Resposta aos Apologistas das Testemunhas de Jeová Sobre as Vacinas

Notas de Osarsif sobre a página "Estiveram proibidas as vacinas entre as testemunhas?"


Credibilidade

Alguns opositores afirmaram erroneamente que as publicações das testemunhas de Jeová proibiam o uso de vacinas desde 1931 até 1952, e o permitiram depois. Aparentemente, fazem esta afirmação tratando de desacreditar nossa posição atual com respeito às transfusões de sangue, dando a entender direta ou indiretamente que nossa posição sobre a vacinação era igual de estrita que a do sangue e que esta também mudará. Também se trata de dar a imagem de que as testemunhas de Jeová não têm nenhuma credibilidade em assuntos médicos.

Os "opositores" não apenas "afirmaram" correctamente que as Testemunhas de Jeová tiveram uma política de oposição radical a todas as vacinas entre 1921 (note que não é 1931 como estes apologistas dizem, aparentemente numa tentativa de minimizar a dimensão do seu erro e encurtar em 10 anos o período da sua oposição às vacinas) e o fim de 1952, como também provaram as suas afirmações citando textualmente as partes relevantes dos artigos das revistas das Testemunhas de Jeová onde essa política foi apresentada, indicando a data e a página das revistas e em alguns casos fornecendo até scans desses artigos para que o leitor possa comprovar por si mesmo a autenticidade das afirmações. As publicações das Testemunhas de Jeová disseram que as vacinas eram um "crime" e uma "prática diabólica" e eram responsáveis pela disseminação de "demonismo" e imoralidade sexual e eram uma "mistificação cruel" que Satanás usava para enganar a humanidade. Na prática, isto equivale a proibi-las, pois a doutrina das Testemunhas de Jeová proíbe os crimes, as práticas diabólicas e o demonismo. Os apologistas das Testemunhas de Jeová que, numa tentativa de minimizar o seu problema, argumentam que as vacinas não eram proibidas, ficam na posição embaraçosa e insustentável de ter que defender que as Testemunhas de Jeová daquela época podiam praticar crimes, práticas diabólicas, demonismo, imoralidade sexual e participar na "mistificação cruel" que Satanás usava para enganar a humanidade e continuar como Testemunhas de Jeová aprovadas pela Sociedade Torre de Vigia.

No parágrafo citado acima, os apologistas das Testemunhas de Jeová dizem que quem documenta a posição das Testemunhas de Jeová de oposição total e radical contra as vacinas naquele período está a tentar desacreditar a posição actual das Testemunhas de Jeová a respeito das transfusões de sangue. A posição das Testemunhas de Jeová sobre o sangue nunca teve qualquer credibilidade, portanto não é preciso desacreditá-la. As publicações oficiais das Testemunhas de Jeová e os seus apologistas auto-nomeados fazem eles mesmos um excelente trabalho de desacreditação, basta ler os artigos em que tentam defender cegamente cada nova mudança, remendo ou flip-flop que os seus líderes introduzem na política do sangue, muitas vezes abandonando ou deitando para o caixote do lixo proibições sobre alguns constituintes do sangue que antes apresentavam como 'requisitos bíblicos para os cristãos' e "lei de Deus", e que depois foram obrigados a admitir que eram apenas ordens disparatadas dos seus chefes que resultaram em mortes inúteis e evitáveis, sem qualquer sentido. O parágrafo citado acima afirma que os "opositores" dão a entender que a posição sobre a vacinação era estritamente igual à do sangue e que esta também mudará. Penso que isto é uma falácia de straw man (espantalho) da parte do apologista das Testemunhas de Jeová que escreveu isso. O que os críticos disseram foi que há similaridades mais que evidentes entre as posições das Testemunhas de Jeová sobre as vacinas naquele tempo e a posição sobre o sangue actual, especialmente ao nível da argumentação, textos bíblicos usados, histórias de horror na revista Despertai! sobre as doenças e mortes contraídas por se aceitar vacinas e transfusões de sangue, acusação de que era a avidez por dinheiro que estava por detrás das vacinações e das transfusões de sangue, etc.

A parte final do parágrafo, onde o apologista das Testemunhas de Jeová diz que "se trata de dar a imagem de que as testemunhas de Jeová não têm nenhuma credibilidade em assuntos médicos", é a mais cómica e revela bem como as Testemunhas de Jeová estão desfasadas da realidade. A generalidade das pessoas só ouviu falar das Testemunhas de Jeová precisamente devido à falta de credibilidade delas em assuntos médicos, nomeadamente, "são aquelas pessoas que deixam morrer os filhos porque não aceitam transfusões de sangue". As pessoas que conhecem melhor a história das Testemunhas de Jeová em assuntos médicos sabem do estarrecedor charlatanismo em assuntos médicos em que elas estiveram mergulhadas durante décadas e que promoveram e recomendaram para o público em geral, em que a oposição radical e total às vacinas é apenas um episódio de uma longuíssima história que não lhes dá credibilidade absolutamente nenhuma em assuntos médicos. A argumentação falaciosa e desonesta em defesa de cada nova reviravolta na política do sangue que ocorreu nos últimos anos também não lhes dá credibilidade nenhuma. A Sociedade Torre de Vigia cria na mente das Testemunhas de Jeová uma imagem sobre elas mesmas de tal modo falsa, distorcida e desonesta que não me admiraria se esse apologista delas também pensasse que o público em geral tem das Testemunhas de Jeová uma imagem de muita credibilidade em assuntos de interpretação da Bíblia ou profecias sobre o fim do mundo.

Documentos originais

Muitos de nossos detractores demonstram descuido ao não comprovar os documentos originais para verificar a validez de suas declarações.

A organização das Testemunhas de Jeová esforça-se ao máximo em esconder e dificultar o acesso aos documentos originais, a ponto de ser quase impossível obter cópias de muitos deles (como a revista A Idade de Ouro), portanto essa acusação é o cúmulo da desonestidade e da hipocrisia. Se algumas pessoas não conseguem verificar a validez das declarações através do exame dos documentos originais, isso não se deve a "descuido", deve-se ao facto de a organização das Testemunhas de Jeová se sentir embaraçada pelas muitas imbecilidades que publicou no passado e tentar a todo o custo esconder e tornar praticamente impossível o acesso a esses documentos. Quando conseguimos acesso a documentos antigos dos Estudantes da Bíblia/Testemunhas de Jeová, geralmente é devido aos esforços de ex-Testemunhas de Jeová, ou de russellitas (não confundir com Testemunhas de Jeová). Ainda recentemente a Sociedade Torre de Vigia processou judicialmente uma ex-Testemunha de Jeová em mais de 100.000 dólares porque, entre outras razões invocadas na acusação, esta pessoa estava a distribuir um CD-ROM com reproduções de livros das Testemunhas de Jeová das décadas de 1940 e 1950. Se estão assim tão preocupadas por as pessoas não comprovarem os documentos originais para verificar a validade das declarações, por que é que as Testemunhas de Jeová não publicam no seu site oficial todo o arquivo das suas revistas e livros desde 1879 até à actualidade? Conforme foi dito acima, vários dos artigos de críticos que documentam este assunto das vacinas têm não só a indicação da data e página das revistas mas também scans dos artigos, portanto esta acusação de que os "detractores" não verificaram os documentos originais não é válida para estes casos. E de qualquer modo a acusação é irrelevante, pois os documentos originais não refutam as declarações e citações sobre as vacinas, pelo contrário, confirmam-nas.

1950-1952: as Testemunhas de Jeová ainda recusavam as vacinas

Por exemplo, a declaração de que em data tão tardia como nos anos 50 as testemunhas de Jeová ensinavam que um cristão não devia vacinar-se, é uma falsidade fácil de rebater. Desde 1944 a Sociedade requeria a todos seus representantes que estivessem vacinados.

Mentira. O que Macmillan diz (na citação que aparece mais à frente) é que os funcionários das Testemunhas de Jeová que visitavam filiais fora dos Estados Unidos se vacinavam ou, se não, ficavam em casa. Os funcionários que visitavam filiais fora dos Estados Unidos eram um número muito reduzido de pessoas (apenas um punhado de altos funcionários), não eram de modo nenhum "todos os seus representantes", portanto você está a deturpar o que Macmillan disse. E as palavras "ou se não, ficamo-nos em casa" deixam perceber que alguns talvez recusassem as vacinas e por isso não saíam dos Estados Unidos. O seu comentário também é desonesto pois você sabe perfeitamente que na religião das Testemunhas de Jeová uma doutrina é válida até que apareça nas publicações algum artigo a dizer que a doutrina foi abandonada. Enquanto não aparece um artigo a contradizer uma doutrina anterior, as Testemunhas de Jeová para tomarem as suas decisões continuam a consultar os índices de publicações da Torre de Vigia que remetem para publicações lançadas nos anos e décadas anteriores e que afirmam a doutrina. Ora, você não consegue indicar absolutamente nenhum artigo das publicações anterior a 1952 que diga que a política das Testemunhas de Jeová sobre as vacinas tinha mudado. Portanto as Testemunhas de Jeová em todo o mundo (pelos vistos com a excepção, a partir de algures na década de 1940, de alguns espertalhões hipócritas na cúpula dirigente das Testemunhas de Jeová que visitavam filiais no estrangeiro e de alguns presos com quem Macmillan falou) continuavam a guiar-se pelo que a "organização de Deus" tinha escrito condenando as vacinas.

Que a organização das Testemunhas de Jeová nos primeiros anos da década de 1950 ainda estava a instruir as Testemunhas de Jeová a recusar vacinas pode ver-se neste relato de William Cetnar, que na altura era um alto funcionário na sede da Sociedade Torre de Vigia e que tinha, entre outras responsabilidades, a de responder a cartas de Testemunhas de Jeová de um terço dos Estados Unidos (a fonte desta citação é o livro de Edmond C. Gruss We Left Jehovah's Witnesses, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1976, pp. 64-66):

"Vacinação é uma violação directa da lei de Jeová Deus."

Em Dezembro de 1951, quando o Presidente Knorr veio para passar em revista o meu departamento, eu tinha cerca de trinta cartas na minha secretária de pais que tinham perguntado se era contra a lei de Deus permitir que os seus filhos tivessem vacinações contra a varíola conforme era exigido por lei para admissão nas escolas públicas. O ponto de vista da Sociedade sobre o assunto tinha sido claramente afirmado anos antes: "... Como a vacinação é uma injecção directa de matéria animal na corrente sanguínea, a vacinação é uma violação directa da lei de Jeová Deus" (The Golden Age, 24 de Abril de 1935, p. 465). A minha resposta a estas cartas devia ter sido um assunto simples, mas eu não tinha confiança na posição da Sociedade sobre este ponto. Depois de algumas perguntas a respeito do meu trabalho, Knorr perguntou: "O que são aquelas cartas ali na sua secretária?" Respondi dizendo que estava a ter um problema em responder-lhes porque não sentia que a política da Sociedade sobre as vacinas fosse correcta. Ele respondeu: "Não lhe compete a si determinar política." Depois da nossa conversa saí para Pittsburgh, Pennsylvania, para dar um discurso. Quando voltei descobri que as cartas na minha secretária tinham sido respondidas.

Mais tarde visitei os Laboratórios Lederle, que faziam a vacina contra a varíola, e descobri que as minhas suspeitas estavam correctas. Embora a Sociedade ensinasse que as vacinas violavam a lei de Deus porque introduziam sangue animal em humanos, descobri que isto não era verdade. A vacina era feita por um processo conhecido como avianização, no qual a vacina era cultivada no embrião em desenvolvimento da galinha e não envolvia sangue de modo nenhum. Ao regressar à sede, enviei um memorando ao presidente a respeito da minha descoberta, mas nunca foi acusada a recepção.

"'Deus mudou de ideias'... 15 de Abril de 1952"

Para minha surpresa, "Deus mudou de ideias" numa carta datada de 15 de Abril de 1952; na carta a Sociedade, falando por Deus, voltou atrás em relação ao que tinha dito a respeito das vacinações serem "uma violação directa da lei de Jeová Deus". Entre outras coisas esta carta declarou que "O assunto da vacinação é um [assunto] para o indivíduo que tem de enfrentá-lo para decidir por si próprio.... Portanto toda a objecção à vacinação com base nas Escrituras parece deixar a desejar." Quando esta mudança apareceu, pensei, tal como muitas outras Testemunhas, que a organização de Deus mudava quando encontrava algo errado. O que eu devia ter pensado era: como é que eles podiam ter ensinado e exibido o erro como sendo a "lei de Jeová" durante tanto tempo? A proscrição errada sobre as vacinações tinha criado alguns problemas reais. Por exemplo, antes de uma criança poder frequentar o primeiro ano nas escolas públicas tinha de apresentar um certificado de vacinação contra a varíola. Como é que isto podia ser realizado pelas Testemunhas que acreditavam que a vacinação era contra a lei de Deus? Os pais da minha esposa fizeram o que muitos outros pais Testemunhas foram constrangidos doutrinalmente a fazer. Levaram-na a um médico que simulou uma vacinação na perna dela usando ácido. Ele assinou o certificado e ela não teve qualquer problema em entrar na escola. A prima da Joan também teve uma "vacinação" similar, mas infelizmente o médico entornou acidentalmente o ácido na perna dela. Ela ainda hoje tem a marca. Foi-me dito que A. E. Ilett, o médico de Betel, preencheu certificados sem [efectuar as] vacinações. Isto deve ter acontecido, porque sem vacinações os missionários Testemunhas não podiam sair do país e eles conseguiram certificados em algum lugar. De facto, foi-me dito por um dos irmãos que a Sociedade estava prestes a meter-se em sarilhos neste assunto e que foi isso que produziu a política mudada. Eu pessoalmente recebi a vacina contra a varíola, mas o meu irmão e irmã não receberam.

Outro problema que se desenvolveu foi explicado por uma Testemunha de longa data, A. H. Macmillan, no seu livro Faith on the March. Tinha sido negado a algumas Testemunhas a isenção do recrutamento como ministros e foram colocados em prisões federais. Tinha sido recebida uma ordem do Departamento de Saúde segundo a qual todos os homens nestas prisões tinham de ser vacinados. Testemunhas numa prisão que recusaram a vacinação foram colocados em confinamento solitário. Macmillan pediu e recebeu autorização para falar com estes homens. Na discussão de duas horas que se seguiu, é interessante ler como Macmillan na realidade contradisse os argumentos que tinham sido empregues em apoio da posição das Testemunhas contra as vacinas (veja a p. 189). Ele também não explicou que os homens [que recusavam as vacinas] estavam na verdade a seguir a política da Sociedade ao adoptar a sua posição [de recusa]. Os homens aceitaram as vacinações.

Qual é a importância desta posição sobre a vacinação mantida pela Sociedade até 1952? Milhares de pais e filhos Testemunhas foram colocados na posição de obedecer à "lei de Deus" (o dictum erróneo da Torre de Vigia) e mentir às autoridades escolares. Homens estiveram desnecessariamente em confinamento solitário por causa dos erros da Sociedade. Por que é que a posição oficial da Sociedade só mudou em 1952? Será que também se descobrirá um ensino errado na proscrição da Sociedade sobre as transfusões de sangue? O problema neste ponto é que milhares já terão sacrificado as suas vidas no altar do erro da Torre de Vigia.

A. H. Macmillan e os presos

Em 1944-45, A.H. Macmillan teve que animar a certas testemunhas de Jeová encarcerados por objeção de consciência a que se vacinassem. Escreveu: "Um dos problemas mais sérios que tive do que tratar era o das vacinas. Alguns de nossos rapazes numa prisão (...) negaram-se a fazê-lo. (...) Disse-lhes que perdíamos o tempo falando dos males da vacina porque poderia dizer-se muito a favor e em contra. (...) Ademais, todos os que visitamos sucursais estrangeiras nos vacinamos, ou se não, ficamo-nos em casa" (A.H. Macmillan, Faith on the March, págs. 188, 189). Também é digno de nota o fato de que, dos aproximadamente 4.300 Testemunhas encarcerados em diversas prisões de Estados Unidos durante a guerra (segundo Cushman R.E., Civil Liberties in the Ou.S. p. 96-97, Cornell University ress, Ithaca, N.E. 1956; Zygmunt J.F. Jehovah's Witnesses in the USA 1942-1976. Social Compass 24, 47, 1977), só um grupo se negasse a aceitar a vacinação obrigatória.

Acho irónico que estes apologistas das Testemunhas de Jeová acusem os críticos de serem descuidados e de não verificarem os documentos originais e logo em seguida digam "Por exemplo" e depois apresentam como exemplo de descuido e de não verificação dos documentos originais o caso relatado por Macmillan, como se tivessem descoberto algo que os críticos, no seu descuido, tivessem negligenciado verificar. A verdade é que neste parágrafo estes apologistas estão a fazer copy and paste de um site de críticos das Testemunhas de Jeová! O texto dos apologistas no parágrafo acima foi plagiado do artigo "The Blood Transfusion Taboo of Jehovah's Witnesses" do site Watchtower Information Service, um dos mais importantes sites que criticam e refutam as Testemunhas de Jeová! Também acho cómico que estes apologistas das Testemunhas de Jeová ao plagiarem parte do artigo reproduzido pelo site de ex-Testemunhas de Jeová (e que apareceu originalmente na revista Social Science & Medicine) tenham convenientemente deixado de fora uma porção de coisas altamente embaraçosas para as Testemunhas de Jeová e que refutam alguns dos seus argumentos, como por exemplo o facto de Woodworth, editor de A Idade de Ouro, ser fortemente contra as vacinas (os apologistas nem sequer o mencionam e tentam passar a ideia de que o editor da revista não se pronunciava a favor nem contra os artigos contra as vacinas escritos por outros na revista, o que é falso), ou o facto de que "até à década de 1960 [as vacinas] ainda eram consideradas um acto de poluição do sangue e do corpo" pela Sociedade Torre de Vigia. O artigo ainda tem mais coisas, como a citação de que "pessoas de reflexão prefeririam ter varíola em vez de se vacinarem" (é interessante como os apologistas fazem de conta que esta e muitas outras citações do mesmo teor que apareceram nas revistas não existem e não as transcrevem, nem as comentam, o que, conjugado com a sua tentativa de deitar as culpas para cima de Charles A. Pattillo e de fazer dele bode expiatório, deixa o leitor com uma imagem completamente errada e distorcida sobre a responsabilidade da Sociedade Torre de Vigia na questão das vacinas) ou a citação que diz: «O tratamento [vacinação] foi adicionalmente descrito como "aviltante", "diabólico" e "influenciando as tendências criminais da presente geração" [...] os escritos marcadamente cínicos também contêm uma atitude antagonista em relação à profissão médica, à indústria farmacêutica e, acima de tudo, ao Estado [...]».

Na página 188 do seu livro, lemos que Macmillan disse ao grupo de presos que recusavam as vacinas: "Eles [referindo-se às autoridades da prisão] têm todos vocês onde podiam vacinar um elefante e eles vão vaciná-los a todos." Se juntarmos a isto o facto de aqueles que recusavam a vacina serem enviados para o confinamento solitário por tempo indeterminado até aceitarem as vacinas, a ideia com que ficamos é que aqueles milhares de prisioneiros aceitaram as vacinas porque foram obrigados a isso pelas autoridades da prisão (ou convencidos por Macmillan no caso de um grupo que resistiu à pressão para aceitar as vacinas), i.e., porque a vacina era obrigatória, não porque a Sociedade Torre de Vigia tivesse mudado oficialmente a sua política sobre as vacinas e tivesse notificado as Testemunhas de Jeová no mundo todo através de alguma das suas publicações oficiais. Como se vê pela citação de William Cetnar acima, numa data tão tardia como Dezembro de 1951 e até meados de 1952 a sede da Sociedade Torre de Vigia ainda estava a responder a cartas de Testemunhas de Jeová instruindo-as a recusarem as vacinas pois esta era a política oficial da organização e, como disse Knorr a Cetnar, "Não lhe compete a si determinar política." Ou seja, a política contra as vacinas vinha de cima.

1952: fim da proibição

Já que muitas Testemunhas individuais continuavam rejeitando as vacinas (ao que parece, porque o consideravam um requisito bíblico), o Corpo Governante das testemunhas de Jeová viu a necessidade de deixar o assunto claro. Isto se fez na revista A Sentinela em seu número do 15 de dezembro de 1952 (edição em inglês): "O aceitar uma vacina é um assunto que deve resolver por si mesmo o indivíduo que se enfrenta a ele. (...) Por tanto, toda a objeção à vacina parece carecer de argumentos bíblicos."

Até 1952 as Testemunhas continuavam a rejeitar as vacinas e consideravam isso um requisito bíblico porque a organização lhes tinha metido essas ideias na cabeça ao longo dos anos e a sede das Testemunhas de Jeová continuava a responder às suas cartas dizendo-lhes que recusassem as vacinas pois a vacinação era uma "violação directa da lei de Jeová Deus", conforme mostra a citação de William Cetnar que vimos anteriormente.

Tentam fazer de Charles A. Pattillo um bode expiatório

Até aqui, vemos facilmente a falsidade de que as testemunhas de Jeová tivessem proibido aceitar vacinas em data tão tardia como princípios dos anos 50. Mas, a tinham proibida anteriormente? Por que alguns consideravam antibíblico o uso da vacina? Por que dizem alguns que em 1931 se proibiu seu uso?

Até aqui vimos facilmente que não é falsidade nenhuma que as Testemunhas de Jeová tivessem proibido aceitar vacinas em data tão tardia como princípios dos anos 50. Vimos que até 1952 a sede das Testemunhas de Jeová respondia às cartas de pais preocupados com a vacina da varíola dos filhos dizendo-lhes para recusarem as vacinas pois as vacinas eram uma "violação directa da lei de Jeová Deus". Vimos que os apologistas das Testemunhas de Jeová não conseguem indicar absolutamente nenhuma publicação oficial anterior a 1952 que diga que as vacinas eram permitidas. Vimos que entre as Testemunhas de Jeová funciona o princípio de que uma doutrina está em vigor até aparecer uma nova publicação a dizer que a doutrina foi abandonada. Vimos que as Testemunhas que estavam presas aceitaram a vacina porque esta era obrigatória ("Eles têm todos vocês onde podiam vacinar um elefante e eles vão vaciná-los a todos") e porque a recusa significava ser colocado imediatamente em isolamento por tempo indeterminado até aceitar a vacina.

A posição contra as vacinas não se iniciou em 1931, como estes apologistas parecem pensar (ou fingem que pensam, numa tentativa de encurtar o período de tempo da posição contra as vacinas), iniciou-se em 1921. Em vez de perguntar por que alguns consideravam antibíblico o uso da vacina, seria mais honesto perguntar por que a organização das Testemunhas de Jeová e as suas publicações consideravam antibíblico o uso das vacinas.

Esta afirmação se origina por um artigo aparecido no número do 4 de fevereiro de 1931 da revista The Golden Age (A Idade de Ouro), no que se indicavam razões bíblicas de rejeitar o uso da vacina. É verdadeiro que esse artigo existe, mas os opositores não costumam mencionar toda a verdade ao respecto. O artigo não era um artigo editorial, isto é, não o escreveu o editor nem nenhum redator da revista, senão que se trata de uma contribuição de certo Charles A. Pattillo de Virginia (EE.UU.). O editor não especificou se concordava ou não com a opinião do Sr. Patillo, mas é significativo o fato de que o artigo se apresentasse como uma mera contribuição de alguém alheio à própria revista. O assunto não se apresentou como uma proibição, senão como uma opinião que podia ajudar a tomar uma decisão pessoal.

A afirmação de que as vacinas eram proibidas não se "origina por um artigo aparecido no número do 4 de fevereiro de 1931", pois a posição radical contra as vacinas já vinha desde 1921.

Você diz que na revista "se indicavam razões bíblicas de rejeitar o uso da vacina", mas como se viu acima na citação de 1952, a própria Sociedade diz que estas supostas "razões bíblicas" estavam todas erradas. Foi um erro colossal, com consequências graves. Isto é interessante, vindo de uma organização que afirma ter sido escolhida por Jesus 12 anos antes deste fiasco e que afirma ter sido incumbida de providenciar orientação para os servos de Deus na terra e servir como o canal de comunicação de Deus neste tempo.

Acho muito positivo que você reconheça que "[é] verdade que esse artigo existe", pois muitas Testemunhas de Jeová costumam dizer que isto "é tudo mentiras dos apóstatas".

Acho irónico que você diga que "os opositores não costumam mencionar toda a verdade" a este respeito, já que tenho quase a certeza de que a única razão por que você teve acesso ao scan desse artigo e viu lá o nome do sr. Charles A. Pattillo (o que lhe permite lançar-se nesta tentativa de fazer dele um bode expiatório) é que você andou a ler as páginas da Internet dos "opositores" onde está esse scan e onde se pode ver o nome dele (é um caso típico de "morder a mão que lhe dá de comer").

Você diz que Charles A. Pattillo não era "nenhum redator da revista" e que era "alguém alheio à própria revista". O facto de ele ser de Virginia não impede que fosse colaborador. Como sabe que ele era "alheio" à revista? Mesmo admitindo que ele fosse alheio à revista, os editores são responsáveis pelas doutrinas bíblicas que permitem que sejam publicadas na sua revista sem refutação (e com concordância dos editores da revista como vamos ver mais à frente).

O sr. Pattille começa o seu artigo dizendo "Como a vacinação se tornou um tópico para discussão [...]", o que mostra que (1) a revista já antes tinha vindo a discutir o tópico da vacinação e (2) o sr. Charles A. Pattillo era um leitor regular da revista que estava a par dos tópicos que se tinham tornado assunto de discussão em edições anteriores da revista.

O sr. Pattille termina o seu artigo dizendo que "Deus decidiu que o seu povo possa estar vigilante e prestar a este argumento uma consideração mais cuidadosa". O uso da expressão o seu povo parece referir-se aos Estudantes da Bíblia, e se for assim então isto parece indicar que Pattille pertencia aos Estudantes da Bíblia e portanto não era assim tão "alheio" à revista como os apologistas das Testemunhas de Jeová nos querem fazer crer.

Num fórum de discussão, um participante escreveu há algum tempo este parágrafo em resposta a um apologista das Testemunhas de Jeová (que obviamente leu o parágrafo acima sobre o sr. Charles A. Pattillo):

Quanto à questão das vacinas, somente ingênuos como você e o KR [outro apologista das Testemunhas de Jeová] para acreditar que a Torre de Vigia não tinha verdadeira aversão ao uso das vacinas e as condenava naquela época. Somente ingênuos como vocês é que acreditariam que o Corpo Governante publicaria um artigo de terceiros (?) "condenando as vacinas", ao passo que eles mesmos não tinham absolutamente nada contra esta pratica (eles apenas cederam o espaço da revistas para mundanos postarem seus pontos de vista?). Somente ingênuos como vocês é que acreditam que uma "leitora" (TJ?) perguntaria ao CG (em "Perguntas dos Leitores") se era pecado ou não o uso de vacinas, se ela, antes disso, já não tivesse ouvido a própria organização dela anos atrás dizer em uma de suas publicações que esta pratica era uma "violação direta do pacto eterno feito com Noé". Vocês precisam fazer muito melhor que isso se quiserem realmente provar que aquilo que os 'apóstatas' dizem são mentiras.

Que o editor da revista subscrevia inteiramente o artigo do sr. Pattille é evidente pois o artigo reforça os ataques que a revista vinha fazendo às vacinas desde 1921 e concorda com a linha editorial de ataque feroz contra as vacinas que continuou depois da publicação deste artigo. O editor da revista era Clayton J. Woodworth (que os apologistas das Testemunhas de Jeová convenientemente nem sequer mencionam em toda esta discussão, para eles é como se ele nunca tivesse existido), que M. James Penton descreve no seu livro Apocalipse Adiado: A História das Testemunhas de Jeová (Toronto: University of Toronto Press, 1997, segunda edição), p. 66:

Rutherford não era a única influência da comunidade dos Estudantes da Bíblia/Testemunhas de Jeová nas décadas de 1920 e 1930, embora certamente fosse a mais importante. Clayton Woodworth era uma segunda influência, e por isso também merece alguma descrição. Conforme observado anteriormente, Woodworth era mais do que apenas um pouco excêntrico. Como consequência disso, ele haveria de impor às Testemunhas algumas ideias muito pouco ortodoxas através das páginas da The Golden Age [A Idade de Ouro], da qual era editor. Entre outras coisas, ele odiava a Associação Médica Americana, negava a teoria das doenças provocadas por germes, atacava constantemente as vacinas contra a varíola como sendo um costume nojento de injectar pus animal no sistema humano, e levou a cabo uma vendetta contra a indústria do alumínio. Os utensílios de alumínio, segundo Woodworth, eram venenosos. Assim, as Testemunhas receberam dele mais algumas atitudes e práticas estranhas.

Por aqui já se vê como é enganadora a afirmação dos apologistas das Testemunhas de Jeová segundo a qual "O editor não especificou se concordava ou não com a opinião do Sr. Pattillo". O editor não precisava de especificar coisa nenhuma, pois os leitores já conheciam sobejamente a posição da revista e do seu editor, que fustigava violentamente as vacinas pelo menos há 10 anos.

A revista publicou caricaturas ridicularizando e condenando as vacinas, e estas caricaturas eram obviamente da responsabilidade dos editores da revista.

A revista publicou artigos não assinados, portanto da inteira responsabilidade dos responsáveis pela revista, condenando as vacinas, como por exemplo na The Golden Age de 5 de Janeiro de 1929, p. 502:

Pessoas ponderadas prefeririam ter varíola em vez de serem vacinadas, porque as vacinas propagam as sementes da sífilis, cancros, eczema, erisipelas, escrófula, tuberculose, até a lepra e muitas outras doenças nojentas. Portanto, a prática da vacinação é um crime, um ultraje, e um engano.

O apologista diz que "O editor não especificou se concordava ou não com a opinião do Sr. Pattillo", mas isso é manifestamente falso, como o apologista poderia ter constatado se não fosse descuidado e se verificasse os documentos originais (é irónico que ele acuse os críticos de serem descuidados e de não verificarem os documentos originais e depois ele próprio é culpado daquilo que acusa os outros). Se ele tivesse examinado os documentos originais, teria encontrado na mesma edição da revista, imediatamente antes do artigo do sr. Charles A. Pattillo, um artigo editorial intitulado "O Sangue do Homem e da Besta", que trata do mesmo assunto (condenação das vacinas), que cita muitos versículos da Bíblia e que diz:

O artigo de Charles A. Pattillo, de Virginia, sobre a "Sacralidade do Sangue Humano", que aparece neste número, introduz um ponto de vista inteiramente novo a este respeito. Se a contaminação do sangue humano não é bíblica, como o artigo do Sr. Pattillo parece mostrar claramente, pode ser exactamente esta a razão por que os homens que até agora encontraram pouca ou nenhuma oposição ao argumento das vacinações e das inoculações de soros, terão de agora em diante subitamente de enfrentar um exército de objectores de consciência cujo único guia é aquele que forneceram a partir das leis do Livro dos livros e cuja única protecção é aquela que recebem do seu Autor, Jeová Deus.

Esta citação (e o resto do artigo) mostra que os editores especificaram que concordavam com a opinião do sr. Pattillo, se é que não foram ainda mais longe do que ele na condenação da vacina com argumentos da Bíblia. Portanto a afirmação dos apologistas das Testemunhas de Jeová de que "O editor não especificou se concordava ou não com a opinião do Sr. Pattillo" é falsa. Não podem fazer dele um bode expiatório de uma política que é da responsabilidade das Testemunhas de Jeová, que foi promovida nas suas publicações oficiais e nas cartas vindas da sede e que foi aceite pelos seus adeptos como qualquer outra doutrina ensinada por eles.

A Sentinela e expulsão

Não menos significativo é o fato de do que, ao que parece, a revista The Watchtower (A Sentinela) não mencionou nunca o assunto. A Sentinela era por então (até os anos 40) uma publicação interna só para as testemunhas de Jeová, e era ali onde se tratavam os assuntos bíblicos de maior importância para as próprias Testemunhas, enquanto a revista The Golden Age era uma publicação para o público, que tocava assuntos mais gerais, de modo parecido à moderna revista Despertai! Nenhum opositor foi capaz de mostrar nenhuma menção em contra das vacinas na A Sentinela nem em nenhuma outra publicação aparte de The Golden Age. Não existe nenhum indício de que o uso da vacina se considerasse tão grave como para merecer nenhum tipo de medidas disciplinarias; menos ainda a expulsão. Em definitiva, a postura ao respecto era muito diferente à postura atual com com respeito ao sangue.

A circunstância de, "ao que parece", a Sentinela não ter mencionado o assunto das vacinas não diminui rigorosamente nada à gravidade da situação. O facto de a The Golden Age, uma revista oficial das Testemunhas de Jeová, ser "uma publicação para o público" em geral, ao invés de ser uma publicação interna só para as Testemunhas de Jeová como se diz que era A Sentinela, só serviu para aumentar o problema, pois divulgou ideias perniciosas e falsas para uma audiência maior (o público em geral em vez de apenas as Testemunhas de Jeová). Em quantas publicações diferentes é que os apologistas acham que as Testemunhas de Jeová precisam de publicar as suas ideias perniciosas antes de poderem ser chamadas à responsabilidade? Três publicações? Cinco? Nove?

A inexistência de indícios de medidas disciplinares para punir uma prática que a revista oficial das Testemunhas de Jeová chamava "crime" e "prática diabólica" responsável pela disseminação de "demonismo" e imoralidade sexual e "mistificação cruel" que Satanás usava para enganar a humanidade parece-me que não se deve ao facto de a vacina não ser considerada muito grave, mas antes ao facto de a desassociação não ser naquele tempo o que é hoje. Naquele tempo eles eram mais tolerantes e menos autoritários do que hoje e a expulsão não era usada de forma sistemática.

Vacinas feitas de sangue?

Por outro lado, a opinião de que as vacinas podiam supor uma violação da lei divina sobre o sangue resulta, tendo em conta que o soro de algumas vacinas se produzia em sangue animal. É muito importante ter em conta o contexto histórico deste e outros artigos de The Golden Age.

Primeiro, se o problema era algumas vacinas serem alegadamente produzidas "em sangue animal", eles podiam ter condenado apenas essas e aprovado as outras. Mas eles não fizeram isso. Eles condenaram todas as vacinas. Portanto isso não seve de justificação para a política de oposição a todas as vacinas que a revista adoptou.

Segundo, o facto de uma vacina ser alegadamente produzida "em sangue animal" não significa necessariamente que a vacina seja ela própria sangue.

Terceiro, mesmo que fosse verdade que as vacinas eram feitas de sangue, não há nada na Bíblia que proíba isso. Aceitar uma vacina, mesmo que hipoteticamente feita de sangue, não é o mesmo que comer sangue (e mesmo que fosse, isso seria irrelevante pois a sugestão de não comer sangue mencionada em Actos dos Apóstolos era uma coisa temporária para evitar conflitos entre cristãos judeus e gentios e não está mais em vigor para os cristãos).

Quarto, as citações de William Cetnar e de Macmillan mencionadas acima mostram que as vacinas não eram feitas de sangue (leia-as novamente se não reparou nesse pormenor).

Ignorância do ponto de vista médico

Isto nos leva a outra questão: aparte do artigo de fevereiro de 1931, na revista se incluíram em várias ocasiões comentários muito críticos com as vacinas, não desde um ponto de vista bíblico, senão desde um ponto de vista médico. Eram esses comentários algo injustificado, próprio de pessoas ignorantes, como o enfocam os inimigos das testemunhas de Jeová?

Eram. Um exemplo acabado de ignorante (para não dizer doido varrido) era o sr. Clayton J. Woodworth, editor da revista The Golden Age. A expressão "inimigos" das Testemunhas de Jeová parece-me um exagero.

Acho positivo que você reconheça que "na revista se incluíram em várias ocasiões comentários muito críticos com as vacinas" (sempre é um progresso em relação às Testemunhas de Jeová fundamentalistas que dizem que isto das vacinas é tudo "mentiras dos apóstatas"), pois o leitor podia ter ficado com a impressão que a condenação das vacinas era inteiramente culpa daquele malvado do sr. Charles A. Pattille, "alheio à revista", que se atreve a publicar artigos na revista das Testemunhas de Jeová.

Frequência

Provavelmente, a primeira vez que se mencionou uma opinião crítica com o uso da vacina foi em The Golden Age do 12 de outubro de 1921, e a última menção negativa foi na revista Consolation (Consolação, novo nome de The Golden Age) do 31 de maio de 1939. Não era um assunto que se tratasse muito com freqüência; encontram-se citações, a maioria delas breves, uma vez em cada ano ou cada dois anos como média (o que não é muito para uma revista que se publicava cada duas semanas).

1 ou 2 vezes por ano ao longo de 19 anos dá entre 19 e 38 citações, o que não é pouco. Muitas das citações não são breves, são artigos inteiros contra as vacinas, alguns incluindo caricaturas, por vezes com mais de um artigo por edição da revista, como no caso considerado acima, que tinha o artigo sr. Pattille e um outro artigo, ambos condenando as vacinas.

Os artigos foram em número suficiente para levar as Testemunhas de Jeová a recusar as vacinas com um sentimento de quase horror ou pânico e a enfrentarem tribunais ou prisão, como mostra esta experiência de uma Testemunha que se recusou a permitir que os seus filhos fossem vacinados, resultando daí conflitos com as autoridades seculares e um subsequente julgamento em tribunal: "Com a despesa por que passei, incluindo seis meses na prisão [...] estou a ser obrigado a refinanciar a minha pequena casa [...] Não me arrependo do que passei, pois salvei muitas crianças pequenas de serem vacinadas." (The Golden Age [A Idade de Ouro], 22 de Junho de 1932, p. 601, citado em Diane Wilson, Awakening of a Jehovah's Witness: Escape from the Watchtower Society, Amherst, NY: Prometheus Books, 2002, página 180.)

Se a revista publicou nem que fosse um só artigo contra as vacinas e esse artigo resultou em mortes de pessoas que acreditaram no que o artigo disse, então as Testemunhas de Jeová são culpadas de sangue, pois o que importa são as consequências do que é ensinado, não é a frequência dos artigos. Se discordam disto, então digam onde é que estabelecem o limite: a partir de quantos artigos contra um procedimento médico que salva vidas é que eles são culpados? A partir de 5 artigos? A partir de 17 artigos? A partir de 39 artigos?

Wallace, Creighton e Shaw: autoridades reputadas ou aberrações?

Nossos opositores também não põem as coisas em sua devida perspectiva. Não têm em consideração o ponto de vista comum que tinham muitas pessoas alheias às Testemunhas por aquele então. A vacinação era um assunto altamente polêmico em seus primeiros tempos, com discussões válidas e autoridades reputadas em ambos bandos (em contra da vacinação se encontravam pessoas como o respeitado naturalista Alfred Russell Wallace, o professor Charles Creighton, que escreveu um artigo contra a vacinação para a Enciclopaedia Britânica, ou o famoso escritor George Bernard Shaw). As publicações das testemunhas de Jeová tratam de apresentar informação médica atualizada a seus leitores e em justiça não se lhes pode criticar a eles mais do que a cientistas e outras autoridades religiosas da época.

Algumas pessoas alheias às Testemunhas de Jeová eram contra as vacinas, mas o parágrafo acima não diz por que razão isso é relevante para uma discussão sobre a "única religião verdadeira à face da terra" que alegadamente tinha sido escolhida por Jesus em 1919, que alegadamente era o único canal de comunicação entre Deus e a Humanidade e que era alegadamente dirigida pelo espírito santo de Deus.

A vacinação podia ter sido polémica "em seus primeiros tempos", que foram no século 18, mas em 1921-1952 a vacinação já não estava de modo nenhum nos seus "primeiros tempos". Não há polémica que resista muito tempo quando se trata da prática médica que salvou mais vidas do que qualquer outra na história.

As publicações das Testemunhas de Jeová tratam de apresentar as ideias mais ou menos nocivas dos seus líderes e as doutrinas que eles inventam, o objectivo não é apresentar "informação médica atualizada". A informação de que as vacinas eram feitas de sangue, como vimos acima nos comentários de William Cetnar e Macmillan, estava desactualizada, para não dizer completamente errada. O mesmo se pode dizer a respeito de todo o resto do flagrante charlatanismo em assuntos médicos que promoveram durante décadas nas suas revistas.

Em justiça pode-se e deve-se criticar as Testemunhas de Jeová mais do que a cientistas pois estes estavam praticamente todos do lado das vacinas e não afirmavam ser guiados pelo espírito santo de Deus, nem afirmam que aquilo que publicam é "alimento espiritual no tempo apropriado" vindo das mãos de Deus (como mostra tão eloquentemente uma imagem numa das revistas das Testemunhas de Jeová), nem afirmam que quem não concorda com eles está a fazer uma "prática diabólica" que promove o "demonismo" e a imoralidade sexual e a violar as leis de Deus. Quanto às "outras autoridades religiosas da época", duvido que em 1921-1952 ainda houvesse muitas que se opusessem às vacinas com o fanatismo e o radicalismo que vemos nas revistas das Testemunhas de Jeová deste período. É engraçado como as Testemunhas de Jeová se fazem de desentendidas e quererem ser julgadas no mesmo plano que os cientistas e as outras autoridades religiosas da época, como se as Testemunhas de Jeová afirmassem que são apenas mais uma religião como as outras. As Testemunhas de Jeová afirmam que são a única religião verdadeira à face da terra, a única que é guiada pelo espírito santo de Deus, o canal de comunicação entre Deus e a humanidade. Não podem agora querer fingir que estão ao mesmo nível das religiões de Babilónia, a Grande, controladas por Satanás. Sem se aperceberem, os apologistas que defendem este argumento estão a dar razão aos que dizem que a religião das Testemunhas de Jeová não é melhor que as demais religiões e que não há qualquer prova de que seja dirigida por Deus.

George Bernard Shaw era um escritor de peças de teatro, não é uma autoridade em assuntos médicos, portanto as suas opiniões sobre as vacinas são irrelevantes. Ele disse que as vacinas são um "pedaço particularmente nojento de bruxaria". É isto que as Testemunhas de Jeová consideram "discussões válidas" de "autoridades reputadas"? Quando estão doentes as Testemunhas de Jeová vão ao hospital ou ao teatro?

Acho muito cómico ver estes apologistas das Testemunhas de Jeová a chamarem "respeitado naturalista" a Alfred Russel Wallace, o co-descobridor da Teoria da Evolução que apoiava o espiritualismo, a frenologia e o mesmerismo (tudo coisas que as Testemunhas de Jeová agora condenam). Wallace viveu entre 1823 e 1913, portanto é uma pessoa de uma época anterior à posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas, que começou em 1921. É enganador referir-se a ele como um cientista "da época" ou contemporâneo à posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas. As principais obras dele contra as vacinas foram publicadas nas décadas de 1880 e 1890 e como é óbvio criticam as condições que existiam antes dessas datas, não criticam nem podiam criticar as condições que existiriam 30 ou 40 anos depois de ele morrer (quando ainda existia a posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas). Portanto ele não minimiza em nada a gravidade da posição adoptada pela religião das Testemunhas de Jeová, nem serve de factor atenuante ou desculpabilizador. Wallace escreveu que a "vacinação é um engano gigantesco; que nunca salvou uma única vida [...] será classificada pela geração vindoura entre os maiores erros de uma época ignorante e preconceituosa". É esta asneirada que as Testemunhas de Jeová nos querem impingir como "discussões válidas" de "autoridades reputadas"? Afirmações como essa do sr. Wallace e outras do mesmo género que encontramos na revista das Testemunhas de Jeová A Idade de Ouro é que merecem ser classificadas entre "os maiores erros de uma época ignorante e preconceituosa". Erros com consequências trágicas para as vidas dos que os aceitaram.

Charles Creighton viveu entre 1847 e 1927. Portanto também é enganador referir-se a ele como um cientista "da época" já que a posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas prolongou-se durante 25 anos depois de ele morrer. Creighton considerava Jenner um charlatão. Será que é preciso dizer mais alguma coisa? O Dictionary of Scientific Biography diz que Creighton:

incorreu no desdém de médicos contemporâneos por ter denunciado a vacinação jenneriana e por disputar a teoria dos germes nas doenças infecciosas

É isto que os apologistas das Testemunhas de Jeová consideram "discussões válidas" de "autoridades reputadas"? O artigo do Dictionary of Scientific Biography continua:

A sua diligência e julgamento nem sempre foram exercidos com bom senso. Um artigo extenso sobre patologia (1885), encomendado para a nona edição da Encyclopedia Britannica, lançou dúvidas sobre a existência de bactérias patogéncias; outro sobre vacinação (1888) era tão reaccionário e enganador que provocou protestos vigorosos das principais revistas médicas. Especialmente condenada foi a alegação clara, implícita também no seu livro The Natural History of Cowpox and Vaccinal Syphilis (1887), que a vacinação e a sífilis infantil estavam relacionadas. Creighton negou esta alegação mas manchou ainda mais a sua reputação ao publicar outro volume polémico, Jenner and Vaccination (1889). [...] As chaves últimas para a carreira controversa e crenças anacrónicas de Creighton estão ocultas no interior da sua personalidade enigmática.

Falta de bom senso, crenças reaccionárias e enganadoras que provocaram protestos vigorosos das principais revistas médicas, reputação manchada, volumes polémicos, carreira controversa e crenças anacrónicas: é isto que os apologistas das Testemunhas de Jeová consideram "discussões válidas" de "autoridades reputadas"? O artigo reaccionário e enganador de Creighton na Encyclopedia Britannica foi substituído por outro de um autor diferente na edição seguinte da enciclopédia, a favor das vacinas. Por que será que os apologistas das Testemunhas de Jeová não dizem isto? Ignorância sobre o que falam ou desonestidade? E por que razão os apologistas das Testemunhas de Jeová não dizem que o artigo era de 1888? Por que é que tentam apresentar as baboseiras de Creighton como "discussões válidas" de "autoridades reputadas" da mesma época da posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas, se o artigo dele era de 1888? A posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas prolongou-se até 64 anos depois dessa data!

Outro artigo sobre Creighton, que tem a vantagem de ser de um site de admiradores de Creighton que são contra as vacinas (e portanto insuspeitos de quererem denegrir a figura dele) diz que devido à:

sua posição contra a vacinação, que ele chamava uma "superstição grosseira", ele foi ostracizado pelos seus colegas médicos e os seus livros foram boicotados [...] Creighton ficou na lista negra e foi ostracizado pela sua profissão [i.e., pelos outros da sua profissão]

A página em seguida cita do Dictionary of Scientific Biography:

[...] ele era essencialmente um homem do passado. Por exemplo, nunca se conseguiu que ele admitisse que as bactérias causavam doenças. Ele não acreditava que as o bacilo da tuberculose fosse a causa da tuberculose [...] Ele vivia numa atmosfera de miasmas em vez de bactérias. Ele acreditava em "constituições epidémicas" e numa nebulosa "dyscrasiae". Ele não conseguia acreditar que qualquer germe causasse uma doença infecciosa.

"Discussões válidas" de "autoridades reputadas"? O artigo continua:

Pelos anti-vacinadores ele era saudado como o maior recruta para as suas fileiras e pela profissão médica [era considerado como] um renegado, a ser tratado com desdém e insultos.

Os apologistas das Testemunhas de Jeová tentaram fazer passar por respeitável "autoridade reputada" alguém que era na verdade um renegado desprezado e ostracizado pela classe médica. O artigo do Dictionary of Scientific Biography continua:

Um dos seus críticos respondeu que "nada na história da patologia pode ser mais grotesco, mais absurdo do que a sua afirmação de que a sífilis infantil se deve largamente ao vírus da vacina". Em geral, contudo, não se escreveu muito contra Creighton e o tratamento adoptado foi deixá-lo cair no esquecimento. Se era referido de todo, era meramente como "Creighton, o anti-vacinador". [...] Com este género de objecções triviais e irrelevantes Creighton provocou a si mesmo danos irreparáveis. Todo o seu outro trabalho foi esquecido na derrota esmagadora e a sua reputação ficou arruinada. Ele retirou-se e tornou-se quase um recluso, negligenciado e ostracizado pela profissão médica.

Século 19 e princípios do século 20

Como se via o uso das vacinas a princípios do século XX? Qual era o método utilizado para imunizar às pessoas? O método principal no século XIX e princípios do XX era infectar a uma pessoa com uma variante "suave" (ou atenuada) do vírus; depois, fazia-se que a pessoa voltasse ao cabo de sete dias, quando apareciam as bolsas de pus; o pus ou a costra se raspava e se utilizava para infectar diretamente à pessoa seguinte, que voltaria em sete dias, e assim sucessivamente. Agora, quem aceitaria hoje em dia que se lhe fizesse isto a seus filhos? Por conseguinte, quiçá pôr os comentários de The Golden Age em sua perspectiva histórica apropriada pode ajudar a um a ver cuán cegados de obstinação podem estar alguns de nossos opositores em suas campanhas contra as testemunhas de Jeová:

Quem está cego de obstinação são estes apologistas das Testemunhas de Jeová que, recorrendo a argumentação falaciosa e enganadora e à ocultação de factos sobre as supostas "autoridades reputadas" que invocam em seu apoio, tentam a todo o custo defender, justificar e arranjar desculpas para uma posição obscurantista sobre as vacinas que resultou em mortes desnecessárias. É um exagero chamar "campanhas contra as Testemunhas de Jeová" a uma exposição da verdade dos factos sobre este grave erro doutrinal na história desta religião. As Testemunhas de Jeová é que parecem estar numa "campanha" contra aqueles a quem chamam "opositores".

O parágrafo acima diz que aquele método de vacinação estava em uso no século 19 e "princípios" do século 20. Acontece que a posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas não foi no século 19 nem em princípios do século 20, portanto o parágrafo acima é irrelevante.

Se acha que esse processo de vacinação (que livrava as pessoas da doença e da morte) é repugnante, então procure ver uma fotografia da cara de alguém infectado por varíola e pergunte-se o que preferia para os seus filhos se vivesse nesse tempo: preferia que eles fossem vacinados e assim se livrassem da doença de da morte ou preferia que eles ficassem como o doente da fotografia e morressem?

Os comentários de William Cetnar considerados anteriormente, sobre a visita dele aos Laboratórios Lederle, que faziam a vacina contra a varíola, mostram que ao mesmo tempo que vigorava a posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas, estas não eram fabricadas pelo processo descrito no parágrafo acima. Os próprios apologistas das Testemunhas de Jeová dizem mais adiante no seu texto que em 1931 "Woodruff e Goodpasture desenvolveram o ovo de galinha como meio de cultivo para muitos vírus", portanto eles sabem que durante a maior parte do tempo em que vigorou a posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinações estas não eram realizadas pelo método descrito acima.

Se lhe repugna que as vacinas fossem feitas usando uma "variante suave (ou atenuada) do vírus", então saiba que hoje muitas continuam a ser feitas do mesmo modo e as Testemunhas de Jeová não as rejeitam. O argumento 'as vacinas eram feitas de pus' não ajuda em nada a tentativa dos apologistas das Testemunhas de Jeová de desculpar as posições da organização pois o modo de produção das vacinas não foi subitamente modificado em 1921, quando eles publicaram os primeiros artigos contra as vacinas, nem em 1952, quando a organização modificou oficialmente a sua posição sobre as vacinas. Se o facto de as vacinas serem feitas de "pus" (ou de alguma outra coisa, como versões enfraquecidas dos causadores das doenças) é justificativa válida para a posição radical contra as vacinas que as Testemunhas de Jeová tiveram durante 30 anos, então essa justificação continuaria a ser válida depois de 1952 e até aos dias de hoje, pois não consta que o modo como são feitas todas as vacinas tenha mudado subitamente em 1952 quando saiu aquele artigo na revista das Testemunhas de Jeová a modificar a posição sobre as vacinas. De facto, esse artigo não invoca para a mudança de posição das TJ sobre as vacinas qualquer modificação no modo como eram produzidas as vacinas, antes insinua que foi por razões legais (quando diz que a organização não tem meios para se envolver legalmente no assunto), talvez por medo de acções nos tribunais (e porque a escola de Gileade tinha sido aberta em 1943 e os missionários e os representantes viajantes das Testemunhas de Jeová tinham dificuldade em ir para certos países se não fossem vacinados).

A desculpa dos dados estatísticos

Com a típica moderação inglesa, a Enciclopaedia Britannica indica:

"Em meados do século XX, ainda se carecia de dados estatísticos adequados referentes à eficácia em seres humanos de algumas das vacinas víricas."

A alegada falta de dados estatísticos "adequados" sobre algumas vacinas não é justificação ou desculpa para uma posição contra todas as vacinas.

As Testemunhas de Jeová ganharam fama pela sua forma desonesta de fazer citações. Antes de podermos comentar a citação acima teríamos de ler o artigo.

Entre 20% e 40% das pessoas infectadas com varíola morriam. Com a vacina o número de mortes ficava reduzido praticamente a zero. Em face disto, estar a tentar defender uma posição radical de oposição a todas as vacinas com a alegada falta de dados estatísticos "adequados" é uma falácia.

Propaganda anti-vacinas: "ultraje monstruoso"

Em 1913, a National Anti-Vaccination League (Une nacional contra a vacinação, da que era membro Alfred Russel Wallace) de Grã-Bretanha publicou um folheto titulado Is vaccination a Disastrous Delusion? (É a vacinação um engano desastroso?). O folheto condenava a prática como "ultraje monstruoso e indefendible contra o sentido comum e os direitos pessoais sagrados de cada humano, e especialmente de cada inglês."

Propaganda anti-vacinas de 1913 que não prova nada. Cerca de 40 anos depois de 1913 as Testemunhas de Jeová ainda eram contra as vacinas. Será que em 1952 as vacinas eram um "engano desastroso" e um "ultraje monstruoso" mas em 1953 passaram subitamente a ser uma maravilha salvadora de vidas? A propaganda anti-vacinas é boa quando concorda com a política oficial das Testemunhas de Jeová e má quando discorda? Hoje os que são anti-vacinas continuam com a mesma propaganda e as Testemunhas de Jeová não lhes dão qualquer crédito. Então por que é que devíamos dar crédito a esses propagandistas anti-vacinas de 1913? Chamar "ultraje monstruoso" à prática médica que salvou mais vidas do que qualquer outra na história da humanidade é uma grande imbecilidade.

Propaganda anti-vacinas de uma revista de "Naturalismo"

O escritor George Bernard Shaw, quem tinha sido membro do Health Committee of London Borough Council (Comitê de saúde do Conselho do bairro de Londres) publicou declarações como as seguintes, entre outras: "A vacinação obrigatória é um crime e deveria ser castigada como tal. (...) A vacina mata mais gente do que a varíula." (do artigo "A vacinação é um crime", tomado da revista "Naturalismo", de Barcelona). "No presente, as pessoas inteligentes não fazem vacinar a seus filhos, nem lhes obriga hoje a isso a lei. O resultado não é, como profetizaram os seguidores de Jenner, o extermínio da raça humana pela varíula; pelo contrário, hoje morre mais gente pela vacina que pela varíula" (publicado no Irish Times do 9 de agosto de 1944).

Shaw era escritor de peças de teatro e não tem credibilidade nenhuma para se pronunciar sobre assuntos médicos. O comentário dele (que nem sequer tem data) é propaganda de uma revista de "Naturalismo", que pelo nome já deixa perceber que deve ser a favor de tratamentos "naturais" e contra a medicina.

A afirmação de que as pessoas inteligentes não fazem vacinar os seus filhos é pouco inteligente. Provavelmente trata-se de um artigo de opinião de alguma pessoa anti-vacinação. A citação também é um tiro no pé dos apologistas pois 1944 é a data em que Macmillan estava a tentar convencer os presos Testemunhas de Jeová a aceitarem vacinas. É caso para perguntar aos apologistas: Em que ficamos? Vocês acham que em 1944 as vacinas deviam ser tomadas como Macmillan dizia ou não deviam ser tomadas como essa citação do jornal irlandês diz? Estes apologistas querem sol na eira e chuva no nabal.

Irrelevâncias: vacinas incorrectamente administradas em 1901

No outono de 1901, em Filadélfia tinha não menos de 36 casos de tétanos ou de trismo devidos, segundo se admitiu, às vacinas, e quase todos eram mortais. Depois de um estudo destes e de outros 59 casos similares, o proeminente médico e professor de Filadélfia Joseph McFarland, ardente defensor da vacinação, chegou à conclusão de que -inclusive onde se tinham tomado as precauções mais extremas- o perigo residia na transmissão à vacina em sim do agente causador da doença. Então, sem ter em conta o fato de que o agente causador da doença estava no mesmo líquido tomado das feridas infectadas, e que o agente ainda ficava perigosamente pouco atenuado na vacina preparada desta fonte, ele seguiu recomendando ignorantemente a preparação da vacina, isto apesar do fato de que a ciência médica de seu dia não estava preparada para a posta em prática eficaz de sua recomendação de que se ponha o maior cuidado na preparação da vacina (John Pitcairn, The Fallacy Of Vaccination, 1911, citando de Joseph McFarland, Tetanus And Vaccination -- An Analytical Study Of Ninety-five Cases Of This Rare Complication, 1902).

Irrelevante. O que se passou em 1901 é irrelevante para a posição das Testemunhas de Jeová sobre as vacinas entre 20 e 50 anos depois dessa data.

O título no fim do parágrafo diz que era uma "complicação rara". O texto diz que se tratava de um caso de preparação incorrecta de vacinas. Usar isso como argumento contra as vacinas é tão falacioso como usar casos de negligência médica como argumento para rejeitar todo e qualquer cuidado de saúde. O título da publicação, "The Fallacy Of Vaccination", 1911, também mostra que os apologistas das Testemunhas de Jeová estão outra vez a recorrer aos propagandistas anti-vacinas.

Mais irrelevâncias: dados sobre 1840-1885 e 1881-1907

Em Inglaterra e Gales encontramos que, entre 1881 e 1907, registraram-se 1.108 mortes devidas à vacinação, com uma média de uma morte em cada semana durante os primeiros dezesseis anos (The Registrar-Geral's Report of Births. Deaths and Marriages in England and Wales, vols. XLIV-LXX). Recordemos, também, que as mesmas pessoas que realizavam vacinações admitiram que todas estas 1.108 mortes tinham sido devidas à mesma. Sobre isto, o professor Alfred R. Wallace disse que só em Inglaterra e País de Gales o uso da vacina era a causa provável em cada ano de 10.000 mortes; mortes por cinco doenças do caráter mais terrível e repugnante, introduzidas pelo vírus contido nas vacinas (Alfred Russell Wallace. LL.D., Forty-Five Years Of Registration Statistics, Proving Vaccination To Bê Both Useless And Dangerous, segunda edição, Londres, 1889, p. 38).

Mais propaganda anti-vacinas de Wallace, o tal que disse que a vacinação "nunca salvou uma única vida". Que credibilidade merece esta pessoa? O título do livro aí mencionado ("provando que as vacinas são tanto inúteis como perigosas") mostra que se trata de propaganda anti-vacinas.

O livro de Wallace aí mencionado como sendo de 1889 na realidade é de 1885 e como o título diz que trata de 45 anos de registos de estatísticas, isso significa que, na melhor das hipóteses, trata do período 1840-1885 (ou datas ainda anteriores a essas, caso ele não tivesse no momento da publicação as estatísticas mais recentes). Ou seja, isto é completamente irrelevante para a posição das Testemunhas de Jeová sobre as vacinas praticamente um século depois.

Os dados sobre o período 1881-1907 também são irrelevantes para a posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas, que ainda estava em vigor quase meio século depois disso, e são inferiores ao número de mortes causado pelas doenças.

Tiro no pé: vacinas seguras em princípios do século 20

Mal começavam a desenvolver-se formas mais seguras de vacinação a princípios do século XX. Não foi até 1931 que Woodruff e Goodpasture desenvolveram o ovo de galinha como meio de cultivo para muitos vírus (Woodruff, A. e E. Goodpasture The susceptibility of the chorio-allantoic membrane of chick embryos to infection with the fowl-pox vírus, 1931. Am. J. Path. 7: 209-222). Não foi até princípios dos anos 50 que Salk desenvolveu sua vacina mais segura e mais eficaz (Jane Smith, Patenting The Sun). Não foi até 1954 que se fizeram provas a grande escala das vacinas de Salk que provavam sua eficácia.

Neste parágrafo os apologistas das Testemunhas de Jeová dão um formidável tiro no pé: dizem que "começavam a desenvolver-se formas mais seguras de vacinação a princípios do século XX", ou seja, antes de os líderes das Testemunhas de Jeová se terem lançado numa oposição radical a todas as vacinas! Entre 1931, data mencionada nesse parágrafo a respeito dessa descoberta importante, e 1952, decorreram 21 anos em que as Testemunhas de Jeová recusavam as vacinas.

A vacina de Salk era só para o pólio, não era para as doenças em geral. Ao não informar disto o leitor, os escritores do parágrafo acima induzem-no em erro, pois fica-se com a impressão (que é incorrecta) de que as vacinas de Salk eram uma espécie de vacinas gerais mais seguras e eficazes que surgiram abruptamente em "princípios dos anos 50", exactamente quando a organização modificou a sua posição sobre as vacinas. Já havia muitas vacinas eficazes e seguras enquanto durava a posição das Testemunhas de Jeová contra as vacinas. Em 1952 não houve ninguém que tenha estalado os dedos e, como que por artes mágicas instantâneas, as vacinas passaram subitamente de "ultraje monstruoso" "que nunca salvou uma única vida" a remédio milagroso eficaz e seguro.

Eco repetidor do que é comum na época?

Poderiam citar-se muitos mais dados e opiniões da época, mas o aqui exposto deveria bastar para mostrar que as testemunhas de Jeová estavam plenamente justificados nos anos 20 e 30 para ter uma opinião negativa com respeito a este assunto. Não é coerente criticá-los só a eles por uma postura compartilhada por muitas outras pessoas, inclusive ministros religiosos de outras confissões; nossas publicações se fizeram eco de algo que era comum na época (inclusive hoje em dia há múltiplas vozes que se alçam em contra da vacinação).

Conforme vimos anteriormente, os dados e opiniões que os apologistas das Testemunhas de Jeová citaram não são "da época" em que durou a sua política contra as vacinas, são anteriores, alguns deles remontando a 1840, portanto são irrelevantes enquanto argumento para justificar a sua política. Além disso não são "discussões válidas" de "autoridades reputadas", são textos de panfletos de propaganda anti-vacinas, e de indivíduos com opiniões aberrantes, anacrónicas, enganadoras e erradas, ostracizados e desprezados pela classe médica da altura (o equivalente do punhado de médicos que hoje dizem que o HIV não causa a AIDS).

A "opinião negativa" (eufemismo para oposição radical e vitriólica) das Testemunhas de Jeová sobre este assunto não foi só nos anos 20 e 30, foi também durante toda a década de 1940 e até 1952, como vimos na citação de William Cetnar, e as Testemunhas de Jeová não estavam "plenamente justificadas" para ter essa oposição. Os dados que você citou numa tentativa de justificar a posição das Testemunhas de Jeová são falaciosos, conforme foi explicado acima, e como até mesmo reconheceu a revista de 1952 que mudou a política. Lembremo-nos que esta revista disse em 1952 que o argumento bíblico contra as vacinas (apresentado em anos anteriores por eles mesmos) estava errado. Esse argumento desempenhou um papel fundamental na oposição das Testemunhas de Jeová às vacinas. Se o argumento afinal estava errado, como a revista reconheceu em 1952, como é que os apologistas agora podem dizer que as Testemunhas de Jeová estavam "plenamente justificadas" para recusarem as vacinas? Desde quando é que um argumento que eles próprios reconhecem ter sido errado constitui uma justificação válida? Não seria mais honesto admitirem que estiveram errados, em vez de tentarem justificar os seus erros com desculpas falaciosas?

Nesse parágrafo as Testemunhas de Jeová repetem a choraminguisse de que não é coerente criticar só a elas pois havia mais pessoas que eram contra as vacinas, incluindo "ministros religiosos de outras confissões". No seu texto as Testemunhas de Jeová não apresentaram nenhum exemplo de outras religiões que se tenham oposto às vacinas no período 1921-1952. Quer existam ou não outras religiões nestas condições, isto não diminuiu em nada a gravidade da situação das Testemunhas de Jeová. Como foi dito acima, as Testemunhas de Jeová não alegam ser apenas mais uma religião como as outras. Não é preciso eu estar aqui a repetir o que já disse acima sobre este assunto.

A afirmação de que as publicações das Testemunhas de Jeová são apenas um eco repetidor do que "era comum na época" é desonesta porque as opiniões a favor das vacinas também eram comuns na época (até eram mais comuns do que as opiniões contra as vacinas) e as publicações das Testemunhas de Jeová não faziam eco destas. As pessoas que controlavam as publicações e as políticas das Testemunhas de Jeová escolheram deliberadamente usar a revista A Idade de Ouro para fazer eco da propaganda mais obscurantista, demagógica, cínica, anacrónica, reaccionária e enganadora contra as vacinas (recorrendo até a caricaturas que ridicularizavam as vacinas), e não apenas faziam eco como também avançavam eles próprios com argumentos bíblicos de sua autoria, pelos quais têm de ser responsabilizados pois tiveram consequências graves na vida de milhares de pessoas.

No fim do parágrafo o apologista diz que hoje ainda há "múltiplas vozes" contra a vacinação, como se isso fosse de alguma forma uma confirmação de que a oposição das Testemunhas de Jeová às vacinas há meio século atrás estava certa. Incoerência total.

Os imortais

Estes ataques costumam terminar com uma melodramática alusão às testemunhas de Jeová que supostamente morreram por negar-se a aceitar a vacinação (de novo tratando de estabelecer um paralelo com a questão das transfusões de sangue). Já mostramos que não existia uma postura oficial nem se tomavam medidas ao respecto. Agora bem, pode alguém dar o nome de uma só testemunha de Jeová que morresse por rejeitar o uso da vacina? Inclusive se alguém pudesse oferecer uma cifra, sequer aproximada, ainda teria que a contrastar com a dos que morreram precisamente devido ao uso da vacina. Só podemos imaginar quantas pessoas naqueles anos se contagiaram de poliomielitis e outras doenças evitáveis e quantos morreram realmente de tétanos, de raiva, de influenza, ou de outras infecções devido a aceitar vacinas. Por suposto, não seria justo culpar destas mortes ao clero oposto às testemunhas de Jeová, pois por então muitos deles declaravam em realidade o mesmo que as Testemunhas.

A afirmação de que "não existia uma postura oficial" é falsa. A postura oficial foi expressa claramente na revista (que era um órgão oficial das Testemunhas de Jeová) e nas cartas da sede, conforme vimos na citação de William Cetnar. Lembre-se das palavras de Knorr para Cetnar: "Não lhe compete a si determinar política." Se de facto não existisse uma postura oficial sobre as vacinas, Knorr deveria ter dito a Cetnar: 'Diga a essas pessoas que não temos política sobre o assunto das vacinas, elas que façam o que quiserem', mas não foi isso que ele disse. Quanto ao facto de não se tomarem medidas a este respeito, isso não se devia à inexistência de política oficial a este respeito, devia-se à inexistência de uma doutrina de desassociação tão rígida e intolerante como a que existe hoje.

Pelos vistos este apologista acredita que dezenas de milhares de Testemunhas de Jeová e os seus filhos em todo o mundo, mesmo recusando todas as vacinas, tinham uma espécie de protecção sobrenatural formidável que as tornava invulneráveis a todas as doenças, mesmo em zonas onde havia epidemias, e que fez com que nem sequer uma delas adoecesse nem morresse ao longo de um período de mais de 30 anos em que recusaram toda e qualquer vacina! É caso para dizer: uáu! Também quero uma protecção sobrenatural dessas para mim. Não se percebe por que é que mudaram a política em 1952, se tinham essa invulnerabilidade formidável às doenças que fazia com que nunca morressem.

Depois de se ter intoxicado com a propaganda enganosa e desactualizada dos fundamentalistas anti-vacinas do século 19 e início do século 20, este apologista ficou num tal estado de ignorância e desinformação que agora acredita que as vacinas mataram mais pessoas do que salvaram.

Ignorância ou desonestidade?

É triste que nossos opositores não publiquem estes fatos. Faz defeituosa perguntar por que? Só há duas razões possíveis: ou são ignorantes, ou enganam deliberadamente e querem manter a outros em ignorância.

Que factos é que você quer que sejam publicados? A sua crença risível de que as Testemunhas de Jeová eram uns super-homens imortais invulneráveis às doenças? A sua crença absurda de que as vacinas mataram mais gente do que salvaram? Ou talvez a crença do sr. Wallace de que a vacinação "nunca salvou uma única vida"?


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