Libertação do "Cativeiro Babilônico" em 1919?

Doug


Há algum tempo, Gedanken disse-me que precisamos de continuar a voltar aos assuntos básicos no fórum H2O, porque estão sempre a chegar novas pessoas ao fórum. Não me consigo lembrar de um único tópico, doutrina ou política relacionados com a Sociedade Torre de Vigia que não tenhamos discutido em profundidade aqui durante os últimos anos, mas os novos não sabem disso. Também, os arquivos podem tonar difícil para alguns encontrar tópicos que foram discutidos.

Assim, vou regressar ao mais básico dos assuntos, as alegações feitas pela Sociedade Torre de Vigia a respeito do "escravo fiel e discreto". Se essas alegações puderem ser refutadas, toda a base para a autoridade divina reivindicada pela Sociedade Torre de Vigia desmorona-se como um castelo de cartas. Penso que essas alegações podem ser refutadas com a mais simples das evidências e a mais simples das perguntas.

Toda a Testemunha que se preze sabe que a Sociedade ensina que ela mesma entrou no "cativeiro babilônico" entre 1914 e 1918:

"A moderna evidência histórica mostra que, durante a guerra mundial de 1914-1918, os do restante dedicado, batizado e ungido das testemunhas cristãs de Jeová foram levados ao cativeiro babilônico." [A Sentinela, 1.º de julho de 1973, p. 404]

Claro que a Sociedade Torre de Vigia nunca apresenta qualquer "moderna evidência histórica".

"João é informado sobre testemunhas que profetizaram por certo tempo (1914 a 1918), foram mortas pela fera e finalmente voltaram a viver." [A Sentinela, 1.º de setembro de 1983, p. 30]

Depois deste período de "cativeiro babilônico", Jeová libertou-os:

"Comparativamente, após um cativeiro babilônico, o restante ungido foi libertado em 1919 e, sob a direção do espírito de Deus, o outrora desolado "solo" do Israel espiritual tem sido purificado." [A Sentinela, 15 de setembro de 1988, p. 15]

Será que eles foram 'purificados'? Veremos.

Ainda durante este período, houve uma "classe do escravo mau" que foi revelada pela Sociedade Torre de Vigia:

"A história hodierna das testemunhas de Jeová mostra que alguns, constituindo a classe do "escravo mau", fizeram tentativas para assumir o controle da obra de Jeová e do seu povo. Isto se viu especialmente durante o período da Primeira Guerra Mundial. No entanto, Jeová limpou a sua organização e a tornou inteiramente teocrática." [A Sentinela, 15 de janeiro de 1972, p. 53]

O que fez esta "classe do 'escravo mau'"? Por um lado, tentaram impedir o "Juiz" Rutherford de tomar ilegalmente o controlo da Sociedade depois da morte de C. T. Russell. Por outro lado, tentaram impedir o lançamento de um livro que Rutherford tinha impresso secretamente com o dinheiro da Sociedade e estava prestes a lançar sem obter a autorização dos diretores como era requerido pela escritura [regulamento] da Torre de Vigia. Que livro era esse? Era o livro mais bizarro e patético jamais produzido pela Sociedade, e viria a ser muito embaraçoso para eles em anos posteriores. O livro era The Finished Mystery [O Mistério Consumado]. Por outro lado ainda, muitos deles deixaram a Sociedade Torre de Vigia porque se aperceberam que a Sociedade tinha feito falsas profecias sobre o que iria acontecer em 1914. Portanto, aqui está mais uma vez um sumário dos "pecados" deles:

1) Tentaram seguir as leis do país e da própria Sociedade Torre de Vigia que regulavam a corporação, bem como os desejos expressos de C. T. Russell.

2) Tentaram impedir Rutherford de lançar um livro sem a permissão deles, coisa que era exigida pela escritura [regulamento] da corporação.

3) Saíram da Sociedade Torre de Vigia porque reconheceram um óbvio falso profeta por aquilo que verdadeiramente era.

Resumindo, esta classe do "escravo mau" tentou obedecer às leis de "César" bem como às leis de Deus no que diz respeito aos falsos profetas.

Agora, regressemos à condição 'purificada' na qual o "escravo fiel e discreto" alegadamente entrou em 1919. O que mudou neles? O que foi, especificamente, purificado neles? Nada! Absolutamente nada! Eles continuaram a usar a cruz, continuaram a comemorar os feriados, incluindo o Natal, continuaram a distribuir o livro The Finished Mystery [O Mistério Consumado], continuaram a acreditar que Russell era o "escravo fiel e discreto", e que ninguém podia chegar à verdade da Bíblia sem usar os escritos dele.

O fato é que este "cativeiro babilônico" nada mais era além da detenção de Rutherford e dos seus associados, por terem distribuído The Finished Mystery [O Mistério Consumado], que encorajava a sedição contra os governos e vilificava outras religiões da forma mais revoltante.

Em resultado desta 'purificação', será que a Sociedade Torre de Vigia ficou firme na defesa das suas crenças e princípios? Não! O governo dos Estados Unidos ordenou que eles excluíssem um certo número de páginas do livro The Finished Mystery [O Mistério Consumado] e eles fizeram-no mansamente. Por que haveria Deus de permitir, nessa 'purificação', que algo fosse escrito e impresso, sendo que hoje eles não acreditam nem ensinam nada do que foi escrito nesse livro?

O homem alegadamente "escolhido" por Deus para liderar este grupo de crentes nesta posição 'purificada' não era outro senão o próprio Rutherford. Ele era sem sombra de dúvida o homem mais corrupto, hipócrita, mentiroso e vingativo que alguma vez liderou a Sociedade Torre de Vigia. Ele tinha mansões, apartamentos, Cadillcs, caixas de licor ilegal e não pregava de casa em casa. Ele escreveu livros que até hoje são uma desgraça vergonhosa para a Sociedade Torre de Vigia. Ele era um caluniador, e até publicou "profecias" bíblicas na revista A Sentinela, que aplicou a um dos seus inimigos pessoais. Ele foi processado judicialmente por calúnia e teve de estabelecer um acordo fora do tribunal para não ter de enfrentar ainda mais humilhação pública. Ele aplicou a profecia das "7 trombetas" de Revelação diretamente a uma série de assembléias insignificantes da Torre de Vigia realizadas na década de 1920. Ele disse que "Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão". Ele disse que as "autoridades superiores" [mencionadas em Romanos capítulo 13] eram Jeová e Jesus, o que lhe deu um pretexto para contrabandear licor do Canadá para os Estados Unidos durante a proibição. Ele disse que a ressurreição terrestre dos "notáveis da antigüidade" em 1925 era ainda mais certa do que o dilúvio dos dias de Noé. Ele abusou, rebaixou e humilhou publicamente os humanos que mantinha em Betel e que trabalhavam como escravos para o império pessoal dele. Ele recusava-se a mostrar os registos financeiros da Sociedade Torre de Vigia a quem quer que fosse, incluindo os diretores da Sociedade.

A Sociedade Torre de Vigia é hoje aquilo que é, em resultado de coisas que Rutherford começou: a "Teocracia" de cima para baixo, as crenças relacionadas com 1914-1918 e 1919 (sobre as quais assenta tudo o resto), o ódio a todas as outras crenças religiosas, a paranóia da Sociedade Torre de Vigia, ódio aos governos, a idéia de uma "organização", o desprezo pela educação universitária, e políticas grandemente ampliadas de desassociação [excomunhão], para mencionar apenas algumas.

Não houve qualquer "cativeiro babilônico" nem "libertação" desse cativeiro. Rutherford inventou isso tudo a partir do nada. Além disso, nenhuma pessoa razoável acreditaria que Deus esperaria 1900 anos e depois acabaria escolhendo um homem tão mau e corrupto como Rutherford para liderar a sua igreja "restaurada".


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