Cumprimento de Profecias e Probabilidades

Farrell Till


Os apologistas da Bíblia adoram usar argumentos probabilísticos e sem dúvida a maioria dos leitores já os encontrou em literatura apologética. Certa situação que é vista como provando a existência de Deus (vida desenvolvendo-se a partir de não-vida) ou a inspiração da Bíblia (cumprimento de profecias) é analisada em termos de verosimilhança ou probabilidade. É claro que muitos destes argumentos são baseados em fatores puramente arbitrários selecionados de modo a favorecer a posição teísta ou bíblica. Nunca vi um que conseguisse sobreviver a um escrutínio cuidadoso.

No debate em Portland, Texas, que Earle Beach mencionou no artigo anterior, o meu oponente aplicou probabilidades ao argumento do cumprimento de profecias. Ele mencionou várias vezes como era espantoso que tantas profecias do Velho Testamento se tivessem cumprido de forma precisa e exata na vida de Jesus de Nazaré. A premissa dele era que foram feitas e mais tarde cumpridas mais de 300 de tais profecias. Em certo ponto, quando ele estava a ser interrogado, declarou que a probabilidade de qualquer conjunto de 50 destas profecias se cumprir de forma precisa era de 11 sextilhões e 250 quintilhões para um. Escrito com todos os algarismos, o número é assim: 11.250.000.000.000.000.000.000. Como ele fez essa afirmação quando estava a ser interrogado, não pude responder diretamente sem pedir uma reinicialização do tempo, e naquele momento eu estava a seguir uma linha de questionamento que queria continuar. Ao ouvir as gravações, reparei que me esqueci de voltar a esse assunto para mostrar como a declaração era absurda, portanto vou fazê-lo agora. Se o Sr. Dobbs desejar responder aos meus comentários, publicaremos de bom grado as suas afirmações no próximo número da revista. A minha predição é que ele não responderá. Se ele não responder, interrogo-me sobre o que ele diria sobre a probabilidade de eu ser capaz de fazer uma profecia destas e ela se cumprir.

O principal problema com o argumento do Sr. Dobbs é que assume que as profecias foram feitas e cumpridas, mas ele não tem evidência real para apoiar essas suposições. Conforme eu disse no debate, quando estes alegados cumprimentos de profecias são estudados nos seus contextos originais, vemos facilmente que a maior parte deles nada tinha que ver com as aplicações que os escritores do Novo Testamento lhes deram de forma arbitrária. Um exemplo excelente é aquele que Earle Beach citou no seu artigo. Jeremias 31:15 é uma declaração que no contexto original se referia aos judeus que tinham sido espalhados pelo estrangeiro durante a Diáspora. Jeremias referiu-se figurativamente a isto como Raquel chorando pelos seus filhos, mas no contexto da declaração, há uma promessa no versículo seguinte segundo a qual estes filhos "regressariam da terra do inimigo". Portanto, é óbvio que Jeremias não estava de maneira nenhuma a falar de um massacre brutal de crianças judias, pelo que torcer a passagem e dar-lhe a aplicação que Mateus lhe deu só pode ser visto como um ato de desespero da parte de alguém que, não tendo qualquer evidência real do seu lado, tenta provar que este homem Jesus cumpriu as profecias judaicas sobre o vindouro Messias. Quando juntamos a isso a ausência total de referências em histórias seculares contemporâneas à matança dos inocentes por Herodes, temos uma boa razão para acreditar que nunca ocorreu este evento que Mateus alegou ser um cumprimento de profecia.

No seu artigo, Earle Beach mencionou que o mito da criança perigosa na qual obviamente esta história se baseou é um tema comum em religiões pagãs anteriores ao Cristianismo. O espaço não permite uma análise de todos estes mitos, mas vale a pena reparar na versão Hindu, pois é espantosamente paralela à história de Mateus. Segundo a literatura Hindu, quando Krishna, a oitava incarnação do deus Vishnu, nasceu da virgem Devaki, ele foi visitado por homens sábios que haviam sido guiados até ele por uma estrela. Anjos também anunciaram o nascimento a pastores nos campos próximos. Quando o Rei Kansa soube do nascimento miraculoso desta criança, enviou homens para "matar todas as crianças nas localidades vizinhas", mas uma "voz celestial" segredou ao pai adotivo de Krishna e avisou-o para que tomasse a criança e fugisse através do rio Jumna. (Na lenda Hindu, reconhecemos muitos outros paralelos com a infância de Jesus, além do elemento da criança perigosa.) Em Bible Myths and Their Parallels in Other Religions (Mitos Bíblicos e Seus Paralelos em Outras Religiões), o autor T. W. Doane citou um trabalho de Thomas Maurice, Indian Antiquities, vol. 1, pp. 112-113, que descreve uma "imensa escultura" num templo-caverna em Elephanta que representa as crianças indianas sendo assassinadas enquanto homens e mulheres aparentemente representando os seus pais estão implorando pelos seus filhos (p. 167).

Um estudo de mitologia pagã estabeleceria paralelos similares nas histórias de Zoroastro (Persa), Tammuz (Babilônica), Perseus e Adonis (Grega), Horus (Egípcia), Rômulo e Remo (Romana), Gautama (o fundador do Budismo), e muitas outras, pois vários elementos do mito da criança perigosa podem ser observados nas histórias de todos estes deuses e profetas pagãos. Todos estes mitos são anteriores, geralmente muitos séculos, ao relato de Mateus sobre o massacre das crianças em Belém. Krishna, por exemplo, era um salvador Hindu que alegadamente viveu no sexto século a.C., portanto quando um estudo da literatura do mundo antigo mostra que um evento incomum como a matança dos inocentes parece ter ocorrido por todo o lado, pessoas razoáveis percebem que esse evento provavelmente não ocorreu em lugar nenhum, ou na melhor das hipóteses ocorreu apenas uma vez e depois foi plagiarizado. Como a história ocorre muitas vezes antes da versão de Mateus, só podemos concluir que tal evento não ocorreu em Belém como Mateus -- e só Mateus -- alegou. É assim que o Sr. Dobbs vê um dos seus cinqüenta espantosos cumprimentos de profecias evaporar-se diante dos seus olhos.

Se o espaço permitisse, eu poderia estabelecer facilmente que muitos outros alegados cumprimentos de profecias na vida de Jesus têm paralelos na mitologia antiga. O Sr. Dobbs alegou que os milagres de Jesus haviam sido profetizados em Isaías 53:4-5, a sua crucificação no Salmo 22:16, a sua ressurreição no Salmo 16:10, e a sua ascensão no Salmo 68:18. Contudo, o exame destas passagens no seu contexto revela o mesmo problema que Earle Beach e eu discutimos acima no caso de Jeremias 31:15. As afirmações são notoriamente obscuras e só se tornam profecias através das alegações arbitrárias dos escritores do Novo Testamento, que as retiraram do contexto e as aplicaram a situações que os escritores originais não referiram. Portanto não há maneira de alguém estabelecer que estas "profecias" tenham sido originalmente feitas com a intenção de serem profecias. Tudo o que temos é a palavra não confirmada de escritores do Novo Testamento, dizendo que essas declarações foram feitas com a intenção de serem profecias, e isso não é uma base suficientemente boa sobre a qual se deva construir um argumento.

A esse problema tem de ser acrescentado o outro citado acima. O Cristianismo não é a única religião que alega que o seu salvador realizou milagres, foi crucificado, foi ressuscitado dos mortos e ascendeu ao céu. Escritos Hindus atribuíram todas estas coisas a Krishna. De fato, as vidas de Jesus e Krishna, conforme relatadas nas respectivas literaturas dos seus seguidores, são tão espantosamente paralelas que pessoas razoáveis só podem concluir que os escritores do Novo Testamento tomaram de empréstimo muitas das suas ideias de uma mitologia do salvador que tinha evoluído muito antes do primeiro século. De fato, salvadores nascidos de virgens, crucificados e ressuscitados eram a coisa mais comum na mitologia pagã, e se isso não destrói os argumentos probabilísticos (na medida em que se referem a cumprimento de profecias) nas mentes do Sr. Dobbs e de todos os outros que vêem mérito nelas, então eles estão obviamente determinados a acreditar na extravagância do mito cristão, independentemente de quão convincente possa ser a evidência em contrário.

Outra falácia neste argumento de probabilidades é que ignora completamente a possibilidade da invenção deliberada. Numa altura (do debate) em que eu estava a interrogar o Sr. Dobbs, pressionei-o a dizer à audiência se era de alguma forma possível que alguém estudasse as escrituras do Velho Testamento, interpretasse algumas passagens obscuras como profecias e depois escrevesse uma biografia de uma personagem fictícia de modo a fazer parecer que todas estas "profecias" tinham sido cumpridas na sua vida. As gravações (do debate) mostrarão que Dobbs evitou desesperadamente responder à pergunta, embora eu lha tenha apresentado três vezes.

Numa carta dirigida ao escritor fundamentalista Chuck Missler, Jim Lippard abordou muito bem este mesmo assunto ao comentar um argumento probabilístico que Missler aplicou a cumprimentos de profecias:

«Você estima a probabilidade de um pretenso Messias entrar em Jerusalém montado num jumento com base no número de candidatos a Messias que fizeram isto, assumindo (sem evidência) que a probabilidade é inferior a um em cem. Além de esta probabilidade estar errada, a pergunta correta que temos de fazer é: "Quantos Messias em perspectiva, sabendo da existência desta profecia, se dariam ao trabalho de a cumprir?" Não se dá o caso de entrar em Jerusalém montado num jumento estar além da capacidade de um ser humano cumprir intencionalmente. Eu estimaria a probabilidade como sendo da ordem de um em um.» (8 de Junho de 1993, p. 2)

O meu objetivo ao interrogar Dobbs era mostrar que estes alegados cumprimentos de profecias nunca aconteceram, que os escritores dos evangelhos limitaram-se a procurar no Velho Testamento declarações que podiam interpretar como profecias e depois escreveram as biografias do seu Messias de modo a fazer parecer que todas as profecias tinham sido maravilhosamente cumpridas. A abordagem de Lippard foi mostrar que, mesmo que as ações de "cumprimento de profecias" tenham realmente ocorrido, podiam ter sido feitas deliberadamente com o objetivo de dar ao pretenso Messias a oportunidade de alegar que ele tinha de fato cumprido as profecias judaicas. Quer encaremos a situação de um modo ou de outro, não haveria nada de excepcional para afirmar, neste caso, sobre um homem que entra em Jerusalém montado num jumento. Quantos judeus que eram descendentes de Abraão através de Davi podemos supor que entraram em Jerusalém montados num jumento em algum momento? Qualquer deles podia ter cumprido esta "profecia".

Tendo estabelecido este pano de fundo, posso agora demonstrar como o argumento probabilístico de Dobbs é absurdo. Não pedi a um perito em fatores probabilísticos que analisasse o argumento para verificar se a probabilidade contra o cumprimento de "qualquer conjunto de cinqüenta" das "mais de 300" profecias sobre Jesus era mais de 11 sextilhões contra um. Suponhamos que esse cálculo está correto. Se assim for, a única coisa que Dobbs conseguiu foi mostrar que as probabilidades contra ele ser capaz de provar que 50 profecias do Velho Testamento se cumpriram na vida de Jesus são 11 sextilhões contra um.

Para mostrar porquê, voltemos à matança dos inocentes. Foi dito que este evento foi profetizado em Jeremias 31:15, portanto vamos deixar que esta "profecia" seja a número um na lista das cinqüenta. Para começar a provar o seu argumento probabilístico, Dobbs teria de demonstrar ABSOLUTAMENTE, além de qualquer dúvida, que Jeremias pretendia que a declaração fosse uma profecia da matança dos inocentes por Herodes. Se existir alguma dúvida de que Jeremias pretendia que a declaração fosse uma profecia, então não foi estabelecido qualquer fato a respeito da profecia. Como eu questiono que tenha sido isso o que Jeremias queria dizer, e como há centenas e até milhares de outros como eu que também questionam, isto é prova de que Dobbs ainda não estabeleceu nada além de dúvida razoável, e muito menos ainda além de dúvida absoluta, que a declaração de Jeremias dizia aquilo que tem de dizer para que seja uma profecia. Suponhamos, porém, que Dobbs conseguia provar que Jeremias pretendia que a declaração fosse uma predição da matança das crianças em algum momento no futuro do profeta. Depois de Dobbs fazer isso, ele tem de provar DE FORMA ABSOLUTA que o massacre das crianças de Belém por Herodes pode ser estabelecido como fato histórico. A ausência total de qualquer referência a tal evento por qualquer outro escritor do Novo Testamento ou qualquer historiador secular contemporâneo a essa época torna isso uma tarefa impossível para Dobbs ou para qualquer outra pessoa. Contudo, se um evento que alegadamente é um cumprimento de profecia não pode ser estabelecido fatualmente, como é que uma pessoa racional pode afirmar que foi um cumprimento de profecia?

Novamente, suponhamos que Dobbs podia de algum modo provar que o massacre dos inocentes por Herodes ocorreu mesmo. Nesse ponto, tudo o que ele teria conseguido era provar que uma -- apenas uma -- profecia foi cumprida na vida de Jesus. Agora ele teria de pegar nas outras 49 e passar pelo mesmo processo, uma por uma, provando (o que seria muito difícil) para cada uma delas que: (1) a intenção da declaração original era mesmo fazer uma profecia de algo que ocorreria na vida do Messias e que (2) o acontecimento profetizado ocorreu mesmo a Jesus. Isto exigiria pegar nas alegações proféticas sobre o nascimento virginal de Jesus, os milagres, a entrada triunfal, a traição, a crucificação, o tratamento durante a crucificação, a ressurreição, a ascensão e quarenta e um outros alegados cumprimentos proféticos e provar o que foi hipoteticamente provado no caso da matança dos inocentes. Nenhuma pessoa razoável acredita que Dobbs ou qualquer outro possa fazer isso, pois no exato momento em que o menor elemento de dúvida surgisse em qualquer um dos 49 passos restantes (depois de provar o cumprimento de profecia no massacre dos inocentes), todo o argumento probabilístico se desmoronaria como um castelo de cartas.

Portanto, se as contas do Sr. Dobbs estão corretas, as probabilidades contra ele conseguir provar que Jesus cumpriu 50 profecias diferentes seriam mais de 11 sextilhões contra um. Portanto podemos rejeitar o argumento que invoca probabilidades e cumprimento de profecias.


Índice · Tradução © 2000 João Rodrigues · http://corior.blogspot.com/2006/02/str-biblia-cumprimento-de-profecias.html