Capítulo 4: Pode-se Crer no "Antigo Testamento"?

Texto: Seeker


Comentário ao Capítulo 4: "Pode-se Crer no "Antigo Testamento"?" do livro A Bíblia -- Palavra de Deus ou de Homem?, publicado pela Sociedade Torre de Vigia em 1989.

Capítulo 4

Pode-se Crer no "Antigo Testamento"?

Uma cidade antiga está sendo sitiada. Seus atacantes haviam atravessado em massa o rio Jordão e estavam agora acampados diante das altas muralhas da cidade. Mas, que estranha tática de guerra! Todos os dias, durante seis dias, o exército invasor marchara ao redor da cidade em silêncio, rompido apenas por um acompanhante grupo de sacerdotes que tocara buzinas. Agora, no sétimo dia, o exército marcha silencioso sete vezes ao redor da cidade. De repente, os sacerdotes tocam as buzinas com toda a força. O exército rompe o silêncio com um forte grito de guerra, e as altas muralhas da cidade desmoronam numa nuvem de poeira, deixando a cidade indefesa. -- Josué 6:1-21.

2 É assim que o livro de Josué, o sexto das Escrituras Hebraicas, descreve a queda de Jericó, que ocorreu há quase 3.500 anos. Mas, será que aconteceu realmente? Muitos altos críticos responderiam confiantemente que não. Eles afirmam que o livro de Josué, junto com os cinco livros precedentes da Bíblia, é composto de lendas escritas muitos séculos depois da ocorrência dos alegados eventos. Também muitos arqueólogos diriam o mesmo. Segundo eles, quando os israelitas entraram na terra de Canaã, Jericó talvez nem existisse.

O Velho Testamento está cheio de relatos (como o anterior) que descrevem Jeová a conduzir os Israelitas à vitória sobre os seus inimigos, mas não é só a Bíblia que contém este tipo de histórias; a literatura das nações vizinhas conta como os seus deuses também os conduziram à vitória. A Pedra Moabita diz que o Deus Chemosh deu a Mesha (um rei moabita mencionado em 2 Reis 3:4) a vitória sobre os seus inimigos.

Se os cristãos aceitam essas histórias da Bíblia como sendo verdades literais, em que se baseiam para dar à Bíblia um estatuto privilegiado? Não devia esse estatuto ser igualmente dado à literatura de outras nações contemporâneas dos tempos bíblicos, que também afirmam que os seus deuses lhes deram vitórias na guerra? Como a crença no sobrenatural era comum naquele tempo, a literatura da época obviamente reflectia essa crença. O historiador judeu Josefo (frequentemente citado pela WTS) escreveu muitos relatos de acontecimentos sobrenaturais, alguns apoiando os escritos bíblicos, outros sendo independentes da Bíblia. Será que aceitamos apenas os relatos sobrenaturais relatados pela Bíblia e recusamos todos os outros? Porquê? Com que base? E que dizer das acções sobrenaturais 'realizadas' pelo Deus Chemosh, conforme relatado na Pedra Moabita? Será que as aceitamos ou recusamos?

3 Estas são acusações sérias. Ao passo que ler a Bíblia, notará que os ensinos dela se relacionam solidamente com a história. Deus lida com homens, mulheres, famílias e nações reais, e suas ordens são dadas a um povo histórico. Os eruditos modernos que lançam dúvidas sobre a historicidade da Bíblia também lançam dúvidas sobre a importância e a fidedignidade da sua mensagem. Se a Bíblia realmente é a Palavra de Deus, então a sua história tem de ser fidedigna, e não conter meras lendas e mitos. Será que esses críticos têm alguma base para desafiar a veracidade histórica dela?

Este parágrafo estabelece o cenário para o resto do capítulo. Os "altos críticos" são todos metidos no mesmo saco, como se fossem um só homem. São-lhes atribuídas motivações suspeitas, como veremos melhor mais adiante. E foi levantado o tipo de argumento a preto-e-branco a que a Sociedade gosta de reduzir tudo.

Quando a WTS conclui que episódios bíblicos miraculosos aconteceram mesmo, que provas apresentam? Será que é possível provar alguma coisa a esse respeito? Talvez eles pensem que se conseguirem detectar falhas na argumentação dos seus críticos, isto de algum modo prova que os milagres aconteceram. Pense nisto: será que a Sociedade ou qualquer outra pessoa consegue provar que este ou qualquer outro episódio registado na Bíblia (ou em qualquer outro escrito contemporâneo) aconteceu mesmo?

Como é que se avalia uma afirmação para a qual não existe conhecimento em primeira mão?

Considere este método:

"Quando não temos evidência, a única maneira de decidir se acreditamos ou não em algo é perguntarmo-nos: É isso provável? Se me disser que um pássaro passou a voar pela minha janela, eu provavelmente acreditarei em si, embora eu próprio não tenha visto o pássaro e não tenha qualquer evidência. Acredito porque esse acontecimento é provável [ou comum]. Já o vi ocorrer antes. É mais provável que um pássaro tenha passado a voar pela minha janela do que você me estar a enganar. Mas se me disser que um porco passou a voar pela minha janela, eu não acredito em si porque a minha experiência passada diz-me que esse tipo de coisas não acontecem, e portanto eu presumo que aquilo que você me contou é falso. Assim, nos casos em que não há evidência, temos de nos basear na nossa experiência passada a respeito das coisas que realmente acontecem." (Lofmark, Carl, What Is the Bible? [O Que É a Bíblia?], pp. 41-42)

Portanto, vejamos se a WTS apresenta de facto evidência [prova] para fundamentar as suas afirmações...

A Alta Crítica -- Quão Confiável É?

4 A alta crítica da Bíblia começou a sério durante os séculos 18 e 19. Na última metade do século 19, o crítico da Bíblia alemão Julius Wellhausen popularizou a teoria de que os primeiros seis livros da Bíblia, incluindo Josué, foram escritos no quinto século AEC -- cerca de mil anos depois dos acontecimentos descritos. No entanto, ele disse que contêm matéria escrita anteriormente.1 Esta teoria foi apresentada na 11.ª edição da Enciclopédia Britânica, publicada em 1911, que explicava: "Gênesis é uma obra pós-exílica, composta de fonte sacerdotal pós-exílica (P) e de anteriores fontes não-sacerdotais, notadamente diferentes de P em linguagem, estilo e ponto de vista religioso."

É interessante notar que Wellhausen é o único "alto crítico" mencionado neste capítulo, como se ele representasse toda a "alta crítica" e como se, respondendo a Wellhausen, estivessem a responder a todos os outros críticos. É claro que isto é demasiado simplista.

5 Para Wellhausen e seus seguidores, toda a história registrada na primeira parte das Escrituras Hebraicas era, "não história literal, mas tradições populares do passado".2 Os relatos anteriores eram considerados apenas um reflexo da história posterior de Israel. Por exemplo, declarou-se que a inimizade entre Jacó e Esaú realmente não aconteceu, mas refletia a inimizade entre as nações de Israel e de Edom em tempos posteriores.

Será que é apresentada neste parágrafo alguma das razões que fundamentam as posições de Wellhausen? Não. Em vez disso a Sociedade menciona as ideias dele, não apresentando qualquer fundamentação, para que a audiência de Testemunhas ridicularize essas ideias. Este é um modo de reduzir a influência de Wellhausen por fazê-lo parecer ridículo. É claro que se a Sociedade incluísse mesmo as razões que fundamentam as posições de Wellhausen, estas fariam sentido, mesmo que discordássemos delas. Mas já que está a mencionar este assunto, porque é que a Sociedade está com medo de trazer à luz as razões que estão por detrás destas questões?

6 Em harmonia com isso, esses críticos achavam que Moisés nunca recebeu ordem para fazer a arca do pacto, e que o tabernáculo, centro da adoração israelita no ermo, nunca existiu. Eles acreditavam também que a autoridade do sacerdócio arônico só foi plenamente estabelecida poucos anos antes da destruição de Jerusalém pelos babilônios, a qual os críticos acreditavam ter acontecido no começo do sexto século AEC.3

Porque é que "esses críticos" acreditam nisso? A Sociedade prefere não dizer. E sabe que a maioria das TJ nunca se dará ao incómodo de fazer pesquisas para descobrir. Eles pensam que a Sociedade lhes está a dizer tudo sobre o assunto. Repare neste parágrafo por exemplo:

7 Que "provas" apresentaram para essas ideias? Os altos críticos afirmam que conseguem dividir o texto dos primeiros livros da Bíblia em diversos documentos diferentes. Um princípio básico que eles usam é presumir que, falando-se de modo geral, todo versículo da Bíblia que usa a palavra hebraica para Deus ('Elo·hím) sozinha foi escrito por um escritor, ao passo que todo versículo que se refere a Deus pelo nome dele, Jeová, deve ter sido escrito por outro -- como se um mesmo escritor não pudesse usar ambos os termos.4

Isto é insidioso. O parágrafo começa com uma pergunta, parecendo que nos vão dar a conhecer o ponto de vista de Wellhausen acerca de todos os pontos mencionados antes, nomeadamente que o Pentateuco foi escrito muito mais tarde do que se pensava, que a inimizade entre Esaú e Jacó nunca existiu, nem existiram a arca e o tabernáculo, nem o clero sacerdotal foi estabelecido tão cedo como se pensava. O livro dá unicamente uma razão porque Wellhausen teorizou um dos assuntos mencionados (que o Pentateuco foi escrito mais tarde do que se pensava).

8 De modo similar, sempre que um evento se encontra registrado mais de uma vez num livro, toma-se isso como prova de que mais de um escritor o produziu, embora a antiga literatura semítica apresente outros exemplos similares de repetição. Além disso, presume-se que toda mudança de estilo significa uma mudança de escritor. No entanto, até mesmo escritores, nas línguas atuais, freqüentemente escrevem em estilos diferentes, em estágios diferentes de sua carreira, ou ao tratarem de matéria diferente.

Agora apresentam, de forma muito simplificada, uma segunda razão para a mesma questão (Pentateuco), e novamente todas as outras questões e razões são ignoradas. Qualquer TJ que leia estes parágrafos pensará: "Há! Que ideia tão estúpida, só porque o texto às vezes diz Elohim e outras vezes diz Jeová eles concluem que Esaú não tinha inimizade por Jacó. Absurdo! Em que é que este sujeito Wellhausen estava a pensar? Bem, é óbvio que podemos ignorar este maluquinho..."

Há muito mais a dizer acerca de Wellhausen do que a Sociedade apresenta aqui. Adiante vou dar algumas referências que o leitor poderá verificar. Por agora, vejamos o que é que a Sociedade faz a seguir:

9 Existe realmente alguma prova que substancie essas teorias? Nenhuma. Certo comentador escreveu: "A crítica, mesmo no melhor dos casos, é especulativa e tentativa, algo sempre sujeito a ser modificado ou mostrado errado, e que tem de ser substituído por outra coisa. É um exercício intelectual, sujeito a todas as dúvidas e palpites que são inseparáveis de tais exercícios."5 A alta crítica bíblica, em especial, é "especulativa e tentativa" em extremo.

O que o comentador disse é correcto, e não há nada de errado com esses exercícios. É assim que a aprendizagem se processa, passo a passo, cometendo erros e corrigindo-os ao longo do percurso. Mas que prova apresenta a Sociedade para fundamentar a última frase do parágrafo? Porque é que a alta crítica é mais "especulativa e tentativa" do que outros tipos de criticismo? Eles não dizem, levando-nos a pensar que é uma opinião pessoal e emocional. A última frase do parágrafo é "um exercício intelectual, sujeito a todas as dúvidas e palpites que são inseparáveis de tais exercícios."

10 Gleason L. Archer, Jr., mostra outra falha no raciocínio da alta crítica. O problema, segundo ele, é que "a escola de Wellhausen começou com a pura suposição (que praticamente não se incomodaram de demonstrar) que a religião de Israel era de mera origem humana, como qualquer outra, e que devia ser explicada como mero produto da evolução".6 Em outras palavras, Wellhausen e seus seguidores começaram com a suposição de que a Bíblia era apenas a palavra de homem, e seus argumentos partiram deste ponto.

Ah, agora a Sociedade recorre a um observador aparentemente imparcial para apoiar a sua afirmação de que Wellhausen não sabia o que estava a fazer. Que razões apresenta Archer? Apenas esta: Wellhausen começou com a suposição de que a religião de Israel era de origem humana.

E depois? A Sociedade neste livro também começa com uma suposição: que a religião de Israel era de origem divina. Porque é que isto está correcto mas a suposição de Wellhausen não está?

Em qualquer campo, os cientistas seguem uma abordagem standardizada e objectiva às questões. Começa-se com uma hipótese, depois esta é testada através de uma série de testes, experiências, estudos, etc. Com base no resultado dessas experiências e testes, a hipótese pode ser confirmada, modificada ou completamente abandonada, dependendo da nova evidência que aparecer. Infelizmente, a WTS não segue esta abordagem standard e imparcial. A Sociedade começa com a sua hipótese, segundo a qual a Bíblia é a palavra de Deus, mas depois estão determinados a provar que a sua hipótese é correcta, em vez de examinarem de forma imparcial toda a evidência disponível e depois deixarem a evidência apontar as devidas conclusões. Pergunte-se a si mesmo porque é que eles agem desta forma. Porque é que eles preferiram ignorar a maior parte da evidência?

Quanto ao senhor Gleason L. Archer, Jr., quem é ele? A Sociedade não diz, levando os seus leitores a assumir que ele é algum crítico imparcial. Quem é ele? Bem, se o leitor fizer uma pesquisa na Internet sobre ele, descobrirá que ele não é imparcial, nem nada que se pareça. De facto, ele é um cristão evangélico que escreve livros defendendo que a Bíblia é de origem divina. Portanto, o senhor Archer também tem algumas suposições de partida.

Vamos pôr os pontos nos ii: Se uma pessoa começa com uma suposição com a qual a Sociedade concorda, eles citam essa pessoa em seu apoio. Se uma pessoa começa com uma suposição coma qual a Sociedade discorda, eles denunciam-no como 'preconceituoso'. Quem é que está a ser preconceituoso, afinal?

Note-se, de passagem, que o senhor Archer nunca seria citado pela Sociedade na brochura Deve-se Crer na Trindade?, pois ele escreveu o seguinte:

"O Nosso Senhor Jesus Cristo estava aqui a falar, não da Sua natureza divina como Filho de Deus, mas da Sua natureza humana, como Filho do Homem. Cristo veio para sofrer e morrer, não como Deus, que não pode fazer nenhuma dessas duas coisas, mas como segundo Adão, nascido de Maria. Só como Filho do Homem é que ele podia servir como Messias, ou Cristo (o Ungido). A menos que pudesse ele mesmo tomar uma natureza humana verdadeira e genuína, Ele nunca poderia ter representado a raça de Adão como aquele que leva os pecados na Cruz. Mas como Filho do Homem, Ele certamente estava numa posição inferior a Deus o Pai. Como Isaías 52:13-53:12 torna claro, Ele só se podia tornar nosso Salvador tornando-se também Servo de Yahweh. Por definição, o servo nunca pode ser tão grande como o seu amo." (Gleason L. Archer, Encyclopedia of Bible Difficulties [Enciclopédia das Dificuldades Bíblicas], 1982, p. 375)

Parece que o senhor Archer acredita na Trindade e na cruz, suposições com as quais a Sociedade não se sentiria confortável, não acha? Parece-lhe ele a pessoa mais imparcial e adequada para julgar o trabalho de Wellhausen?

A Sociedade também cita outra referência acerca deste assunto:

11 Lá em 1909, The Jewish Encyclopedia (A Enciclopédia Judaica) mencionou mais duas fraquezas da teoria de Wellhausen: "Os argumentos com os quais Wellhausen cativou quase que inteiramente todo o grupo de críticos contemporâneos da Bíblia baseiam-se em duas suposições: primeiro, que o rito fica mais apurado com o desenvolvimento da religião; segundo, que as fontes mais antigas necessariamente tratam dos estágios mais primitivos do desenvolvimento ritual. A primeira suposição é contrária à evidência das culturas primitivas, e a última não encontra nenhum apoio na evidência de códigos rituais, tais como os da Índia."

Como Wellhausen teorizou que grande parte da tradição judaica estava incorrecta, não nos deve surpreender que a The Jewish Encyclopedia [A Enciclopédia Judaica] considerasse este conceito ameaçador e tentasse encontrar exemplos para combatê-lo. Novamente, a Sociedade cita uma fonte que não é um observador imparcial.

12 Existe um modo de testar a alta crítica, para ver se suas teorias são corretas, ou não? A Enciclopédia Judaica prossegue: "Os conceitos de Wellhausen baseiam-se quase que exclusivamente numa análise literal, e precisam ser suplementados por um exame feito do ponto de vista da arqueologia institucional." Será que a arqueologia, com o passar dos anos, tendeu a confirmar as teorias de Wellhausen? The New Encyclopædia Britannica (A Nova Enciclopédia Britânica) responde: "A crítica arqueológica tende a substanciar a fidedignidade dos pormenores históricos, típicos, mesmo dos períodos mais antigos [da história bíblica] e a desconsiderar a teoria de que os relatos do Pentateuco [os registros históricos nos mais antigos livros da Bíblia] sejam meros reflexos de um período muito posterior."

O facto de os desenvolvimentos da arqueologia nos últimos cem anos terem acrescentado muitos conhecimentos novos nesta área não devia ser surpreendente. Esse novo conhecimento actualiza as teorias que tratam deste assunto, incluindo as teorias de Wellhausen. Será que isto significa que isso significa que Wellhausen caiu em descrédito devido às novas descobertas arqueológicas? A Sociedade deixa transparecer essa ideia. No entanto, não é verdade que todos partilhem essa opinião. Repare nesta referência, que revela o que é ensinado actualmente na University of California em Santa Bárbara [E.U.A.]:

"Em 1878, Julius Wellhausen, um académico [perito] alemão, propôs uma teoria para explicar a construção do Pentateuco, ou Tora, os primeiros cinco livros da Bíblia hebraica. Wellhausen e alguns outros antes dele tinham notado várias descontinuidades, repetições e contradições ocasionais na narrativa dos livros. A teoria dele, geralmente chamada "Hipótese Documental", tentou levar em consideração esses aspectos. Embora tenha gerado controvérsia e várias teorias concorrentes ao longo do último século, nenhuma outra explicação reteve continuamente a atenção como essa e a Hipótese Documental é aceite por praticamente todos os peritos bíblicos hoje."

Hummmm... parece que as ideias de Wellhausen não estão tão desacreditadas como a Sociedade gostaria que acreditássemos. De facto, as ideias dele são a base de muito do que "todos" os peritos bíblicos aceitam actualmente! Será que todos os peritos bíblicos são preconceituosos e só a Sociedade é que está certa? Será que as coisas são assim tão a preto-e-branco? Porque não faz alguma pesquisa você mesmo e vê com os seus próprios olhos? Para mais informação acerca da Hipótese Documental, incluindo os desenvolvimentos através dos séculos, e o modo como é realmente encarada hoje, veja este link.

Essa informação é da University of Santa Clara e descreve de forma muito clara e simples as ideias que Wellhausen discutiu, e como estas foram encaradas e se desenvolveram até aos nossos dias. As coisas não são tão simples como a Sociedade pretende.

13 Em vista da fraqueza da alta crítica, por que é ela hoje tão popular entre os intelectuais? Porque lhes diz coisas que querem ouvir. Certo erudito do século 19 explicou: "Eu, pessoalmente, aceito mais este livro de Wellhausen do que quase qualquer outro; porque parece-me que o problema premente da história do Antigo Testamento por fim é solucionado dum modo consoante com o princípio da evolução humana, que me vejo forçado a aplicar à história de todas as religiões."7 Evidentemente, a alta crítica concordava com os preconceitos dele qual evolucionista. E, de fato, as duas teorias têm uma finalidade similar. Assim como a evolução eliminaria a necessidade de se crer num Criador, assim a alta crítica de Wellhausen significaria que não se precisa crer que a Bíblia foi inspirada por Deus.

Aqui vemos a Sociedade a fazer um juízo de valor. Todos os altos críticos podem ser metidos no mesmo saco e lançados fora porque obviamente todos eles têm maus motivos. A Sociedade até cita um sujeito de há cem anos atrás a aplica o comentário dele a todos os altos críticos que viveram desde esse tempo. Bem, então o assunto deve estar encerrado! [na opinião da Sociedade]

De facto, à medida que estudar o alto criticismo, verá que os motivos variam muito, e que as conclusões alcançadas não são tão universais como a Sociedade pretende. Mais uma vez, se só lermos o que a Sociedade nos dá, nunca chegaremos a saber a verdadeira natureza das questões.

14 Neste racionalista século 20, a suposição de que a Bíblia não seja a palavra de Deus, mas sim de homem, parece plausível aos intelectuais. Para eles, é muito mais fácil crer que as profecias foram escritas depois do seu cumprimento, do que aceitá-las como genuínas. Preferem invalidar os relatos bíblicos dos milagres por classificá-los de mitos, lendas ou folclore, a considerar a possibilidade de que realmente aconteceram. Mas, tal ponto de vista é preconceituoso e não oferece nenhuma razão válida para se rejeitar a Bíblia como verdadeira. A alta crítica tem sérias falhas, e seu ataque contra a Bíblia deixou de demonstrar que a Bíblia não é a Palavra de Deus.

Outro juízo de valor. A alta crítica tem preconceitos contra a Bíblia. É claro que a Sociedade tem pelo menos tantos preconceitos como os altos críticos, mas a favor da Bíblia, portanto será que também devemos rejeitar o ponto de vista da Sociedade? Se não, porquê? Porque a Sociedade nos diz o que gostamos de ouvir?

Além disso, se não abordamos a Bíblia de um ponto de vista "racional", o que é que isto significa? Que deveríamos abordar a Bíblia de forma irracional? O que é que eles nos estão realmente a dizer aqui?

É claro que a última frase deles é altamente subjectiva e seria contestada por muitos. Certamente que nada apresentado neste capítulo apoia o argumento da Sociedade. Eles apresentaram as coisas de uma forma extraordinariamente simplista. A alta crítica é muito mais abrangente, tem razões muito mais credíveis do que a Sociedade deixa adivinhar neste capítulo. Porque é que a Sociedade não trata dos verdadeiros argumentos da alta crítica? Este livro que estamos a comentar é que seria o mais indicado para essas questões serem discutidas, e apesar disto tudo o que eles fazem é tocar ao de leve no assunto e passar adiante. O leitor já se perguntou porque é que eles preferiram evitar este assunto?

A WTS iniciou este capítulo coma pergunta: "Será que esses críticos têm alguma base para desafiar a veracidade histórica dela?" Acha que a WTS tentou responder a esta questão de forma honesta e imparcial? Será que eles examinaram e apresentaram toda a evidência e a consideraram cuidadosamente? Ou limitaram-se a extrair a informação suficiente para apoiar as suas conclusões preconcebidas, nomeadamente que ó alto criticismo é "preconceituoso", tem "sérias falhas" e "deixou de demonstrar que a Bíblia não é a Palavra de Deus"?

É a Bíblia Apoiada Pela Arqueologia?

15 A arqueologia é um campo de estudo de base muito mais sólida do que a alta crítica. Os arqueólogos, por escavarem os restos de civilizações passadas, aumentaram de muitas maneiras nosso entendimento sobre como as coisas eram nos tempos antigos. Por isso, não surpreende que o registro arqueológico repetidas vezes se harmonize com o que lemos na Bíblia. Ocasionalmente, a arqueologia até mesmo tem vindicado a Bíblia perante os críticos dela.

E outras vezes a arqueologia contradiz completamente a Bíblia. Veja, por exemplo, evidência arqueológica a respeito da evolução, ou a respeito do suposto dilúvio global, em http://www.talkorigins.org/

16 Por exemplo, segundo o livro de Daniel, o último governante de Babilônia, antes de esta cair diante dos persas, era chamado Belsazar. (Daniel 5:1-30) Visto que, fora da Bíblia, não parecia haver nenhuma menção de Belsazar, levantou-se a acusação de que a Bíblia estava errada e que este homem nunca existiu. Mas, no século 19, em algumas ruínas no sul do Iraque, descobriram-se diversos cilindros pequenos, com inscrições cuneiformes. Verificou-se que incluíam orações pela saúde do filho mais velho de Nabonido, rei de Babilônia. O nome deste filho? Belsazar.

17 Portanto, existia um Belsazar! Mas, será que ele era rei por ocasião da queda de Babilônia? A maioria dos documentos encontrados subseqüentemente referiam-se a ele como filho do rei, príncipe herdeiro. Mas um documento cuneiforme descrito como o "Relato Versificado de Nabonido" lançou mais luz sobre a verdadeira posição de Belsazar. Relatou: "Ele [Nabonido] confiou o 'Acampamento' ao seu (filho) mais velho, o primogênito, as tropas em toda a parte no país ele mandou pôr sob (o comando) dele. Largou (tudo), confiou-lhe o reinado."8 De modo que se confiou o reinado a Belsazar. Certamente, para todos os fins e objetivos, isso fez dele um rei! Este relacionamento entre Belsazar e seu pai, Nabonido, explica por que Belsazar, durante aquele banquete final em Babilônia, ofereceu fazer de Daniel o terceiro governante no reino. (Daniel 5:16) Visto que Nabonido era o primeiro governante, o próprio Belsazar era apenas o segundo governante de Babilônia.

Uh? É isso tudo o que têm a dizer? Só Belsazar? O facto de algumas pessoas terem pensado erroneamente que Belsazar não existia não prova grande coisa. Quando escrevemos acerca de um local, a inclusão de alguns detalhes ajuda a tornar a história mais convincente. Foi isso que o autor do livro Daniel fez. O Alcorão também menciona lugares e pessoas reais.

Visto estarmos a usar a evidência arqueológica para apoiar a existência de uma personagem mencionada no livro de Daniel, porque não apresentar e examinar de forma imparcial todas as descobertas arqueológicas relacionadas com o mesmo livro? O que é que os arqueólogos descobriram? Eles encontraram tantas discrepâncias entre a arqueologia e o livro de Daniel que até elaboraram uma história de Babilónia muito diferente, baseando-se em registos arqueológicos recuperados durante o último século e meio.

Até este ponto, não há nada de relevante a assinalar. A maior parte deste capítulo foi dedicado à alta crítica, mas em vez de tratar devidamente o tema, a Sociedade limitou-se a atacar Wellhausen, e fê-lo com grande estreiteza de vistas. Se o leitor tomar tempo para ler os links que mencionei, verá que este assunto é muito mais complexo do que a Sociedade dá a entender.

Outra Evidência em Apoio

18 De fato, muitas descobertas arqueológicas demonstram a exatidão histórica da Bíblia. Por exemplo, a Bíblia relata que, depois de o Rei Salomão ter assumido o reinado de seu pai, Davi, Israel usufruiu grande prosperidade. Lemos: "Judá e Israel eram muitos, em multidão, iguais aos grãos de areia junto ao mar, comendo e bebendo, e alegrando-se." (1 Reis 4:20) Em apoio desta declaração, lemos: "A evidência arqueológica revela que houve uma explosão populacional em Judá durante e depois do décimo século a.C., quando a paz e a prosperidade trazidas por Davi tornaram possível construir muitas cidades novas."

Exactidão histórica não é sinónimo de autoria divina. Quando alguém quer basear uma história na realidade, enquadra-a em situações históricas e assim consegue ter os detalhes correctos. Shakespeare, por exemplo, enquadrou os seus trabalhos de ficção em situações e circunstâncias históricas. Não quero com isto dizer que a Bíblia é um trabalho de ficção. Só estou a dizer que a exactidão histórica num documento escrito não implica necessariamente que esse documento seja divinamente inspirado.

19 Mais tarde, Israel e Judá tornaram-se duas nações, e Israel conquistou a vizinha terra de Moabe. Em certa ocasião, Moabe, sob o Rei Mesa, revoltou-se, e Israel formou uma aliança com Judá e com o vizinho reino de Edom, para guerrear contra Moabe. (2 Reis 3:4-27) Notavelmente, em 1868, em Jordão, descobriu-se uma estela (uma esculpida laje de pedra), inscrita na língua moabita com o relato do próprio Mesa sobre este conflito.

Porque é que consideram isto notável?

20 Daí, no ano 740 AEC, Deus permitiu que o rebelde reino setentrional de Israel fosse destruído pelos assírios. (2 Reis 17:6-18) Falando sobre o relato bíblico deste evento, a arqueóloga Kathleen Kenyon comenta: "Poder-se-ia suspeitar que parte disso fosse uma hipérbole." Mas, será que é? Ela acrescenta: "A evidência arqueológica da queda do reino de Israel é quase mais vívida do que a do registro bíblico.... A completa obliteração das cidades israelitas de Samaria e Hazor, e a acompanhante destruição de Megido, é a evidência arqueológica fatual de que o escritor [bíblico] não exagerou."

Parte da história de Israel está contida na Bíblia. Normalmente na Bíblia os episódios mais recentes são mais exactos e menos fantasiosos do que os episódios mais antigos. Por exemplo, o período de tempo de há milhares de anos atrás é descrito na Bíblia como uma época em que gigantes andavam na terra, caía fogo do céu e houve um dilúvio global. Contudo, à medida que o tempo passa, o relato baseia-se mais na realidade até que chegamos a períodos, como o oitavo século A.C., em que o relato contém história real. Gigantes e fogo que cai do céu não podem ser confirmados a partir de fontes seculares. As invasões da Assíria podem.

Longe de indicarem uma fonte divina, esta progressão de relatos fantasiosos para relatos históricos é evidência de um típico embelezamento humano.

21 Ainda mais tarde, a Bíblia nos conta que Jerusalém, sob o Rei Joaquim, foi sitiada pelos babilônios e foi tomada. Este evento está registrado na Crônica Babilônica, uma tabuinha cuneiforme descoberta pelos arqueólogos. Lemos nela: "O rei de Acade [Babilônia] ... sitiou a cidade de Judá (iahudu) e o rei tomou a cidade no segundo dia do mês de adaru." Joaquim foi levado a Babilônia e encarcerado. Mais tarde, porém, segundo a Bíblia, ele foi solto da prisão e deu-se-lhe uma subsistência alimentar. (2 Reis 24:8-15; 25:27-30) Isto é apoiado por documentos administrativos encontrados em Babilônia, que alistam as rações dadas a "Yaukîn, rei de Judá".

Mais uma vez pergunto: porque é isto considerado notável? É claro que Jerusalém foi tomada por Babilónia. Isto é confirmado tanto pela história como pela Bíblia. O Velho Testamento contém grande parte da história do povo judeu. Não devemos ficar surpreendidos ao encontrar pormenores históricos que coincidem com fontes seculares.

22 Referente à relação entre a arqueologia e os relatos históricos da Bíblia, o Professor David Noel Freedman comentou: "Em geral, porém, a arqueologia tende a apoiar a validez histórica da narrativa bíblica. O amplo esboço cronológico, desde os patriarcas até os tempos do N[ovo] T[estamento], correlaciona-se com os dados arqueológicos.... Descobertas adicionais provavelmente confirmarão a atual posição moderada, de que a tradição bíblica tem raízes históricas, e foi fielmente transmitida, embora não seja história no sentido crítico ou científico."

Reparou nas palavras vagas que são usadas nesta citação? "Em geral", "amplo esboço", "provavelmente". Esta citação, retirada de uma edição de 1959 de um livro, reconhece realisticamente, de forma implícita, que nem todas as descobertas arqueológicas apoiam o registo bíblico. De facto, se o leitor estudar este assunto, verá que existem muitos exemplos em que a arqueologia contradiz os relatos bíblicos.

23 Daí, a respeito dos esforços dos altos críticos, de desacreditar a Bíblia, ele diz: "As tentativas de reconstituição da história bíblica por eruditos modernos -- p. ex., o conceito de Wellhausen, de que a era patriarcal era um reflexo da monarquia dividida; ou a rejeição da historicidade de Moisés e do êxodo, e a conseqüente reestruturação da história israelita por Noth e seus seguidores -- não sobreviveram aos dados arqueológicos tão bem como a narrativa bíblica."

Freedman pensa que o facto de terem sido feitos ajustes aos pontos de vista de Wellhausen significa que esses pontos de vista estão agora desacreditados, enquanto a Bíblia tem sido confirmada. Na realidade, os factos mostram exactamente o contrário, como qualquer investigação sobre este assunto mostra.

De fato, as descobertas arqueológicas mostraram que a Bíblia não é tão exacta como a Sociedade gostaria de nos fazer acreditar. Repare como eles tentam contornar este dilema no próximo subtítulo.

A Queda de Jericó

24 Significa isso que a arqueologia concorda com a Bíblia em todos os casos? Não, pois há diversos desacordos. Um deles é a conquista dramática de Jericó, descrita no início deste capítulo. Segundo a Bíblia, Jericó foi a primeira cidade conquistada por Josué, quando conduziu os israelitas à terra de Canaã. A cronologia bíblica indica que a cidade caiu na primeira metade do século 15 AEC. Depois da conquista, Jericó foi completamente queimada e foi deixada desabitada por centenas de anos. -- Josué 6:1-26; 1 Reis 16:34.

25 Antes da Segunda Guerra Mundial, o Professor John Garstang escavou o sítio que se acreditava ser Jericó. Ele descobriu que a cidade era bem antiga, e que ela havia sido destruída e reconstruída muitas vezes. Garstang constatou que, durante uma destas destruições, os muros desabaram como que num terremoto, e a cidade foi completamente queimada. Garstang achava que isso ocorreu por volta de 1400 AEC, não muito longe da data indicada pela Bíblia para a destruição de Jericó por Josué.

O trabalho de Garstang foi contestado naquela altura porque se baseava em evidência que não apoiava as conclusões dele. A imprensa, contudo, pegou na história sensacionalista e anunciou as descobertas de Garstang como prova de que a Bíblia é exacta. Os factos acabaram por apontar noutra direcção:

26 Depois da guerra, a arqueóloga Kathleen Kenyon fez escavações adicionais em Jericó. Ela chegou à conclusão de que os muros desmoronados, identificados por Garstang, datavam de centenas de anos antes do que ele pensava. Ela, de fato, identificou uma grande destruição de Jericó no século 16 AEC, mas disse que não havia cidade no lugar de Jericó durante o século 15 -- quando a Bíblia diz que Josué invadiu a terra. Ela passa então a relatar possíveis indícios de outra destruição que poderia ter ocorrido no lugar em 1325 AEC, e sugere: "Se a destruição de Jericó há de ser associada com uma invasão sob Josué, esta [última] data é a sugerida pela arqueologia."

Leia um relato destas descobertas neste link.

Verá aí que as coisas não são tão obscuras como a Sociedade faz parecer no parágrafo 26. De facto, vários arqueólogos descobriram, independentemente uns dos outros, que Jericó foi destruída por volta de 2400 A.C. e que era, na melhor das hipóteses, uma pequena aldeia quando Josué lá chegou, tornando a conquista desnecessária.

Se a última frase do parágrafo 26 é usada como um meio de disfarçar o embaraço causado pela arqueologia, é uma fraca tentativa, pois mesmo assim a evidência ainda é desfavorável aos estudantes da Bíblia. A data 1325 A.C. ainda não lhes serve, e obrigaria a rejeitar grande parte do registo bíblico histórico.

27 Significa isso que a Bíblia está errada? De modo algum. Temos de lembrar-nos que, ao passo que a arqueologia nos oferece uma janela para o passado, esta janela nem sempre oferece uma vista clara. Às vezes está decididamente fosca. Conforme observou um comentador: "A evidência arqueológica, infelizmente, é fragmentária, e, portanto, limitada." Isto se dá especialmente com os primeiros períodos da história israelita, quando a evidência arqueológica não é clara. De fato, a evidência é menos clara em Jericó, visto que o sítio sofreu grande erosão.

Esta citação é da Biblical Archaeology Review [Revista de Arqueologia Bíblica], que não é propriamente um observador imparcial na matéria. Um arqueólogo bíblico muito conhecido, George Wright, é citado como tendo dito que a arqueologia bíblica deve ser usada com intenções apologéticas:

"O arqueólogo bíblico pode ser ou não ele próprio um escavador, mas estuda as descobertas das escavações com o objectivo de tirar delas qualquer facto que lance uma luz directa, indirecta ou até mesmo difusa sobre a Bíblia. Ele tem de estar inteligentemente preocupado com a estratigrafia e a tipologia, sobre as quais se baseia a metodologia da moderna arqueologia.... No entanto, a sua principal preocupação não é apenas com os métodos, vasos ou armas em si mesmos. O seu interesse central e absorvente é a compreensão e exposição das Escrituras." -- Recent Archaeological Discoveries and Biblical Research [Descobertas Arqueológicas Recentes e a Investigação Bíblica], de William G. Dever, p. 18.

Como já vem sendo costume, quando é descoberta evidência que contradiz a Bíblia, a Sociedade recorre ao artifício de dizer mal do campo científico em questão. Se a arqueologia apoiasse a Bíblia de forma consistente, a Sociedade aplaudiria sem reservas esse campo de estudo. Como a arqueologia por vezes contradiz a Bíblia, a Sociedade acautela-nos dizendo que este campo científico não é muito fiável.

O que eles estão realmente a dizer é: 'Acredite na Bíblia, independentemente do que a evidência diz.' Convenhamos que esta não é uma argumentação muito convincente...

As Limitações da Arqueologia

28 Os próprios arqueólogos admitem as limitações da sua ciência. Por exemplo, Yohanan Aharoni explica: "Quando se trata de interpretação histórica ou histórico-geográfica, o arqueólogo sai do domínio das ciências exatas, e precisa depender de critérios e hipóteses para chegar a um quadro histórico compreensivo." Sobre as datas atribuídas a diversas descobertas, ele acrescenta: "Sempre devemos lembrar, portanto, que nem todas as datas são absolutas e são em variados graus suspeitas", embora ele ache que os arqueólogos de hoje podem ter mais confiança nas suas datas do que os do passado.

Portanto agora a Sociedade atribui maus motivos aos arqueólogos em toda a parte, dizendo que eles têm de se basear em juízos de valor, sendo implícito que os valores deles são suspeitos. Em seguida eles incluem uma citação que deixa implícito que as datas são suspeitas, e depois corta a citação antes de podermos ler em detalhe o que o senhor Aharoni pensa acerca das datas usadas pelos arqueólogos actuais. Na verdade, parece que Aharoni pensa que as datas actuais são razoavelmente exactas. É bom lembrar que ele morreu em 1976, portanto esta citação já tem mais de 20 anos, e por isso podemos dizer que os arqueólogos têm informações ainda mais exactas actualmente. Isto não prenuncia nada de bom para a exactidão histórica da Bíblia.

29O Mundo do Antigo Testamento faz a pergunta: "Quão objetivo ou realmente científico é o método arqueológico?" Responde: "Os arqueólogos são mais objetivos quando desenterram os fatos, do que quando os interpretam. Mas, as suas preocupações humanas afetam também os métodos que usam ao 'escavar'. Não podem deixar de destruir sua evidência ao cavarem através de camadas de terra, de modo que nunca podem testar suas 'experiências' por repeti-las. Isto torna a arqueologia ímpar entre as ciências. Além disso, torna a reportagem arqueológica uma tarefa muito difícil e cheia de armadilhas."

Mais insinuações de que não podemos confiar nesses indivíduos, os arqueólogos! É claro que, embora o que a citação diz seja verdadeiro, isso não faz com que a Sociedade pare de citar esses arqueólogos todas as vezes que lhes convém. E isso também não impede as pessoas em geral de terem grande confiança nas descobertas e interpretações arqueológicas. Os arqueólogos têm limitações, mas também aprenderam a superar essas limitações de forma eficaz.

Porque é que a Sociedade cita sem reservas os arqueólogos quando estes encontram algo que apoia a Bíblia e depois minimiza qualquer descoberta que contradiz a Bíblia? Será que os métodos dos arqueólogos tornam-se subitamente inválidos neste último caso? Ou devia a Sociedade aplicar o mesmo grau de cepticismo às descobertas que apoiam a Bíblia, para ser justa e consistente? Afinal, a Sociedade utilizou vários parágrafos para nos dizer como a arqueologia não é digna de confiança.

30 De modo que a arqueologia pode ser muito útil, mas, assim como qualquer outro empreendimento humano, é falível. Ao passo que consideramos com interesse as teorias arqueológicas, nunca devemos encará-las como verdades incontestáveis. Quando os arqueólogos interpretam seus achados dum modo que contradiz a Bíblia, não devemos automaticamente presumir que a Bíblia esteja errada e que os arqueólogos estejam certos. Sabe-se que as interpretações deles têm mudado.

Quer isso dizer que se os arqueólogos interpretarem as suas descobertas de um modo que apoia a Bíblia, nós não devemos assumir automaticamente que a Bíblia está correcta? Também devemos continuar a ser cépticos neste caso? Ou é honesto escolher as interpretações que mais nos agradam e rejeitar as outras?

31 É de interesse notar que o Professor John J. Bimson, em 1981, examinou de novo a questão da destruição de Jericó. Estudou de perto a ocorrência da destruição ardente de Jericó, a qual -- segundo Kathleen Kenyon -- ocorreu em meados do século 16 AEC. Segundo ele, a destruição não somente se ajusta ao relato bíblico da destruição da cidade por Josué, mas o quadro arqueológico de Canaã, como um todo, enquadra-se perfeitamente na descrição bíblica de Canaã quando foi invadido pelos israelitas. Por isso, ele sugere que a datação arqueológica está errada e propõe que esta destruição realmente ocorreu em meados do século 15 AEC, durante a vida de Josué.

Como seria de esperar, o Professor Bimson é um autor cristão que teria muito a perder se a arqueologia refutasse o relato bíblico. Não é de estranhar que ele gostasse de repudiar as descobertas de Kenyon (e de outros). É claro que isso não muda o consenso existente entre os arqueólogos, mas desde que consiga encontrar um membro da 'cristandade' que diga algo que quer ouvir, a Sociedade cita-o.

A Bíblia É História Genuína

32 Isto ilustra o fato de que os arqueólogos muitas vezes divergem entre si. Portanto, não surpreende que alguns discordem da Bíblia, ao passo que outros concordam com ela. Não obstante, alguns eruditos estão chegando a respeitar a historicidade da Bíblia de modo geral, se não em todos os pormenores. William Foxwell Albright representava uma escola de pensamento quando escreveu: "Tem havido um retorno geral ao apreço da exatidão da história religiosa de Israel, tanto no aspecto geral como nos pormenores fatuais.... Em suma, agora podemos novamente tratar a Bíblia do começo ao fim como documento autêntico de história religiosa."

É claro que os arqueólogos divergem entre si, especialmente quando alguns deles são 'arqueólogos bíblicos' que têm uma causa a defender a todo o custo. A cristandade ensinou durante séculos que o sol se movia à volta da terra. Quando os astrónomos finalmente mostraram que isto estava errado, outros astrónomos da época discordavam deles e diziam coisas para agradar à Igreja. Será que o facto de naquela época os astrónomos 'divergirem entre si' significava que a terra realmente não se movia à volta do sol? É claro que não. Desde que existam pessoas que defendem um ponto de vista independentemente do que os factos provam, encontraremos sempre divergências entre esses e aqueles que apenas procuram o que os factos mostram.

O senhor Albright é conhecido por ter a suposição inicial de que a Bíblia nunca erra e procurar indícios que comprovem a sua suposição. Por isso ele já há muito tempo foi repudiado, como o leitor verá se ler o artigo no site que foi mencionado anteriormente nesta página. Pessoas que agem dessa forma (partindo de suposições, em vez de se basearem em factos) foram condenadas pela Sociedade, no entanto aqui a Sociedade recorre a citações deste apologista bíblico que foi repudiado pelos seus pares.

33 De fato, a própria Bíblia leva o marco de história exata. Os acontecimentos estão relacionados com tempos e datas específicos, dessemelhantes dos da maioria dos antigos mitos e lendas. Muitos acontecimentos registrados na Bíblia são apoiados por inscrições que datam daqueles tempos. Onde ocorre uma diferença entre a Bíblia e alguma inscrição antiga, a discrepância freqüentemente pode ser atribuída à aversão dos antigos governantes de registrar suas próprias derrotas, e ao seu desejo de magnificar os seus êxitos.

Aqui a Sociedade ignora, com um aceno de mão, todos os problemas que ficaram por analisar. Embora muitos episódios estejam ligados a épocas e datas específicas, nem todos estão, e muitas dessas datas foram refutadas por descobertas modernas. Vale a pena o esforço de fazer uma investigação e ver como a Sociedade está a esconder muitos factos neste capítulo.

34 Deveras, muitas daquelas antigas inscrições são mais propaganda oficial do que história. Em contraste, os escritores bíblicos demonstram uma rara franqueza. Principais personagens ancestrais, tais como Moisés e Arão, são revelados em todas as suas fraquezas e em seus pontos fortes. Até mesmo as falhas do grande rei Davi são reveladas com honestidade. As faltas da nação como um todo são repetidas vezes expostas. Este candor recomenda as Escrituras Hebraicas como verazes e fidedignas, e dá peso às palavras de Jesus, que disse, ao orar a Deus: "A tua palavra é a verdade." -- João 17:17.

Na Bíblia existe franqueza, mas também lá encontramos propaganda e engrandecimento israelita, muito além da proporção e importância histórica que na realidade tiveram. Mais ainda, a Bíblia não é o único registo escrito que menciona falhas e fraquezas.

35 Albright prosseguiu: "De qualquer modo, a Bíblia sobreleva-se em conteúdo a toda a primitiva literatura religiosa; e sobreleva-se de modo igualmente impressionante a toda a literatura subseqüente na simplicidade direta da sua mensagem e na catolicidade [alcance abrangente] do interesse que desperta em homens de todas as terras e tempos." É esta 'mensagem sobrelevante', em vez de o testemunho de eruditos, que prova a inspiração da Bíblia, conforme veremos em capítulos posteriores. Mas, notemos neste respeito que os pensadores racionalistas modernos deixaram de provar que as Escrituras Hebraicas não são história verídica, ao passo que estes próprios escritos fornecem toda a evidência de serem exatos. Pode-se dizer o mesmo das Escrituras Gregas Cristãs, o "Novo Testamento"? Consideraremos isso no próximo capítulo.

Como não conseguiram o testemunho de peritos para provar que a Bíblia é a palavra de Deus, a que é que a Sociedade agora recorre? À opinião emocional de alguém sobre a 'mensagem sobrelevante' da Bíblia? Obviamente, alguém que supõe à partida que a Bíblia é a palavra de Deus terá desse livro uma opinião emocional que é favorável, mas será que isso "prova" que a Bíblia é inspirada?

Quanto a 'pensadores racionalistas modernos deixarem de provar que as Escrituras Hebraicas não são história verídica', o que a Sociedade quer dizer é que não se importa com as provas que esses "pensadores" apresentam. A verdade é que existem muitas descobertas que contradizem a exactidão histórica da Bíblia, mas a Sociedade prefere ignorá-las.

Por fim, os próprios escritos hebraicos não 'fornecem toda a evidência de serem exactos'. Ao longo deste capítulo vieram à superfície várias inexactidões. A Sociedade pode tentar ignorar essas e outras inexactidões, mas isso não as faz desaparecer.


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