"Nova Luz" Acerca do Serviço Cívico em Substituição do Serviço Militar Para as Testemunhas de Jeová


Excerto do artigo: "Pagamos a César as Coisas de César", publicado na Sentinela de 1.º de Maio de 1996 (pp. 18-20):

"[Desde o tempo de Constantino] os clérigos da cristandade... têm incentivado seus rebanhos a servir nos exércitos das nações, embora algumas pessoas tenham adotado uma posição como objectantes por motivo de consciência.

"Têm os cristãos hoje a obrigação de seguir a maioria neste assunto? Não. Caso um cristão dedicado e batizado more num país onde se concede eximição do serviço militar aos ministros de religião, ele poderá aproveitar-se desta provisão porque de fato é ministro....

"O que se dá, porém, quando o cristão mora num país que não concede eximição aos ministros religiosos? Então ele terá de fazer uma decisão pessoal, seguindo sua consciência treinada pela Bíblia....

Serviço Civil

"No entanto, há países em que o Estado, embora não conceda eximição aos ministros religiosos, reconhece que algumas pessoas podem ter objeção ao serviço militar. Muitos destes países têm providências para não obrigar essas pessoas consciênciosas a prestar serviço militar. Em alguns lugares, o serviço civil compulsório, tal como um trabalho útil na comunidade, é considerado como serviço não-militar, nacional. Pode o cristão dedicado prestar tal serviço? Novamente, o cristão dedicado e batizado terá de fazer a sua própria decisão à base da sua consciência treinada pela Bíblia.

"Parece que em tempos bíblicos se praticava o serviço compulsório.... As Testemunhas de Jeová têm muitas vezes concordado em prestar tal serviço quando é para o bem da comunidade e não está ligado à religião falsa, nem é de outra maneira objectável à consciência delas. Isto usualmente tem resultado num testemunho excelente e às vezes tem silenciado os que acusam falsamente as Testemunhas de serem contra os governos.

"O que se dá, porém, quando o Estado exige que o cristão preste serviço civil durante um período como parte dum serviço nacional sob uma administração civil? Novamente, os cristãos têm de fazer a sua própria decisão baseada numa consciência informada. "Nós todos ficaremos postados diante da cadeira de juiz de Deus." Os cristãos que se vêem confrontados com uma exigência de César devem com oração estudar o assunto e meditar sobre ele. Pode ser também sábio conversar sobre o assunto com cristãos maduros na congregação. Depois tem de se fazer uma decisão pessoal."

Comentário de Randall Watters

Este é um volte-face importante na posição da Watchtower sobre esta matéria. Parece que isto representa mais uma mudança na inversão do dogmatismo introduzido nos dias de "Joe" Rutherford, segundo presidente da Watchtower. Por exemplo, a citação que se segue é retirada do artigo "Christian Neutrals In A Bloodstained World" [Os Cristãos Mantêm a Neutralidade Num Mundo Manchado de Sangue], da Watchtower de 1.º de Setembro de 1986, apenas 10 anos atrás:

"Portanto, quando César exigiu ter as coisas de Deus, [os cristãos] agiram em harmonia com os princípios apresentados em Actos 4:19 e 5:29. Quer o assunto fosse o derramamento de sangue, trabalho militar não-combatente, serviço alternativo, ou saudar uma imagem tal como uma bandeira nacional, os cristãos fiéis adoptaram a posição de que não existe meio termo. Em alguns casos eles foram executados devido a esta posição."

Poderíamos acrescentar que algumas Testemunhas de Jeová ainda estão presas em certos países devido a esta posição anterior, que agora é considerada "velha luz." Não acham que esses prisioneiros vão ficar felizes ao ouvirem esta nova doutrina, especialmente em vista do facto de ainda terem de servir durante o resto da sua pena de prisão?


Comentário de Osarsif

A publicação oficial das Testemunhas de Jeová intitulada Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro, lançada em 1983, diz na página 167:

"Um exame dos factos históricos mostra que as Testemunhas de Jeová não somente recusaram vestir uniformes militares e pegar em armas, durante o último meio século, ou mais, mas que também recusaram fazer serviços não-combatentes ou aceitar outro serviço militar."

É deveras curioso: as Testemunhas de Jeová originalmente (i.e., no tempo de Russell e nos primeiros tempos do reinado de Rutherford, até meados de 1930) aceitavam servir no exército (Russell tolerava isto) e aceitavam serviço cívico em substituição do serviço militar. Depois Rutherford decidiu que não senhor, não há serviço cívico para ninguém. Quem aceitar esse serviço é excomungado e condenado pela seita ao ostracismo. Passa-se "meio século, ou mais" em que as Testemunhas vão parar às prisões, sofrem todo o tipo de brutalidades e muitos são até mortos por recusarem o serviço cívico. Conforme diz o livro Unidos na página 167:

"Muitas das Testemunhas de Jeová foram encarceradas por não quererem violar a sua neutralidade cristã. [eufemismo da Watchtower para se referir à aderência às políticas da seita] Algumas foram tratadas com brutalidade, mesmo a ponto de serem mortas. Outras continuaram a demonstrar a sua neutralidade durante anos de prisão."

E eis que agora, a partir de 1996, os fazedores das doutrinas em perpétua mudança da Watchtower decidem que, afinal de contas, o serviço cívico é OK para as Testemunhas! Mais outro flip-flop para juntar à colecção. Estiveram errados "durante o último meio século, ou mais" e nem uma palavra de desculpa aos jovens que fizeram ir parar às prisões ou às famílias dos que foram executados por causa disto. Nem sombra de reconhecimento do erro em que induziram milhares de jovens. Nada! Tal como no caso das proibições sobre as vacinas e os transplantes (que também foram abandonadas depois de alguns anos em que morreram muitos adeptos), a Watchtower remete-se ao silêncio, fazendo de conta que não é nada com eles.

O que é curioso é a forma como estes indivíduos procuram sempre justificar com textos bíblicos as suas doutrinas disparatadas. Torcem sempre a Bíblia para se ajustar às opiniões mais contraditórias, seja a favor, seja contra o serviço cívico. Note-se a argumentação que usavam em 1983 no livro Unidos (p.167) para fundamentar a sua recusa em aceitar o serviço cívico:

"Quando se requer delas que expliquem a sua atitude, as Testemunhas de Jeová têm tornado conhecido que, como pessoas que se apresentaram a Deus em dedicação, têm a obrigação de usar o seu corpo no serviço dele, não podendo agora cedê-lo a amos terrestres que agem contrário ao propósito de Deus."

(A seguir vinha uma enxurrada de versículos bíblicos, como é da praxe...)

Parece que agora, a partir de 1996, com esta nova doutrina a permitir o serviço cívico para as Testemunhas de Jeová, já não há qualquer problema em ceder o corpo "a amos terrestres que agem contrário ao propósito de Deus"...


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