Capítulo 2: A Bíblia Luta Para Sobreviver

Texto: Seeker


Comentário ao Capítulo 2: "A Bíblia Luta Para Sobreviver" do livro A Bíblia -- Palavra de Deus ou de Homem?, publicado pela Sociedade Torre de Vigia em 1989.

Capítulo 2

A Bíblia Luta Para Sobreviver

A BÍBLIA é mais do que apenas um livro. É uma valiosa biblioteca de 66 livros, alguns deles curtos, outros bastante longos, contendo leis, profecias, história, poesia, conselhos, e muito mais. Séculos antes do nascimento de Cristo, foram escritos os primeiros 39 destes livros -- na maior parte na língua hebraica -- por judeus ou israelitas fiéis. Esta parte é freqüentemente chamada de Antigo (ou Velho) Testamento. Os últimos 27 livros foram escritos em grego, por cristãos, e são amplamente conhecidos como Novo Testamento. Segundo a evidência interna e as mais antigas tradições, estes 66 livros foram escritos durante um período de cerca de 1.600 anos, começando no tempo em que o Egito era uma potência dominante e terminando quando Roma era senhora do mundo.

Esta informação, que contextualiza a discussão que se segue, é correcta.

Somente a Bíblia Sobreviveu

2 Há mais de 3.000 anos, quando a escrita da Bíblia teve início, Israel era apenas uma nação pequena entre muitas no Oriente Médio. Jeová era seu Deus, ao passo que as nações circunvizinhas tinham uma desconcertante variedade de deuses e deusas. Durante aquele período, os israelitas não eram os únicos a produzir literatura religiosa. Outras nações também produziam obras escritas, que refletiam sua religião e seus valores nacionais. Por exemplo, a lenda acadiana de Gilgamés (ou Gilgamesh) da Mesopotâmia, e as epopéias de Ras Xamra, escritas em ugarítico (língua falada no que agora é o norte da Síria), sem dúvida eram muito populares. A vasta literatura daquela era incluía também obras tais como As Admoestações de Ipu-wer e A Profecia de Nefer-rohu, na língua egípcia, hinos a diferentes divindades em sumeriano, e obras proféticas em acadiano.1

Com certeza as outras nações não viam os seus deuses e deusas como 'desconcertantes'. Esse é o julgamento que fazem pessoas que não pertenceram a essas sociedades. Provavelmente a prática Israelita de adorar Jeová parecia esquisita aos outros povos. Pelo modo como apresentam a situação, os escritores deste livro rebaixam de forma subtil as outras tradições religiosas e exaltam a adoração dos Israelitas.

Este parágrafo 2 só menciona um número reduzido de textos religiosos da antiguidade que datam daquele tempo. Existem outros, conforme veremos adiante, que também têm uma história rica e influenciam grandemente as pessoas até à actualidade.

3 Todas estas obras do Oriente Médio, porém, tiveram a mesma sorte. Foram esquecidas, e até mesmo as línguas em que foram escritas tornaram-se extintas. Foi apenas em anos recentes que arqueólogos e filólogos souberam da sua existência e descobriram a maneira de lê-las. Por outro lado, os primeiros livros escritos da Bíblia hebraica sobreviveram até o nosso tempo e ainda são amplamente lidos. Vez por outra, alguns eruditos afirmam que os livros hebraicos da Bíblia derivaram de algum modo daquelas antigas obras literárias. Mas o fato de que uma tão grande parte daquela literatura foi esquecida, ao passo que a Bíblia hebraica sobreviveu, marca a Bíblia como significativamente diferente.

Não marca nada. Foi pura sorte. Se a civilização ocidental tivesse decidido seguir a lenda de Gilgamesh, em vez da lenda de Cristo, então o Acadiano teria sobrevivido e o Hebreu podia ter-se tornado extinto. Dizer que toda e qualquer tradição religiosa que tenha sobrevivido é necessariamente a correcta, é ignorar o modo como a História se processa. Além disso, existem muitas outras línguas e tradições que sobreviveram até à actualidade, mas a Sociedade não faz nenhum comentário sobre elas. Em vez disso, eles seleccionam alguns exemplos 'seguros' para fazerem a comparação com a Bíblia.

Agora percebemos porque é que a WTS seleccionou cuidadosamente apenas aqueles exemplos de escritos religiosos -- eles escolheram especificamente exemplos que estão agora praticamente esquecidos e que foram escritos em línguas actualmente extintas. Isto permite-lhes fazer aquele comentário no último parágrafo, de que a Bíblia é 'marcada como significativamente diferente'. Mas esta não é uma comparação honesta. Eles estão a deixar evidência de fora, para poderem salientar o seu ponto de vista.

Uma comparação muito mais justa seria entre a Bíblia e os escritos budistas, ou as tradições hindus, que também sobreviveram até à actualidade. Repare nos exemplos seguintes, e veja como são diferentes daqueles que a WTS usou acima.

No livro Mankind's Search for God [O Homem em Busca de Deus], p. 102, encontramos o seguinte a respeito dos escritos hindus:

"Os escritos mais antigos são os Vedas, uma coletânea de orações e hinos conhecidos como Rig-Veda, Sama-Veda, Iajur-Veda e Atarva-Veda. Foram compostos durante vários séculos e completados por volta de 900 AEC. Os Vedas foram mais tarde suplementados por outros escritos, incluindo os Brâmanas e os Upanichades."

Aqui temos o argumento da longevidade, portanto, será que o facto de as pessoas ainda lerem os Vedas hoje significa que Deus foi responsável pela sua sobrevivência?

Tomemos outro exemplo dessa região da terra, o Zoroastrianismo. Esta é a antiga religião da Pérsia e ainda existe hoje no Irão e na Índia. Sabia que o profeta Zaratustra [ou Zoroastro] viveu há 3500 anos, o que o torna contemporâneo com os escritos mais antigos da Bíblia? Além disso, o Zoroastrianismo foi uma das primeiras religiões monoteístas.

Se a WTS tivesse comparado os antecedentes da Bíblia com os escritos religiosos que sobreviveram até aos nossos dias, não teria conseguido fazer aquelas afirmações acerca da Bíblia. Eles criaram uma falsa impressão ao escolherem exemplos específicos de escritos que não influenciam as pessoas hoje.

Os Guardiães da Palavra

4 Não se engane, pois, do ponto de vista humano, a sobrevivência da Bíblia não era presumível. As comunidades que a produziram sofreram provações tão difíceis e opressão tão amarga, que a sobrevivência dela até os nossos dias é realmente algo notável. Nos anos antes de Cristo, os judeus que produziram as Escrituras Hebraicas (o "Antigo Testamento") eram uma nação relativamente pequena. Moravam precariamente no meio de estados políticos poderosos, que se rivalizavam pela supremacia. Israel teve de lutar pela sua vida contra uma sucessão de nações, tais como os filisteus, os moabitas, os amonitas e os edomitas. Durante um período em que os hebreus estavam divididos em dois reinos, o cruel Império Assírio virtualmente eliminou o reino setentrional, ao passo que os babilônios destruíram o reino meridional, levando o povo a um exílio do qual apenas um restante retornou 70 anos mais tarde.

Israel era uma nação tão pequena e insignificante que as potências mundiais sempre a consideraram pouco importante. É verdade que às vezes Israel ficava sob o domínio de uma ou outra potência, mas de cada vez que isso aconteceu, Israel não era o alvo primário.

Mas isso é irrelevante. O argumento que o livro apresenta é este: contra todas as probabilidades, os judeus sobreviveram como uma pequena nação, portanto Deus estava a protegê-los. Que dizer das outras nações ou grupos religiosos, que também sobreviveram apesar de grandes contrariedades? Por exemplo, o Hinduísmo sobreviveu a onda após onda de invasões. Será que Deus também foi responsável por este facto? Se não foi, então o argumento utilizado pelo livro não é válido.

Apenas como nota, é interessante que este tipo de argumentação (a nação é pequena, ameaçada por vizinhos poderosos, logo a sua sobrevivência só pode ser atribuída à intervenção divina) seja usado ao mencionarem a nação de Israel da antiguidade. Mas exactamente os mesmos argumentos podem ser usados para a nação de Israel da actualidade. Continua a ser uma nação pequena, ameaçada por vizinhos poderosos e muitos judeus hoje também atribuem a sua sobrevivência à manifestação da aprovação divina.

É curioso que a WTS só usa este tipo de raciocínio para apoiar a sua argumentação acima, mas rejeitaria exactamente o mesmo raciocínio como sendo inválido se fosse apresentado por um judeu da actualidade.

5 Existem até mesmo relatos sobre tentativas de genocídio contra os israelitas. Lá nos dias de Moisés, Faraó ordenou o assassinato de todos os meninos recém-nascidos deles. Se a sua ordem tivesse sido executada, o povo hebreu teria sido aniquilado. (Êxodo 1:15-22) Muito mais tarde, quando os judeus vieram a estar sob domínio persa, os inimigos deles tramaram a adoção duma lei destinada a exterminá-los. (Ester 3:1-15) O fracasso desta trama ainda é celebrado na festividade judaica de Purim.

O que foi dito anteriormente aplica-se também aqui. A informação apresentada neste parágrafo não é muito relevante para a ideia principal que eles pretendem provar.

6 Mais tarde ainda, quando os judeus estiveram sujeitos à Síria, o Rei Antíoco IV tentou muito helenizar a nação, obrigando-a a seguir costumes gregos e a adorar deuses gregos. Ele também fracassou. Em vez de os judeus serem exterminados ou assimilados, eles sobreviveram, ao passo que a maior parte dos grupos nacionais em volta deles, um após outro, desapareceu do cenário mundial. E as Escrituras Hebraicas da Bíblia sobreviveram com eles.

Esta é uma constante ao longo de toda a história, não é nada único aos judeus daquele tempo.

7 Os cristãos, que produziram a segunda parte da Bíblia (o "Novo Testamento"), também eram um grupo oprimido. Seu líder, Jesus, foi morto como se fosse um criminoso comum. Nos dias que se seguiram à sua morte, as autoridades judaicas na Palestina tentaram suprimi-los. Quando o cristianismo se espalhou a outras terras, os judeus os assediavam, tentando impedir a sua obra missionária. -- Atos 5:27, 28; 7:58-60; 11:19-21; 13:45; 14:19; 18:5, 6.

Aqui também não há nada de novo. As lutas são endémicas ao longo da história. Todos os grupos religiosos foram oprimidos numa ou noutra ocasião. Esta opressão, por si só, não prova nada além do facto de algumas pessoas não gostarem de outras que pensam de modo diferente.

8 No tempo de Nero, a atitude inicialmente tolerante das autoridades romanas mudou. Tácito gabou-se das "penas mais horrorosas" infligidas aos cristãos por aquele perverso imperador, e do tempo dele em diante, era crime passível de pena capital ser cristão.2 Em 303 EC, o Imperador Diocleciano agiu diretamente contra a Bíblia. Num esforço de eliminar o cristianismo, ordenou que todas as Bíblias cristãs fossem queimadas.3

Nessa altura já era demasiado tarde. Algumas pessoas já tinham decidido que o cristianismo era o caminho a seguir e por isso estavam dispostas a perder as suas vidas. Hitler não conseguiu exterminar todos os judeus durante a II Guerra Mundial, e Diocleciano não conseguiu fazer desaparecer todas as Bíblias cristãs. Desde que as pessoas pensem que vale a pena preservar algo, farão tudo o que for preciso para evitar o seu desaparecimento. Assim se explica a preservação da Bíblia, do Alcorão, dos escritos hindus, Budistas, etc.

9 Estas campanhas de opressão e de genocídio constituíam verdadeira ameaça à sobrevivência da Bíblia. Se a sorte dos judeus tivesse sido a mesma que a dos filisteus e dos moabitas, ou se os esforços, primeiro das autoridades judaicas e depois das romanas, de eliminar o cristianismo, tivessem sido bem-sucedidos, quem teria escrito e preservado a Bíblia? Felizmente, os guardiães da Bíblia -- primeiro os judeus e depois os cristãos -- não foram eliminados, e a Bíblia sobreviveu. No entanto, houve outra ameaça séria, se não à sobrevivência da Bíblia, pelo menos à sua integridade.

Se as tradições Acádicas tivessem permanecido triunfantes, este parágrafo poderia ser rescrito assim: "Felizmente, os guardiães de Gilgamés..." Novamente, aquele que fez a preservação pode vangloriar-se, mas isso não prova nada quanto à intervenção divina.

Os parágrafos incluídos neste subtítulo limitaram-se a apresentar exemplo atrás de exemplo de opressão, mas se um exemplo não prova o argumento da Sociedade, uma dúzia de exemplos também não provam. Esta é uma táctica muito comum usada pela Sociedade: recorrer a evidência anedótica para inundar a audiência com 'factos', independentemente da sua relevância para a o argumento que apresentam.

Resumindo, este subtítulo diz que a nação de Israel e os cristãos (os guardiães da Bíblia) sobreviveram a guerras, perseguição e tentativas de assimilação. E, ao sobreviverem, preservaram a Bíblia. Tudo isto é verdadeiro e factual.

Mas depois cometem o erro lógico de supor que isso prova de alguma forma que a Bíblia é um livro de Deus. Se aceitássemos este argumento, então poderíamos tirar a mesma conclusão a respeito de qualquer escrito sagrado que alegue inspiração e que tenha sobrevivido a guerras, perseguição e tentativas de assimilação. Conforme já mostrámos, os escritos religiosos Hindus estão nestas condições e no entanto a WTS não aplica o mesmo argumento a esses escritos Hindus.

Cópias Falíveis

10 Muitas das obras antigas já mencionadas, que subseqüentemente foram esquecidas, haviam sido gravadas em pedra ou em duráveis tabuinhas de argila. Mas isso não se deu com a Bíblia. Esta foi originalmente escrita em papiro ou em pergaminho -- materiais muito mais perecíveis. De modo que os manuscritos produzidos pelos escritores originais já desapareceram há muito, muito tempo. Então, como foi preservada a Bíblia? Incontáveis milhares de cópias foram laboriosamente feitas a mão. Esta era a maneira normal de reproduzir um livro antes do advento da imprensa.

É claro que existem literalmente milhares de registos Babilónicos que remontam ao curto período em que os judeus lá estiveram cativos, mas isso parece não contar para a Sociedade. Até agora, eles tentaram transmitir a ideia de que apenas a Bíblia sobreviveu, quando na realidade existem muitos outros escritos da antiguidade que sobreviveram. A Sociedade limita-se a ignorar todos esses escritos. Para exemplos de alguns destes registos babilónicos, veja o apêndice do livro Venha o Teu Reino.

11 No entanto, há um perigo quando se fazem cópias manuscritas. Sir Frederic Kenyon, famoso arqueólogo e bibliotecário do Museu Britânico, explicou: "Ainda não foram criados a mão e o cérebro humanos que consigam copiar na inteireza uma obra extensa sem absolutamente nenhum erro.... Forçosamente se introduziriam sem querer erros."4 Quando sem querer se introduziu um erro num manuscrito, ele foi repetido quando este manuscrito se tornou a base para outras cópias. Quando se fizeram muitas cópias durante um longo período, introduziram-se sem querer numerosos erros humanos.

É claro que essa situação é minorada se as pessoas pensarem que estão a copiar os pensamentos de Deus. As pessoas fazem coisas estranhas e vão a extremos quando pensam que aquilo que fazem é para Deus. Vejamos como é que isto se relaciona com o que é dito neste subtítulo.

12 Em vista dos muitos milhares de cópias da Bíblia feitas, como sabemos que este processo de reprodução não a alterou a ponto de ficar irreconhecível? Pois bem, tomemos o caso da Bíblia hebraica, o "Antigo Testamento". Na segunda metade do sexto século AEC, quando os judeus retornaram do seu exílio babilônico, um grupo de eruditos hebreus, conhecidos como soferins, "escribas", tornaram-se os depositários do texto da Bíblia hebraica, e era da sua responsabilidade copiar essas Escrituras para uso na adoração pública e particular. Eram profissionais altamente motivados, e sua obra era da melhor qualidade.

Novamente, eles pensavam que estavam a trabalhar para Deus, portanto é natural que estivessem altamente motivados. Os monges medievais que fizeram manuscritos espantosos pensavam que estavam a servir a Deus. O que tornou o seu trabalho significativo foi o facto de acreditarem nisso. No entanto, a WTS não argumentaria que esses monges medievais estavam a servir a Deus de forma correcta.

13 Desde o sétimo até o décimo século de nossa Era Comum, os herdeiros dos soferins eram os massoretas. O nome deles deriva duma palavra hebraica que significa "tradição", e eles essencialmente também eram escribas encarregados da tarefa de preservar o tradicional texto hebraico. Os massoretas eram meticulosos. Por exemplo, o escriba tinha de usar um exemplar devidamente autenticado como texto-base, e não se lhe permitia escrever nada de memória. Ele tinha de verificar cada letra antes de escrevê-la.5 O Professor Norman K. Gottwald relata: "Uma noção do cuidado com que eles se desincumbiram dos seus deveres é indicada no requisito rabínico de que todos os novos manuscritos fossem revisados e as cópias falhas rejeitadas imediatamente."6

De facto, estes escribas eram muito minuciosos e produziram um excelente trabalho. Eles estavam altamente motivados, pois acreditavam que o trabalho que faziam era para Deus.

14 Quão exata foi a transmissão do texto pelos soferins e pelos massoretas? Até 1947, era difícil de responder a esta pergunta, visto que os manuscritos hebraicos mais antigos disponíveis eram do décimo século da nossa Era Comum. Em 1947, porém, foram encontrados alguns fragmentos de manuscritos bem antigos em cavernas, na vizinhança do mar Morto, inclusive partes dos livros da Bíblia hebraica. Alguns dos fragmentos datam de antes do tempo de Cristo. Os eruditos compararam-nos com manuscritos hebraicos existentes, para confirmar a exatidão da transmissão do texto. Qual foi o resultado desta comparação?

Note que apenas é possível fazer uma comparação muito limitada, pois só foram descobertos alguns 'fragmentos', não foram descobertas todas as escrituras hebraicas. Por essa razão, é impossível provar a exactidão da Bíblia na sua inteireza. Ainda assim, o que foi descoberto revela alguns pormenores embaraçosos para a Sociedade. Repare:

15 Uma das obras mais antigas descobertas foi o livro inteiro de Isaías, e a exatidão deste texto em comparação com a Bíblia massorética que hoje temos é espantosa. O Professor Millar Burrows escreve: "Muitas das diferenças entre o [recém-descoberto] rolo de Isaías de S. Marcos e o texto massorético podem ser explicadas como erros de cópia. Fora disso, no todo, há uma notável concordância com o texto encontrado nos manuscritos medievais. Tal concordância num manuscrito bem mais antigo fornece um testemunho que renova a confiança na exatidão geral do texto tradicional."7 Burrows acrescenta: "É de admirar que no decorrer de uns mil anos o texto tenha sofrido tão pouca alteração."

É espantoso que essas cópias se tenham revelado exactas. Mas qual é o argumento? Que Deus preservou a sua palavra? Se é assim, então porque é que as cópias contêm pequenas diferenças, em vez de serem perfeitas? Será que vão dizer que os copistas eram apenas humanos e por isso sujeitos a errar? Se dizem isso, então como é que podem continuar a argumentar que a exactidão das cópias implica a intervenção de Deus? Será que vamos aceitar o argumento de que qualquer trabalho da antiguidade que se tenha preservado de modo notável teve a protecção de Deus? Ainda hoje temos os Vedas Hindus, que têm uma história de quase 3.000 anos de preservação e sobrevivência. Será que Deus também é o autor dos Vedas?

16 No caso da parte da Bíblia escrita em grego, pelos cristãos, o chamado Novo Testamento, os copistas eram mais parecidos a amadores talentosos, do que aos soferins profissionais, altamente treinados. Mas, visto que trabalhavam sob a ameaça de punição por parte das autoridades, eles tomavam seu trabalho a sério. E duas coisas asseguram-nos que hoje temos um texto essencialmente igual ao assentado pelos escritores originais. Primeiro, possuímos manuscritos de data muito mais próxima ao tempo da escrita, do que no caso da parte hebraica da Bíblia. De fato, um fragmento do Evangelho de João é da primeira metade do segundo século, menos de 50 anos depois da data em que João provavelmente escreveu seu Evangelho. Segundo, a própria quantidade de manuscritos que sobreviveram constitui uma colossal demonstração da integridade do texto.

Tanto quanto sei, essa informação é correcta. Parece que hoje temos a Bíblia numa forma exacta.

17 Sobre este ponto atestou Sir Frederic Kenyon: "Não é exagero afirmar que o texto da Bíblia, em essência, é certo. Isto se dá especialmente com o Novo Testamento. O número de manuscritos do Novo Testamento, de primitivas traduções dele e de citações dele nos escritores mais antigos da Igreja, é tão grande, que é praticamente certo que a verdadeira versão de toda passagem duvidosa é preservada em uma ou outra dessas autoridades antigas. Não se pode dizer isto de nenhum outro livro antigo no mundo."10

A informação apresentada nesta secção do livro pode-se resumir assim: Os manuscritos da Bíblia foram preservados e copiados com espantosa exactidão. Isto é correcto. É neste ponto que ocorre a falha lógica no argumento, quando dizem que isto prova que Deus foi responsável por esse esforço. Mais uma vez, o factor determinante para isso ter acontecido foi as pessoas pensarem que a Bíblia era a palavra de Deus.

Os Povos e Suas Línguas

18 As línguas originais em que a Bíblia foi escrita, a longo prazo, também eram um obstáculo para a sua sobrevivência. Os primeiros 39 livros, na maior parte, foram escritos em hebraico, a língua dos israelitas. Mas o hebraico nunca fora amplamente conhecido. Se a Bíblia tivesse continuado só nesta língua, nunca teria exercido influência fora da nação judaica e dos poucos estrangeiros que sabiam lê-la. Entretanto, no terceiro século AEC, em benefício dos hebreus que moravam em Alexandria, no Egito, iniciou-se a tradução da parte hebraica da Bíblia para o grego. O grego era então uma língua internacional. De modo que a Bíblia hebraica tornou-se facilmente acessível aos não-judeus.

Isto é correcto e factual.

19 Quando chegou o tempo para se escrever a segunda parte da Bíblia, ainda se falava amplamente o grego, de modo que os últimos 27 livros da Bíblia foram escritos nesta língua. Mas nem todos entendiam o grego. De modo que, em pouco tempo começaram a aparecer traduções, tanto da parte hebraica como da grega da Bíblia, nas línguas cotidianas daqueles primeiros séculos, tais como o siríaco, o copta, o armênio, o georgiano, o gótico e o etíope. O idioma oficial do Império Romano era o latim, e fizeram-se traduções latinas em tal número, que se teve de comissionar uma "versão autorizada". Esta foi terminada por volta de 405 EC e veio a ser conhecida como a Vulgata (que significa "popular" ou "comum").

E hoje a Bíblia está disponível em muitas outras línguas, mas isto só prova que algumas pessoas pensam que é importante traduzir a Bíblia.

O argumento desta secção é que a Bíblia, embora tenha sido originalmente escrita em línguas que já não são muito usadas hoje, foi traduzida ao longo da história para as línguas comuns em cada época. O que é que isto prova? Que é inspirada? Seguindo essa lógica, qualquer livro (como os Vedas hindus) que tenha sido originalmente escrito numa língua obscura e depois traduzido para línguas mais comuns deve ter sido divinamente inspirado.

20 Portanto, foi apesar de muitos obstáculos que a Bíblia sobreviveu até os primeiros séculos da nossa Era Comum. Aqueles que a produziram eram minorias desprezadas e perseguidas, que levavam uma existência difícil no meio dum mundo hostil. Ela facilmente poderia ter sido muito deturpada ao se produzirem cópias, mas não foi. Além disso, escapou ao perigo de estar disponível apenas àqueles que falavam determinada língua.

Isso é verdade, mas aconteceu o mesmo com outras religiões. A Bíblia não é o único documento religioso que sobreviveu a essas circunstâncias.

Pode substituir-se nesse parágrafo as palavras 'a Bíblia' por 'os Vedas hindus', e continuamos a ter afirmações verdadeiras.

21 Por que foi para a Bíblia tão difícil de sobreviver? A própria Bíblia diz: "O mundo inteiro jaz no poder do iníquo." (1 João 5:19) Em vista disso, era de esperar que o mundo fosse hostil à publicação da verdade, e assim mostrou ser. Então, por que sobreviveu a Bíblia, quando tantas outras obras literárias, que não se confrontavam com as mesmas dificuldades, foram esquecidas? A Bíblia responde também a isso. Ela diz: "A declaração de Jeová permanece para sempre." (1 Pedro 1:25) Se a Bíblia realmente é a Palavra de Deus, nenhum poder humano pode destruí-la. E assim tem sido, até mesmo neste século 20.

Que dizer de todas aquelas peças de literatura da antiguidade que sobreviveram? Será que a sua sobrevivência é indicação de que Deus estava por detrás dessas obras? Quanto a usarem Satanás como bode expiatório pela perseguição contra os cristãos, essa é uma desculpa simplista. Todos os grupos religiosos acreditam que o diabo os persegue.

22 Entretanto, no quarto século da nossa Era Comum, aconteceu algo que finalmente resultou em novos ataques à Bíblia e que influiu profundamente no curso da história européia. Apenas dez anos depois de Diocleciano ter tentado destruir todos os exemplares da Bíblia, a política imperial mudou e o "cristianismo" foi legalizado. Doze anos mais tarde, em 325 EC, um imperador romano presidiu ao "cristão" Concílio de Nicéia. Por que seria perigoso para a Bíblia tal acontecimento aparentemente favorável? Saberemos a resposta no próximo capítulo.

As três linhas de raciocínio que foram usadas neste capítulo com o objectivo de provar que a Bíblia é inspirada, foram: a Bíblia 1) sobreviveu a hostilidades; 2) sobreviveu a séculos de cópias e 3) tornou-se disponível nas línguas comuns.

Quando removemos toda a informação supérflua e reduzimos o que é dito neste capítulo a estes três pontos, torna-se evidente que a Sociedade está a recorrer a uma falácia lógica [special pleading] para provar o seu ponto. Conforme foi dito, todos estes argumentos podem ser aplicados aos Vedas hindus. Será que isto significa que acabámos de provar que os Vedas são inspirados por Deus? Se não, porque é que os argumentos usados ao longo deste capítulo não são válidos no caso dos Vedas, mas são válidos no caso da Bíblia?


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