O Testemunho de Randall Watters

Randall Watters


Tendo sido pioneiro durante dois anos e estando ansioso por viver no centro da "organização de Deus," Betel parecia ser um lugar maravilhoso para se estar. Desde o início aprendi a trabalhar com uma impressora, imprimindo a New World Translation [Tradução do Novo Mundo], o livro Aid to Bible Understanding [Ajuda ao Entendimento da Bíblia] e muitas outras publicações. Em 1977 eu tinha sido designado superintendente de piso e ancião de Betel. Eu estava encarregado das impressoras que produziam as Bíblias deles e ajudei a começar uma escola de treinamento em impressão offset. Projectos posteriores envolveram ajudar a renovar toda a operação de impressão. Viajando regularmente por New England como orador, fiz bons amigos e gostava do meu trabalho. Eu estava convencido que esta era realmente a "organização de Deus," e até era zeloso a denunciar os que mantinham pensamentos contrários àqueles do "escravo fiel." Eu era bem conhecido como um "homem da organização."

A grande mudança na minha perspectiva ocorreu no início de 1979. Numa viagem de negócios para Massachusetts com três outros superintendentes da fábrica, estávamos discutindo a importância da fé para a salvação e como a organização torna as obras de uma pessoa a coisa verdadeiramente importante (mais do que a genuína fé) ao contar o tempo (gasto ao ir de porta em porta), ao manter registos de actividade pessoal, etc. A partir deste tempo comecei um estudo que me intrigou mais e mais: o estudo das cartas de Paulo aos Romanos e aos Gálatas. Em Betel, assisti a um estudo da Bíblia numa Segunda-feira à noite depois do "estudo da Watchtower" (Sentinela) da família de Betel. Nós usávamos várias traduções da Bíblia diferentes e avançámos pelo Novo Testamento capítulo por capítulo. Estava a tornar-se perceptível para os do nosso grupo que havia uma diferença significativa entre estudar o que a Watchtower dizia sobre a Bíblia e estudar de facto a própria Bíblia.

Espalhou-se o comentário que o Corpo Governante tinha discutido a validade da data 1914, ou mais exactamente, que o assunto tinha sido levado para discussão mas fora rapidamente abandonado. Também o assunto acerca da importância de se desenvolver a consciência pessoal em vez de viver por um código de regras tinha sido repetidamente levantada e parecia que seria tolerada dentro da organização uma certa medida de liberdade. Tinham sido publicados artigos que pareciam dar às Testemunhas mais liberdade nas suas consciências quanto aos assuntos do emprego e das suas vidas privadas.

Tome-se como exemplo o artigo na Watchtower (Sentinela) de 1.º de Outubro de 1972 acerca de "Your Conscience and Your Employment" [A Sua Consciência e o seu Emprego]. Foi clarificado que uma pessoa que trabalhasse numa plantação de tabaco podia escolher ficar lá ou desistir do trabalho; isso dependia da sua consciência. Poucos meses depois os anciãos queixavam-se ao Corpo Governante que o rebanho estava a tomar liberdades em demasia e tinham de ser estabelecidas regras. Assim, o Kingdom Ministry [Ministério do Reino] de Setembro de 1976 declarou na página 3 que uma testemunha certamente "não se podia envolver na manufactura, venda ou promoção" de cigarros. Milton Henschel, um membro do Corpo Governante, disse certa vez acerca de outro assunto de consciência que "Se deixarmos os irmãos fazer isto, não se sabe até onde eles irão." Embora em conflito directo com as palavras de Paulo em Romanos 7:6 e Gálatas 2:16-21; 3:10, o Corpo Governante achou necessário estabelecer regras para "manter os irmãos na linha." Vez após vez ouvi esta expressão entre aqueles em posições de responsabilidade em Betel, "Simplesmente não se pode confiar os irmãos a si mesmos." Por outras palavras, o amor que uma Testemunha de Jeová típica tem por Jeová aparentemente não era suficiente para o manter longe de problemas, eram necessárias regras, ordens para recuar e restrições para governar todos os aspectos da sua vida. No entanto, a minha experiência como superintendente ensinou-me o contrário. Quando se confia nas pessoas, elas sentem-se confortáveis e trabalham ainda mais para ter o trabalho feito. Infelizmente, este não era o ambiente que prevalecia em Betel.

Até ao fim de 1979, as opiniões pessoais podiam ser discutidas entre amigos íntimos e era bem conhecido entre os Betelitas mais "maduros" que a maioria dos membros do Corpo Governante e do Departamento de Redacção tinham divergências de opinião em matérias doutrinais. Por exemplo, Colin Quackenbush, ex-director da revista Awake! (Despertai!), acreditava que todos os "144.000" (a classe celestial) devem ter sido escolhidos no fim do primeiro século, pois a História afirma que existiram milhões de Cristãos mesmo nos anos iniciais da igreja, tendo muitos destes sofrido o martírio por causa da sua fé. Fred Franz, o quarto presidente da Organização, por vezes expressou opiniões que tinha de qualificar como sendo a sua opinião e não o consenso geral dos outros membros do Corpo Governante. No entanto, no fim de 1979, ninguém se atreveria a admitir tais diferenças. Aqueles que o faziam foram desassociados.

Na época em que o casal Sanchez foi desassociado e Ray Franz foi julgado, eu ouvia através dos rumores quem seria o próximo a "levar a machadada." Os membros mais recentes do Corpo Governante revezaram-se na difamação das personalidades destes "apóstatas" para provarem a sua lealdade aos membros mais velhos do Corpo Governante. Um comentário da Bíblia que era popular (Barnes's Notes on the New Testament [Notas de Barnes Acerca do Novo Testamento]) foi banido das bibliotecas durante algum tempo, porque alguns Betelitas que o tinham usado nos seus estudos viram para além da pesquisa superficial das publicações das Testemunhas de Jeová e criticaram-nas. Revelando insegurança acerca da sua própria base doutrinal, a Watchtower de 15 de Agosto de 1981, pp. 28-29 (A Sentinela de 1.º de Junho de 1982, p. 28 § 14 em português) deu uma punhalada naqueles que queriam estudar a Bíblia sem a Sentinela: "Dizem que basta ler exclusivamente a Bíblia, quer em particular, quer em pequenos grupos em casa. Mas, o que é estranho é que por meio de tal 'leitura da Bíblia' voltaram novamente para trás, para as doutrinas apóstatas que os comentários dos clérigos da cristandade estavam ensinando há 100 anos".

O grande problema é este: não é permitido a uma Testemunha de Jeová interpretar a Bíblia, tem de confiar nas interpretações em constante mudança de 10 homens que estão em Nova Iorque, nenhum dos quais é perito em Grego ou Hebraico e que não têm qualquer autoridade para traduzir uma Bíblia e muito menos para controlar as vidas de milhões de pessoas.


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