretar o primeiro cavaleiro de maneira similar, tal como foi sugerido, possivelmente representando o conceito de conquista militar. Esta é, de fato, também a conclusão da maioria dos comentadores bem conhecidos. O Dr. Otto Michel, por exemplo, explica os dois primeiros cavaleiros da seguinte maneira:

O cavalo branco representa o conquistador que chega de fora com um exército estranho e oprime o reino. Ele é seguido pelo feroz cavalo vermelho que leva embora a paz e desencadeia a luta civil.8

O espaço não permite um exame mais detalhado desta visão. A informação apresentada acima, contudo, mostra claramente que a tentativa da Watch Tower Society ligar esta visão à sua data 1914 não tem apoio no próprio texto. Baseando a sua interpretação numa tradução errada da palavra stéphanos tenta transformar a atribuição da grinalda ao archeiro numa cerimônia de coroação, uma idéia que é completamente estranha ao contexto. Se aplicada a Jesus, seria mais razoável ele receber uma stéphanos ou coroa de vitória e conquista na altura da sua ressurreição, quando ele alcançou as suas grandes vitórias, tendo conquistado o mundo, o pecado, a morte e o Diabo pelo seu percurso fiel -- e não em algum período dezanove séculos depois. (Compare com João 16:33; Revelação 3:21; 5:5.) A linguagem simbólica da visão dos cavaleiros é tirada de vários textos do Velho Testamento, como Zacarias 6:1-8; Ezequiel 5:12-17; 14:21 e Jeremias 49:36, 37, textos que tratam de julgamentos divinos contra os inimigos de Israel em tempos antigos. Para o nosso presente objetivo não é necessário entrar numa explanação sobre quando e como os julgamentos descritos simbolicamente em Revelação capítulo seis viriam sobre as potências opressoras que aparecem nas visões de João. Basta-nos compreender que não é possível mostrar que os quatro cavaleiros têm mais a ver com 1914, ou com este século vinte, do que com algum período de tempo anterior na história.


Notas

1 Como muitos comentadores observam, estes símbolos são semelhantes àqueles encontrados em Zacarias 6:1-8, embora alguns dos detalhes sejam diferentes. As cores têm evidentemente significados diferentes nas duas visões. Na visão de Zacarias os quatro grupos de cavalos coloridos de maneiras diferentes são interpretados pelo anjo como sendo "os quatro ventos do céu, que saem depois de terem estado diante do Senhor de toda a terra." (Versículo 5, ASV) Estes ventos por sua vez aparentemente representavam a ira de Deus dirigida contra os inimigos do povo de Deus nos dias de Zacarias. -- Compare com Isaías 66:15; Jeremias 4:13; 23:19; 30:23; 49:36.

2 Ao cavaleiro do cavalo vermelho "foi dado tirar paz [literalmente, "a paz"] da terra, e que eles se matassem uns aos outros." (ASV) Houve alguma vez paz universal na terra? Como se argumentou no capítulo cinco, dificilmente houve um ano de paz total na terra ao longo da história. No entanto, no tempo em que João escreveu as suas visões existia, de fato, uma espécie de "paz." Esta era a bem conhecida Pax Romana, a "Paz Romana," um período de paz e estabilidade dentro das fronteiras Romanas, que durou de 29 A.C. até cerca de 162 A.D.. É verdade que existiam guerras constantes nas fronteiras do vasto império, com os Teutões (Germânicos) a norte, e especialmente com os Partas a este, sendo o reino Parta a única grande potência além da própria Roma. Mas estas guerras nas fronteiras não eram vistas como uma ameaça à paz prevalecente dentro das fronteiras Romanas. Portanto, quando os destinatários de João leram que foi concedido ao cavaleiro no cavalo vermelho "tirar a paz da terra," poderiam naturalmente lembrar-se desta Pax Romana ou Paz Romana. Ainda mais, como é sublinhado pelo comentário de J. M. Ford sobre Revelação (The Anchor Bible [ A Bíblia Âncora] , Vol. 38, Nova Iorque 1975, p. 106), "A expressão allelous sphaxousin, 'mataram-se uns aos outros,' indica luta civil." Guerras civis dentro das fronteiras Romanas iriam, claro, "tirar a paz da terra", sendo a "terra" compreendida como uma referência ao Império Romano. Seja qual for a aplicação exata, está fora de dúvida que, no mundo como um todo, lutas civis e agitações, freqüentemente acompanhadas por derramamento de sangue, têm destruído a paz ao longo de todos os séculos da era cristã.

3 Approaching Hoofbeats (Passos que se Aproximam), pp. 78-81.

4 The Watchtower, 15 de Maio de 1983, pp. 18, 19.

5 Kittel/Friedrich, Theological Dictionary of the New Testement (Dicionário Teológico do Novo Testamento), Vol. VII, pp. 620, 621. É claro que a Watch Tower Society sabe que stéphanos significa uma coroa de vitória e, de fato, admite isto quando lida com outros textos diferentes de Revelação 6:2. Comentando Tiago 1:12, a Watchtower de 1.º de Julho de 1979, página 30, afirma que stéphanos "provém de uma raiz que significa 'contornar,' e portanto é usada para se referir a uma coroa, grinalda, prêmio ou recompensa que o vencedor numa corrida recebe."

6 William Barclay, The Revelation of John (A Revelação de João), Vol. 2, 2.ª ed., Filadélfia 1960, p. 4. Também H. B. Swete, no seu Commentary on Revelation (Comentário sobre Revelação; reimpressão de 1977 da 3.ª ed. de 1911, Grand Rapids, Michigan, p. 86) confirma que "branco era a cor da vitória," dando vários exemplos disto provenientes de antigas fontes Romanas.

7 Swete, p. 86.

8 Otto Michel em TDNT [Theological Dictionary of the New Testement (Dicionário Teológico do Novo Testamento)] , Vol. III, p. 338. Numa nota de rodapé ele diz ainda: "Nós não compreendemos a atividade destrutiva dos cavaleiros se identificamos o primeiro com o Messias vingador ou guerreiro de 19:11-16, ou com o Evangelho na sua incursão pelo mundo (Mr. 13:10)."


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