O Pentateuco e a Suposta Autoria de Moisés

Stephen Van Eck


As concepções religiosas dos crentes comuns existem ao nível das noções de contos de fadas inculcadas durante a infância, que persistem resolutamente até à idade adulta. Entre estas noções está a crença comum de que Moisés escreveu os primeiros cinco livros da Bíblia. Este ponto de vista foi rejeitado há muito tempo por eruditos judeus como Aben-Ezra e Spinoza, e Maimónides duvidava da maior parte de Génesis. A maioria dos peritos bíblicos actuais, com a excepção dos zelotas fanáticos, também rejeita o ponto de vista tradicional. Eles são praticamente obrigados a isso, porque anacronismos abundantes e outras discrepâncias refutam uma autoria de Moisés. De facto, Moisés é muito possivelmente um herói ficcional inventado pelos sacerdotes do último período monárquico, mas quer ele tenha existido ou não, só um desprezo obstinado pelos factos é que pode permitir que a noção fantasiosa de que Moisés escreveu o Pentateuco resista mesmo a uma análise elementar.

Para começar, tem de ser reconhecido que não existe qualquer registo egípcio de Moisés nem de qualquer das coisas notáveis que ele alegadamente fez. Heródoto, que viajou extensivamente no Egipto, reunido informações, não fez qualquer menção de Moisés. Os cristãos, claro, têm de afirmar que os ressentidos e humilhados egípcios apagaram do registo oficial todas as referências a Moisés, mas isto é pura especulação sem qualquer tipo de apoio, nem sequer na Bíblia. De facto, esse argumento contrasta com Êxodo 11:3, que diz que "O próprio Moisés era um homem de grande importância na terra do Egipto, perante os oficiais de Faraó e perante o povo." As suas obras miraculosas, mesmo que não fossem parte do registo oficial, poderiam ter sido preservadas em registos não oficiais ou na memória das tradições, e qualquer uma delas poderia ter emergido novamente depois de os acontecimentos estarem seguramente no passado. De facto, Deus teria feito bem em assegurar que existisse algum registo independente para confirmar Êxodo -- a menos que de alguma forma ele quisesse tornar a fé tão problemática quanto possível.

Os cristãos, porém, não são persuadidos pelo testemunho (ou falta dele) dos descrentes, portanto vamos voltar à Bíblia. Estranhamente, Moisés quase não aparece nos livros históricos. Estes livros incluem Juízes, 1 e 2 Samuel, e Reis, e abrangem aproximadamente 500 anos. De entre as pouquíssimas referências a ele, a maioria das quais são casuais, não se pode provar que qualquer delas tenha sido parte de qualquer texto anterior ao tempo de Josias. Se fosse real, um homem da estatura de Moisés teria aparecido de forma proeminente em tudo o que foi posterior ao seu alegado tempo. Ele teria sido citado frequentemente pelos líderes religiosos como a sua principal autoridade. Ele e toda a sua história espantosa não poderiam de maneira nenhuma ter sido "esquecidos" de forma tão completa, independentemente do nível de desuso em que o Iavéismo tivesse caído. Por essa razão, ele torna-se conspícuo pela sua ausência das páginas da história judaica posterior ao exílio.

O argumento do silêncio tem o seu lugar, mas a melhor evidência contra a autoria de Moisés encontra-se no próprio Pentateuco, bem como nos livros históricos do Velho Testamento. Aquele contém referências anacrónicas que é impossível terem sido trabalho de Moisés, enquanto estes descrevem práticas religiosas entre os judeus que demonstram uma ignorância completa da Lei de Moisés, mesmo entre os próprios sacerdotes. Examinemos estas em primeiro lugar.

Salomão mandou construir o primeiro templo, conforme é descrito em 1 Reis 6-7, mas nem ele nem os sacerdotes parecem ter tido qualquer conhecimento da proibição do segundo mandamento contra fazer "qualquer semelhança de qualquer coisa que está no céu acima ou que está na terra em baixo" (Êxodo 20:4), pois o texto descreve imagens de bois, leões, flores, palmeiras e querubins (1 Reis 6:23-26; 7:23-50) sem qualquer condenação. Religionistas zelosos que se deram ao trabalho e à despesa de construir um templo central para toda a fé certificar-se-iam de o construir em conformidade com os seus preceitos mais importantes. Que estes preceitos ainda não existiam é a explicação mais provável para o facto de terem sido ignorados.

O quarto mandamento, tal como o segundo, parece ter sido desconhecido muito tempo depois de supostamente ter sido dado. O sábado, um sétimo dia de descanso para devoções, não é mencionado em qualquer texto anterior ao Deuteronómio e não pode, por essa razão, ter sido importante, mas depois do exílio tinha assumido uma importância fundamental. Antes deste tempo, os únicos sábados que os judeus aparentemente praticaram foram sábados lunares para a lua nova e para a lua cheia. Isaías (1:14) no VIII século a.C. denunciou festivais lunares, e Oséias (2:11), por volta da mesma época, apresenta Deus prometendo a destruição das "novas luas e sábados" de Israel. Isto deve referir-se ao sábado lunar da lua cheia, ou dificilmente teria sido condenado.

Analogamente, não há registo de o Yom Kippur ser observado antes do exílio, mas Levítico 23:26-32, supostamente escrito por Moisés, ordenou que este dia de expiação fosse celebrado anualmente no 10.º dia do sétimo mês como uma "convocação sagrada", mas a história anterior ao exílio é estranhamente silenciosa sobre este dia sagrado. Esse dia, junto com o sábado e possivelmente a páscoa (2 Reis 23:21-22) foi provavelmente enfatizado pelos sacerdotes judeus do exílio para reforçar a sua religião entre o povo, para que não fossem assimilados.

Tal como no caso do templo, a própria arca do pacto também levanta cepticismo. Êxodo 37:1-9 descreveu a arca com duas imagens proeminentes de querubins. Esta é a arca supostamente construída para conter os dez mandamentos, portanto os judeus decidiram, sem mais nem menos, desconsiderar a proibição contra as imagens esculpidas! É mais provável que os dez mandamentos ainda não existissem quando a arca foi construída originalmente como o assento de Iavé, mas quando os mandamentos foram escritos mais tarde e atribuídos a Moisés, a arca tornou-se, retroactivamente, um receptáculo para eles.

Segundo Deuteronómio 31:24-26, a Lei de Moisés também foi colocada na arca como lembrete para uma geração futura destinada a tornar-se apóstata, mas a arca desapareceu da história depois de ser capturada pelos filisteus e posteriormente devolvida aos hebreus para pôr fim a um golpe de má sorte que os filisteus enfrentaram (1 Samuel 6:21; 7:1-2). Mais tarde a arca foi devolvida a Jerusalém (2 Samuel 6:10-17) e depois perdeu-se para a história. Provavelmente estava entre os "tesouros da casa de Iavé" levados por Shishak por volta de 950 a.C. (1 Reis 14:26), pois não lhe é feita qualquer outra referência e não fazia parte do templo restaurado por Zerubabel. Se Hilquias em 620 a.C. encontrou "o livro da lei na casa de Iavé" como ele alegou (1 Crónicas 34:14), então não podia ter sido o próprio livro escrito por Moisés o que ele convenientemente encontrou. Esse livro da lei tinha alegadamente sido colocado dentro da arca.

Além dos livros históricos, o livro de Jeremias fornece-nos uma pista importante. Reflectindo o conflito pouco notado entre profeta e sacerdote, Jeremias tinha negado que Deus tivesse instruído os israelitas a fazer ofertas queimadas: "Assim diz Iavé dos exércitos, o Deus de Israel: Juntem as vossas ofertas queimadas aos vossos sacrifícios, e comei a carne. Pois no dia em que trouxe vossos antepassados da terra do Egipto, eu não lhes falei nem lhes ordenei a respeito de ofertas queimadas e sacrifícios" (7:21-22). Ou Jeremias se recusou a reconhecer Levítico, tornando-se a si mesmo ou a Levítico não canónicos, ou (como a maioria dos peritos bíblicos agora acredita) Levítico ainda não existia nesse tempo! Sacerdotes do exílio decidiram escrevê-lo.

O Pentateuco contém evidências comprometedoras que tornam a autoria de Moisés impossível. São proeminentes as discrepâncias geográficas como Génesis 11:28 e 15:7, que mencionam "Ur dos Caldeus". Ur era uma cidade suméria durante o tempo de Abraão. Tinha-se tornado numa cidade babilónica antes do tempo de Moisés, que teria pensado nela enquanto tal. Os Caldeus não entram na história a não ser várias décadas depois de Moisés, e passaram ainda mais anos até eles se tornarem suficientemente dominantes na área para merecerem que se referisse a eles como Caldeia. Moisés teria usado as palavras Sinear (Suméria) ou Babilónia para se referir a Ur, em vez de usar Caldeia.

Génesis (14:14) também se refere à cidade de Dã, que recebeu esse nome devido a uma tribo, que por sua vez recebeu o nome de um dos filhos de Jacó, mas não se lhe chamou Dã senão depois de os Israelitas a terem tomado, coisa que todos admitirão só ter acontecido depois do tempo de Moisés. Juízes 18:29 diz-nos que originalmente essa cidade chamava-se Laish. Génesis 35:19 identificou Efrata com o seu nome posterior, Belém, que também não poderia ter recebido outro nome senão depois do tempo de Moisés, que morreu antes de os Israelitas terem entrado em Canãa. Génesis 23:2 identificou Kiriate-arba como sendo Hebron, que não teve este nome senão depois da conquista israelita (Juízes 1:10).

Génesis 21:32 e 26:1, 8 referem-se à terra dos Filisteus, e 20:1 refere-se a Gerar, uma das cidades Filisteias. No tempo de Moisés, Gerar era uma cidade cananita (Génesis 10:19). Os Filisteus só começaram a colonizar a área em meados do século XII a.C., portanto Moisés não teria conhecimento disso. (Eerdmans Bible Dictionary, 1978, pp. 828-829 é apenas uma de muitas obras de referência que reconhecem este como sendo o tempo em que os filisteus entraram pela primeira vez nesta região.) Os compiladores posteriores de Génesis, porém, teriam pensado em Gerar como uma cidade filisteia, e ao colocarem estes recém-chegados numa época anterior, eles traíram-se a si mesmos.

Além destas referências geográficas discrepantes, o uso de rases tais como "até este dia" (Génesis 35:20; Deuteronómio 34:6) subentendem necessariamente alguma passagem de tempo entre os eventos e os relatos escritos sobre eles. De igual forma, Deuteronómio 34:10, ao dizer "Não se levantou um profeta igual a Moisés em Israel" não teria sentido e seria absurdo se tivesse sido escrito pelo próprio Moisés. Também não devemos negligenciar Números 12:3, que declarou que Moisés era o sujeito mais manso do mundo. Se escrito por um homem sobre si mesmo, isso seria jactancioso, que é exactamente o oposto de manso.

Os apologistas alegam que essas passagens, tal como o famoso auto-obituário de Moisés (Deuteronómio 34:5-7), são acréscimos ocasionais de um redactor posterior e não lançam necessariamente o descrédito sobre a autenticidade de Deuteronómio. Mas se o texto original podia sofrer acréscimos ou ser alterado de qualquer maneira, isso só levanta interrogações sobre o que mais foi acrescentado, o que pode ter sido modificado e como é que se pode esperar que confiemos na sua credibilidade.

Génesis 36:31-43 não é tão fácil de explicar: "Estes são os reis que reinaram sobre Edom, antes de ter reinado qualquer rei sobre os filhos de Israel ..." Isto não pode ter sido escrito antes do período dos reis judeus, entre 200 e 600 anos depois do tempo de Moisés. Não pode ser explicado como uma "profecia", porque foi escrito no pretérito perfeito, não pretendeu ser um prognóstico e não serviu qualquer propósito profético. Outro facto que também contraria a autoria de Moisés é esta secção ser praticamente idêntica a 1 Crónicas 1:43-54, de onde até pode ter sido copiada. Isto daria uma data bastante mais tardia para Génesis, visto que Crónicas são reconhecidos como livros posteriores ao exílio.

Outra coisa que coloca a composição de Génesis bastante tarde é a história de Noé, que é mencionada em 7:2 como distinguindo entre animais "puros" e "impuros". Esta distinção só foi feita em Deuteronómio e foi feita unicamente para os judeus, o que indica não só uma data mais tardia para Génesis mas também lança descrédito sobre a credibilidade da própria história de Noé.

Por fim, devemos observar que o Pentateuco não contém um mas sim vários códigos de lei (Êxodo 20:1-17; 34:1-28; Deuteronómio 5:6-21), apresentados de uma maneira altamente caótica. A própria existência de mais de um código é uma indicação de mais de um autor e de uma extensão alargada de tempo. Moisés não teria necessidade de escrever outros códigos de leis imediatamente a seguir a um anterior, especialmente se isso for encarado como a palavra de uma deidade que não muda e é perfeita.

Em face destes problemas com o texto do Pentateuco, a conclusão principal de que esse é fundamentalmente o trabalho de autores posteriores é inevitável para toda a gente, excepto para o zelota mais obstinado. Outras conclusões sobre a história do Judaísmo podem ser sugeridas pela mesma evidência. A primeira é a suspeita de que o Iavéismo anterior à "reforma" de Josias (2 Reis 22-23) não estava em declínio, como geralmente se pensa, mas nem sequer tinha ainda começado! Em segundo lugar, quando Hilquias afirmou que tinha encontrado "o livro da lei de Iavé", a aparição mais antiga de Deuteronómio, ele ou outro sacerdote tinham-no composto nesse tempo e passaram-no a outros como se fosse uma autoridade antiga, como parte de um esquema bem sucedido para ganhar estatuto para o Iavéismo como a religião oficial do Estado. Em terceiro lugar, Moisés foi um carácter ficcional criado como um herói lendário para as pessoas admirarem, o intermediário que trouxe aquilo que era alegadamente a palavra de Deus para Israel, pois a apresentação da mesma por meros homens comuns, contemporâneos, não teria sido convincente. Esta suspeita é apoiada não só pela ausência de confirmação histórica para a existência de Moisés mas também pelos detalhes biográficos aparentemente tomados de empréstimo [de outras lendas anteriores]. Ser colocado num cesto selado com alcatrão e colocado ao sabor da corrente num rio é a história de Sargão da Acádia, o primeiro conquistador regional, que tinha vivido mais de mil anos antes de Moisés. A história de como ele foi colocado num cesto ao sabor da corrente, no rio Eufrates, foi inscrita numa Estela [ou coluna] Acádica:

Sargão, o grande rei de Acádia, sou eu. Do meu pai, só sei o nome.... De resto, nada sei acerca dele. O irmão do meu pai viveu nas montanhas. A minha mãe foi uma sacerdotisa que nenhum homem devia conhecer. Ela trouxe-me ao mundo secretamente.... Ela tomou um cesto de canas, colocou-me dentro dele, cobriu-o com alcatrão e colocou-me no rio Eufrates. E o rio, sem o qual a terra não pode viver, levou-me através de parte do meu futuro reino. O rio não se levantou sobre mim, mas levou-me para Akki, que produzia água para irrigar os campos. Akki fez de mim um jardineiro. No jardim que eu cultivava, Inanna (a grande deusa) viu-me. Ela levou-me para Kish para a corte do Rei Urzabala. Ali eu chamei a mim próprio Sargão, isto é, o rei justo.

A tradução [para inglês] da inscrição e uma imagem da estela de Sargão podem ser encontradas em Behind the Bible [Por Detrás da Bíblia] (Fredericton, NB, Canadá, 1990, pp. 1-2). Além do relato de Sargão, esta história da criança abandonada que se tornou num grande líder aparece por todo o lado na mitologia. Estas coincidências, tal como as discrepâncias acima mencionadas, abalam a credulidade.


Índice · Tradução © 2000 João Rodrigues · http://corior.blogspot.com/2006/02/str-biblia-o-pentateuco-e-suposta.html