Debate Entre Michael Horner e Farrell Till

Primeira Refutação de Farrell Till

Farrell Till


Isto poderia degenerar rapidamente num concurso entre os meus peritos e os peritos dele. No fim do seu discurso, ele [Horner] colocou um acetato no projetor e alguém disse -- e não lhe vou pedir que volte a colocar o acetato -- mas alguém disse algo no sentido de ser ridículo pensar que a mitologia, a mitologia pagã, teve algo que ver, qualquer tipo de influência, na história de Jesus de Nazaré. Posso passar o dia todo a citar referências de pessoas que tomariam o ponto de vista oposto.

Sugiro que se estiverem a tomar notas, escrevam isto: Joseph McCabe, The Myth of the Resurrection [O Mito da Ressurreição]. E se lerem esse livro verão que este era um homem que nasceu numa família católica devota. Ele foi educado no sistema educativo católico no século passado, e ensinou num seminário católico. E ele investigou exatamente isto de que estou a falar, e foi isso o que o levou a rejeitar a religião católica, ou a religião cristã, e tornar-se num dos escritores céticos mais prolíficos.

O Sr. Horner disse que Osíris tornou-se Serápis e que Serápis tornou-se Attis, ou algo parecido. Seja como for, disse que Osíris tornou-se Serápis. E ele está completamente certo ao dizer isso. Este deus era Osíris no Egito. Mas era Adónis e Atis em sítios que estavam sob influência grega. Ele era Tamuz em sítios que foram influenciados pelos babilônios. E eles acreditavam que este deus morreu, e que foi ressuscitado, e isto aconteceu séculos antes de Jesus de Nazaré ter alegadamente vivido. E podem considerar o salvador hindu, Krishna, e se estudarem a sua vida encontrarão alguns dos paralelos mais espantosos de todos os deuses-salvadores pagãos, na vida de Krishna.

Ele [Horner] disse que não há disputa sobre a Ressurreição na Igreja primitiva e penso que ele disse nos séculos iniciais a seguir a isso. Bem, Sr. Horner, já alguma vez ouviu falar do bispo de Lyon, Ireneu? E sabe que ele afirmou que Jesus nunca foi crucificado? E ele fez esta afirmação porque disse que a recebeu do apóstolo João. E ele afirmou que Jesus não foi crucificado, que viveu até depois dos noventa anos, e que morreu de morte natural. Ora, isso parece-me indicar que houve uma disputa na Igreja primitiva sobre a história da ressurreição.

Ele disse que não haveria história se aceitássemos o 'critério de Till' para a história. Não vejo como é que ele chegou a essa conclusão. O meu critério é simplesmente o mesmo critério que Thomas Paine enunciou em The Age of Reason [A Era da Razão]. Nós aceitamos da história aquelas coisas que são credíveis, aquelas coisas que são normais, e rejeitamos aquelas coisas que são extraordinárias. Ele [Paine] disse: "De outro modo, teríamos de acreditar que o Imperador, Vespasiano, curou o homem que era cego e o homem que era coxo, como Tácito disse." Thomas Paine fez um erro quando disse que Tácito disse aquilo, porque na realidade não foi Tácito que registrou aquilo; foi Suetônio. Podem ler a história escrita por Suetônio, e verão que isso é exatamente o que ele disse. O homem cego e o homem coxo vieram até junto do Imperador Vespasiano e suplicaram-lhe que lhes tocasse, para que ficassem curados. Ele tocou-lhes e eles foram curados. Isso soa muito parecido com algumas das coisas que Jesus fez. Bem, se ele [Horner] lê no Novo Testamento que Jesus curou um homem cego, diz: "Sim, sim, isso é verdade, temos de acreditar nisso." Mas se Suetônio diz o mesmo, Horner diz: "Não, temos de rejeitar isso."

Ora, os meus critérios são muito simples, ou talvez eu devesse antes dizer que o meu critério é muito simples, Sr. Horner. Se é uma coisa que alguém escreveu no passado e é muito comum, estamos dispostos a aceitá-la. Mas quando entramos no domínio dos milagres, não estamos dispostos a aceitar isso.

E também quero abordar a afirmação de que são precisas duas ou três gerações antes de uma lenda ter tempo de se desenvolver. Nós falávamos de história. A história não concorda com isso, e vou mencionar alguns nomes: Wyatt Earp, Buffalo Bill, Wild Bill Hickok, Jesse James. Quantas lendas sobre estas pessoas se desenvolveram durante a sua própria vida antes de morrerem? Sabem, Wyatt Earp morreu apenas quatro anos antes de eu ter nascido. Quem chegará alguma vez a saber a verdade sobre o tiroteio ocorrido no O.K. Corral, já que tem havido tantas lendas construídas à volta disso?

Mas tomemos um exemplo. Já alguma vez ouviram falar de um sujeito chamado Sabattai Sevi? Ele foi um pretenso messias do século XVII que reuniu muitos seguidores na área do mediterrâneo. E Gershom Scholem, biógrafo de Sevi, relatou que houve uma explosão súbita de histórias milagrosas que se desenvolveram à volta deste homem onde quer que ele fosse.

Vou ler uma citação da biografia de Sabbatai Sevi que Scholem escreveu, publicada pela Princeton University Press:

"O reino da lenda imaginativa em breve dominou o clima mental da Palestina. O fluxo da imaginação estava fortemente em evidência na carta enviada ao Egito e a outras partes e que no outono de 1665, o mesmo ano em que ele visitou a Palestina, tinha assumido o caráter de propaganda regular, messiânica, na qual a ficção superava em muito os fatos."

Aqui estão alguns exemplos das lendas que se desenvolveram à volta deste homem durante a sua vida. Muitos juraram que quando o profeta falava, era muitas vezes envolvido por uma nuvem tempestuosa e ouvia-se uma voz de anjo falar a partir da nuvem. Lembrem-se que vos estou a falar das lendas que se desenvolveram durante o período de vida deste pretenso messias, bem antes de ele morrer.

O livro também diz que houve um tempo em que Sevi ordenou que um fogo fosse ateado num lugar público, e depois de o fogo ter sido ateado, ele caminhou através do fogo três vezes sem qualquer dano para o seu vestuário ou o seu corpo. Sabe-se que existem cartas nas quais é feita a afirmação de que quando Sevi foi aprisionado as suas cadeias partiram-se miraculosamente e ele deixou a prisão através de portas fechadas. Certa vez ele matou um grupo de bandidos apenas com a palavra da sua boca; suponho que da mesma maneira que o apóstolo Pedro pronunciou a morte sobre Ananias e Safira no quinto capítulo de Atos. Suponho que se eu perguntar ao Sr. Horner se ele acredita que Ananias e Safira caíram mortos conforme registrado no quinto capítulo do livro de Atos, ele diria: "Sim, acredito nisso", mas ele provavelmente não diria que acredita que este pretenso messias do século XVII fosse capaz de dizer a palavra e fazer com que pessoas caíssem mortas. Algumas das cartas escritas sobre ele pelos seus discípulos afirmaram que ele até ressuscitou pessoas dos mortos.

E falemos de Charles Manson; é um nome que reconhecerão. E claro que Charles Manson tinha seguidores. Se estiverem familiarizados com a história dos crimes atrozes que ele cometeu saberão que o homem está agora preso, a cumprir uma pena de prisão perpétua. Quando Edward Sanders estava a fazer pesquisa para o seu livro The Family [A Família], descobriu que já estavam a circular muitas lendas sobre os seguidores de Manson. Ou melhor, entre os seguidores de Manson. Uma lenda dizia que quando ele estava numa viagem de ônibus através do Death Valley, Manson levitou o ônibus sobre um ribeiro onde não havia ponte. Estou certo de que se perguntar ao Sr. Horner, ele dirá que não acredita nisso.

Mas estou-lhes a dar exemplos de lendas que se desenvolveram quando ainda eram vivas as pessoas que conseguiram reunir seguidores. Portanto essa é apenas uma asserção arbitrária que ele está a fazer: 'Sabemos que todas essas histórias sobre Jesus têm de ser verdadeiras porque os evangelhos foram escritos antes de ter havido tempo para que as lendas se desenvolverem.' E ele também disse que quando lemos estes relatos no Novo Testamento, não soam como lendas. Será que não?

Tomemos o livro de Mateus como exemplo. As mulheres estavam a caminho do túmulo, e subitamente houve um terramoto e um anjo desceu e sentou-se na pedra. Será que isso não tem a marca da lenda? Isso soa-me exatamente como as muitas lendas que encontramos na literatura que estava sendo escrita nesse tempo. Era por isso que eu estava a pressioná-lo para nos dizer se consegue mencionar o nome de um único evento miraculoso desse período de tempo, da literatura das outras nações, que ele aceitaria como fato histórico. E ele não conseguiu pensar em qualquer evento. Mas se for um evento registrado na Bíblia, ele está automaticamente disposto a aceitá-lo. É por isso que eu digo que todos os argumentos que ele faz assumem que é historicamente verdade tudo o que a Bíblia diz, mas nós não podemos deixá-lo assumir isso.

Contra-interrogatório, Michael Horner

Horner: A sua hipótese alternativa à hipótese da ressurreição é que a Ressurreição é uma lenda, ou uma fabricação deliberada, ou uma combinação de ambas, ou outra coisa diferente?

Till: Bem, você disse que tinha ouvido falar de Sabattai Sevi. Se é esse o caso, então sabe que ele se converteu ao Islão. E seria de esperar que isso tivesse morto o movimento, mas não foi isso que aconteceu...

Horner: Não é essa a pergunta que lhe estou a fazer. Farrell; a pergunta que lhe estou a fazer é: qual é a sua hipótese alternativa à Ressurreição?

Till: Redução da dissonância cognitiva é o termo que é usado para a descrever. E eu estava a usar os discípulos de Sevi como um exemplo disso.

Horner: OK, continue.

Till: Ele era o messias judeu que eles esperavam. E ele [mais tarde] converteu-se ao Islão. Será que isto matou o movimento? Não. Eles começaram a dizer coisas como: 'Bem, ele fez isto para que pudesse explorar as profundezas do mal e depois fazer mais bem', ou...

Horner: Eu não... não penso que esteja a responder à minha pergunta.

Till: Bem, penso que estou. Alguns deles disseram que este na realidade não é Sevi; Sevi na realidade morreu, não morreu, mas este é um impostor que se parece com ele, e é o que se converteu ao Islão, e ele fez isso para tentar destruir o movimento.

Horner: Portanto a sua posição é que a Ressurreição é uma lenda. É isso o que está a tentar dizer-nos.

Till: A minha posição é que isso é um exemplo, poderia ser um exemplo de redução da dissonância cognitiva, como no caso de Sevi. Quando algo traumático como isso acontece a pessoas que depositam muita confiança num indivíduo, em vez de dizerem: 'Ora, ele era um louco; era uma fraude', elas tentam racionalizar. É possível que os discípulos de Jesus tivessem ficado tão desiludidos devido ao fato de este homem ter morrido, que começaram a contar histórias de uma ressurreição?

Horner: Claro que a questão não é se é possível, mas se é provável. A segunda pergunta é: os livros de história são feitos apenas a partir de relatos em primeira mão, por testemunhas oculares?

Till: Não, certamente que não. Mas quem é que vai aceitar alegações fantásticas que são escritas em livros de história que chegam até nós em segunda ou terceira mão?

Horner: Bem, mas você parece assumir que só as testemunhas oculares podem escrever história fidedigna.

Till: Não, não estou a dizer isso. Estou a dizer que se um livro de história contém exemplos que são fantásticos, e não existe testemunho ocular disso, então certamente vamos rejeitar isso automaticamente, não vamos aceitar testemunho em segunda ou terceira mão.

Michael Horner (Campus Crusade for Christ of Canada)
Farrell Till (Skepticism, Inc.)


Índice · Tradução © 2000 João Rodrigues · http://corior.blogspot.com/2006/02/str-biblia-debate-entre-michael-horner.html