Um Legado de Sacrifícios Humanos?

Farrell Till


A incineração de animais para aplacar a ira dos deuses era uma antiga crença bárbara que parecia ser quase universal. Através da leitura da Bíblia sabemos que eram sacrificados animais a Iavé com o entendimento de que isto era algo que ele não só queria mas também tinha ordenado especificamente, sob pena de punições severas caso as suas várias ordens relativas a sacrifícios fossem ignoradas. As nações vizinhas de Israel -- Babilônia, Pérsia, Assíria, Egito, Grécia, Roma -- também praticavam religiões que requeriam sacrifícios animais. Culturas muito afastadas desta região, como as tribos meso-americanas, também ofereciam sacrifícios animais aos seus deuses.

A origem da prática provavelmente está perdida para sempre na antigüidade. Talvez a idéia tenha começado quando os primeiros humanos viveram juntos num mesmo local e foram depois levados para outras regiões, à medida que os mais aventureiros migraram para outras partes do mundo, ou talvez a crença de que os deuses podiam ser aplacados queimando animais em seu tributo tenha sido uma idéia que se desenvolveu independentemente em culturas que estavam completamente isoladas umas das outras. Independentemente da sua origem, o sacrifício de animais em homenagem a deuses foi uma idéia que obviamente teve uma ampla aceitação.

Provavelmente a partir da idéia de que os deuses podiam ser aplacados através de sacrifícios animais, algumas religiões evoluíram até incluírem sacrifícios humanos. Apenas podemos conjeturar sobre como esta prática se desenvolveu, mas não é difícil imaginar que pessoas primitivas que acreditavam supersticiosamente que os deuses podiam ser aplacados através da morte de animais em tributo a eles, podiam ter passado a crer que uma ordem mais elevada de sacrifícios seria ainda mais agradável para os seus deuses. Independentemente de como ou onde a idéia dos sacrifícios humanos se desenvolveu, ela tornou-se uma prática comum em religiões primitivas.

Embora alguns escritores e profetas bíblicos condenassem os sacrifícios humanos, a Bíblia não é de modo algum consistente na forma como encara esta prática religiosa. O Salmo 106 condenou os israelitas que tinham "sacrificado os seus filhos e as suas filhas aos demônios" e que tinham "derramado sangue inocente, o sangue dos seus filhos e filhas, a quem eles sacrificaram aos ídolos de Canaã" (vs. 36-37), e reis como Acaz (2 Reis 16:3) e Manassés (2 Reis 21:6) foram acusados por terem feito os seus filhos "passar através do fogo", uma expressão que denotava o sacrifício de crianças como ofertas queimadas. Uma das razões que o escritor de 2 Reis deu para Iavé ter permitido que a Assíria levasse o reino setentrional de Israel ao cativeiro foi o povo ter "feito os seus filhos e as suas filhas passar através do fogo" (2 Reis 17:17). Portanto, os sacrifícios humanos eram condenados por alguns escritores bíblicos mas mesmo assim ainda eram praticados.

Isto não quer dizer que o sacrifício humano fosse uniformemente condenado na Bíblia, pois existem algumas passagens que parecem implicar aceitação da prática. Em Gênesis 22, Deus ordenou a Abraão que levasse o seu filho Isaque para uma montanha na terra de Moriá e "o oferecesse ali como uma oferta queimada" (v. 2). Conforme reza a história, Abraão levou Isaque à montanha, amarrou-o a um altar e tomou uma faca para o matar, em obediência à ordem, quando uma voz do céu disse a Abraão para parar, pois tinha provado que "temia a Deus" ao não recusar oferecer o seu único filho (vs. 9-12). Uma história destas só podia ser contada e aceite como exemplo de grande fé numa cultura na qual se pensava que o sacrifício humano era uma homenagem apropriada ao deus que se adorava, portanto, mesmo que Abraão não tenha sido uma pessoa histórica real, a existência desta lenda na cultura israelita indicaria que a idéia de sacrifícios humanos não era completamente repugnante nesse tempo.

Que esse não era um conceito repugnante, é mostrado por um caso real de sacrifício humano registado em Juizes 11. Jefté tinha sido chamado para julgar Israel numa época de conflito com os amonitas. Antes de ir para a batalha, o "espírito de Iavé" veio sobre Jefté, que fez um voto dizendo que se Iavé entregasse os amonitas nas suas mãos, "então qualquer que seja a pessoa que saia das portas da minha casa ao meu encontro, quando eu voltar vitorioso dos amonitas, será de Iavé, para ser oferecida por mim como uma oferta queimada" (vs. 30-31). Jefté infligiu uma "grande derrota" (v. 33) aos amonitas, e ao voltar a casa, encontrou a sua única filha, que saiu da casa dançando com tamborins (v. 34). Ao vê-la, Jefté rasgou as suas roupas em desespero e contou à filha o voto que fizera. Conforme reza a história, a reação dela foi que um voto é um voto e tem de ser cumprido, portanto depois de lhe terem sido dados dois meses para ela "chorar a sua virgindade" (v. 38), Jefté "fez com ela segundo o voto que fizera" (v. 39).

No Novo Testamento, tanto Abraão como Jefté foram incluídos entre os grandes heróis de fé da era do Velho Testamento (Hebreus 11:17, 32), e a disposição de oferecer Isaque foi apresentada como sendo uma das razões para Abraão ter sido assim designado. Com passagens como estas na Bíblia, é muito difícil declarar Iavé completamente inocente em relação ao barbarismo dos sacrifícios humanos. Isso é especialmente verdade quando a doutrina do sacrifício substituto é examinada objetivamente. Qualquer pessoa que tenha alguma vez tentado manter uma conversação com um cristão de mentalidade evangélica seguramente ouviu a expressão "Jesus morreu por ti", ou outras similares, e isso acontece porque eles estão simplesmente a papaguear o que foi dito repetidamente no Novo Testamento. "Dificilmente se encontra alguém disposto a morrer em favor de um justo" disse o apóstolo Paulo, "talvez haja alguém que tenha coragem de morrer por um homem de bem. Mas Deus demonstra o seu amor para conosco porque Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores" (Romanos 5:7-8). Na sua famosa defesa da ressurreição, Paulo disse que tinha pregado aos Coríntios "em primeiro lugar" aquilo que ele próprio tinha recebido [por revelação], "isto é: Cristo morreu pelos nossos pecados, conforme as Escrituras" (1 Coríntios 15:3).

Esta é uma doutrina fundamental do Novo Testamento, e ao atribuir-lhe a importância que encontramos em escritos que alegadamente foram "inspirados" pelo Espírito Santo, o cristianismo reduziu o seu deus ao nível de uma deidade dos vulcões da antigüidade, que exigia através dos seus sacerdotes o sacrifício de uma virgem para aplacar a sua ira. Quem duvidar disto deve ler o livro bíblico de Hebreus, cujo tema central é a impossibilidade de o sangue de touros e carneiros eliminar os pecados (Hebreus 10:4), por isso Deus enviou o seu filho para morrer pelos pecados do mundo. "Jesus, porém, ofereceu um só sacrifício pelos pecados", disse ainda o escritor, "e sentou-se à direita de Deus" (Hebreus 10:12). Sem dúvida, muitos cristãos, de forma pouco crítica, vêm beleza na idéia de um deus que amou tanto o mundo, ao ponto de enviar o seu filho para ser um sacrifício pelo pecado, mas essas pessoas ainda não se aperceberam que estão a ver beleza num antigo ritual bárbaro que pessoas esclarecidas deviam ter abandonado há muito tempo.

John Shelby Spong, o heterodoxo bispo da Diocese Episcopal de Newark, New Jersey, E.U.A, está a empreender uma campanha para reformar a cristandade a partir de dentro. No seu livro Why Christianity Must Change or Die [Por Que o Cristianismo Tem de Mudar ou Morrer], Spong propôs "Doze Teses" que a cristandade tem de aceitar para evitar o desaparecimento. A sexta tese era esta: "A perspectiva da cruz como sacrifício pelos pecados do mundo é uma idéia bárbara baseada num conceito primitivo de Deus que tem de ser rejeitado." Num artigo recente na Human Quest, ele apresentou a seguinte defesa da sua tese:

Para mim é obvio que, se não expusermos a natureza bárbara desta interpretação antiga acerca do significado da morte de Jesus e do Deus que alegadamente a exigiu, e se não removermos esta monstruosidade espiritual da empresa cristã, então o cristianismo não tem futuro. Não acredito que homens e mulheres modernos alguma vez achem apelativo um Deus cuja vontade é satisfeita pelo sacrifício humano de Jesus na cruz.

Se o cristianismo requer esta perspectiva acerca do significado da morte de Jesus, eu, pelo menos, não escolheria mais esta casa da fé. Mas devido à sua natureza entrincheirada, a oposição passiva nunca será efetiva. De fato, esta idéia tem de ser desalojada agressivamente, caso contrário jamais surgirá algo novo e mais apelativo. É por isso que creio que a Igreja Cristã atualmente requer uma reforma nova e poderosa que não pode parar antes de ter examinado e reformulado as doutrinas mais básicas e fundamentais da fé cristã. ("Reforming Christology: He Did Not Die for My Sins!" ["Reformando a Cristologia: Ele Não Morreu Pelos Meus Pecados!"], Novembro/Dezembro de 1999, p. 7)

É de fato um mistério a razão por que alguém que chegou tão longe em ver as origens bárbaras das suas doutrinas principais escolhe permanecer afiliado com o cristianismo, mas Spong aparentemente decidiu ficar lá dentro em vez de sair. Não obstante, pelo menos é animador notar que alguns proeminentes líderes cristãos estão a começar a ver quão profundamente as raízes do cristianismo estão incrustadas em superstições antigas que nesta altura um povo esclarecido já devia ter ultrapassado.

Talvez Spong e aqueles como ele sejam a luz no fundo do túnel, há muito tempo esperada.


Índice · Tradução © 2000 João Rodrigues · http://corior.blogspot.com/2006/02/str-biblia-um-legado-de-sacrificios.html