Crítica ao Livro de Keith Ward: Deus, Acaso e Necessidade

Steven Carr

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Deus, Acaso e Necessidade é o título de um livro do Professor Keith Ward, Regius Professor of Divinity na Universidade de Oxford.1

O livro foi escrito em resposta aos trabalhos de, entre outros, Francis Crick, Carl Sagan, Stephen Hawking, Richard Dawkins, Jacques Monod e Peter Atkins.

O livro tenta dar "uma resposta razoável a colecções de preconceitos deslocados" e afirma que é "o postulado de Deus, com o seu corolário de propósito e valor objectivo, que pode fornecer melhor uma explicação para o porquê de o universo ser como é".

Introdução: O Debate Sobre Deus

Na Introdução, o Professor Ward coloca as pessoas em duas categorias.

Os teístas vêem o universo como "espiritual, com um propósito e com valor supremo", ao passo que os ateus vêem-no como "material, e sem qualquer propósito ou valor, excepto aquele que humanos individuais possam escolher dar-lhe".

O Professor Ward diz que a ascensão da ciência abriu o caminho para cientistas ateus dizerem que colegas religiosos são "cegos, ignorantes e enganados", algo que [segundo Ward] não podem dizer "com completa honestidade".

Portanto, sabemos o que o Professor Ward pensa de cientistas do calibre de Carl Sagan ou Stephen Hawking -- ele acredita que eles, com muita desonestidade, andam por aí a dizer que os seus colegas religiosos são 'enganados e ignorantes' e que a sua fé é apenas praticada "supersticiosamente". Eles "ridicularizam abertamente as crenças religiosas".

O Professor Ward também afirma que "cientistas ateus" têm uma "espécie de barbárie científica", que "vê o estudo das humanidades, como literatura, filosofia, história e arte, como uma perda de tempo inútil".

Estes cientistas raramente dizem "quão pouco realmente sabemos sobre os assuntos sobre os quais eles escrevem com tanta confiança". O Professor Ward diz que a forma como eles tratam a religião revela "um desprezo virulento que só pode ser classificado de preconceito".

Que dizer dos ataques do Professor Ward à integridade de cientistas como Francis Crick e Richard Dawkins? É simplesmente uma tentativa de desacreditá-los, retratando cientistas que não acreditam em Deus como filisteus culturais (para usar um termo racista de abuso derivado da Bíblia), que gozam e ridicularizam pessoas religiosas sem compreenderem a grande profundidade do seu pensamento.

No último capítulo, o Professor Ward continua os seus assassínios de carácter.

Ele escreve que as crenças de Richard Dawkins são apenas "um pedaço de wishful thinking", que encorajam o desejo de "levar a nossa vida sem restrições morais e destruir autoridades religiosas tradicionais". Ward compara-as a rebelião adolescente.

É este tipo de escrita que devíamos esperar de um trabalho sério de filosofia?

Voltemos à afirmação principal do livro. É "o postulado de Deus, com o seu corolário de propósito e valor objectivo, que pode fornecer melhor uma explicação para o porquê de o universo ser como é".

Essa é uma afirmação ousada. Esperamos encontrar nos capítulos seguintes as melhores explicações possíveis sobre como o universo foi criado ex nihilo.

Esperamos aprender como a vida foi criada a partir de não-vida. Esperamos também aprender, não só como o universo é como é, mas também por que o universo é da forma que é.

Esperamos aprender como o Homo sapiens conseguiu evoluir contra todas as probabilidades, apesar de durante dezenas de milhões de anos os dinossauros terem sido a forma de vida superior, antes de se extinguirem.

Receio, porém, que a única resposta que obteremos do Professor Ward para essas perguntas é: 'Os cientistas não sabem, portanto Deus deve ter feito isso'.

Ward pensa que o design aparente do universo é boa evidência para a existência de Deus e boa evidência sobre a natureza de Deus. Parece que o Professor Ward pensa que este universo é aquele que Deus projectou. Isto talvez seja uma surpresa para pessoas que leram Génesis capítulos 1 a 3. Ali lemos que Deus projectou um universo diferente, um universo que era bom. O universo actual é o resultado de acções sobre as quais Deus não teve controlo -- acções que Ele não queria que acontecessem.

Como é que a natureza de um Criador pode ser deduzida a partir de uma Criação que correu mal e que não era o que o Criador planeou?

Capítulos 1-3: A Origem do Universo

Nestes capítulos, o Professor Ward tenta mostrar que a hipótese teísta da criação é, de longe, a melhor explicação para a existência do universo.

Vou resumir os argumentos dele. É necessário explicar por que existe algo em vez de nada. "Podia não haver leis da física, ou podia ter havido algo a que as leis não se aplicassem, ou as leis podiam ter deixado de existir pouco depois de terem vindo à existência."

O Professor Ward afirma que tem de haver uma razão para o Big Bang. Ele pensa que é uma "hipótese de último recurso" que não haja uma razão para o Big Bang. No entanto, o Professor Ward não acredita que tudo tem uma razão suficiente. É "moralmente importante" que haja um futuro aberto, e "o indeterminismo é uma condição necessária para o desenvolvimento posterior da liberdade moralmente importante em seres racionais".

Afirmar que o universo é indeterminado mina a força da alegação de que deve ter havido uma causa para o Big Bang. Afirmar que o universo é indeterminado também leva à conclusão de que não determinamos as nossas próprias acções, pois as nossas acções são parte do universo. Se as nossas acções não são determinadas por nada, e o Professor Ward afirma que é necessário que as nossas acções não sejam determinadas, então as nossas acções não são determinadas por nós. Como é que podemos desenvolver liberdade moralmente importante se as nossas acções não são determinadas pela nossa moral, desejos e crenças? Se as nossas acções são determinadas pela nossa moral, desejos e crenças, então por que é o indeterminismo necessário para a liberdade?

O Professor Ward examina o livro Creation Revisited de Peter Atkins. Ward afirma que Atkins está errado quando diz que o universo foi criado do nada.

O Professor Ward explica cuidadosamente que "nunca há absolutamente nada. Ha sempre algo, e algo que pode conter em si mesmo todas as possibilidades. Uma definição de um 'ser necessariamente existente' é que ele é um ser que existe em todos os mundos logicamente possíveis (onde 'um mundo' é entendido como cobrindo absolutamente tudo o que realmente existe)".

Se o ser de Ward existe necessariamente em todos os mundos lógicos, então não podemos deduzir nada acerca deste ser através da observação do nosso mundo. Se o nosso mundo fosse totalmente diferente, o ser de Ward ainda existiria. Nenhumas descobertas sobre este mundo podem dizer algo sobre um ser que existe em todos os mundos -- isto refuta que a crença dele seja uma crença científica, que depende de observação e experiências neste mundo.

Se Ward pensa que a existência de seres humanos mostra algo acerca do seu Deus, então o seu Deus não pode ser o ser que existiria necessariamente sem seres humanos.

Isto é especialmente verdade quando Ward insiste, na página 36, que "esse ser é o mesmo em todos os mundos possíveis". Por outras palavras, o ser necessariamente existente de Ward seria o mesmo num mundo onde Jesus nunca tivesse nascido, ou num mundo composto inteiramente de átomos de hidrogénio sem carbono ou oxigénio para criar seres humanos. Mas Ward argumenta que Deus quer este mundo que temos, portanto, se vivêssemos num mundo diferente, o Deus de Ward teria valores diferentes e não seria o mesmo ser. Ward também insiste que Deus se tornou incarnado em Jesus neste mundo. Deus não se podia ter tornado incarnado em Jesus em todos os mundos possíveis, até mesmo num mundo sem seres humanos, portanto o Deus de Ward não é o ser que é o mesmo em todos os mundos possíveis.

Talvez Ward argumentasse que Deus é o mesmo em todos os mundos possíveis, mas o que Ele de facto faz é contingente [dependente] do mundo particular que criou.

Ward argumenta isso nas páginas 37-38. Ele diz que um Deus omnipotente pode criar um universo no qual eu morro jovem ou um mundo no qual vivo por muitos anos. Ele escreve: "Claro, nem mesmo Deus pode fazer as duas coisas". (Será que Deus não pode criar 2 universos, ou um universo após outro?) Ward continua: "Segue-se que um Deus necessariamente omnipotente tem de ser capaz de agir de maneiras contingentes [...]".

Na mesma página, Ward escreve que Deus "actualiza um subconjunto de possibilidades por um acto contingente de vontade". Por outras palavras, Deus cria algo a partir do nada por um acto contingente de vontade. Mas este acto de vontade seria contingente sobre o quê? No momento em que Deus cria pelo seu acto de vontade, não há nada além de Deus. Parece que Ward fica reduzido a argumentar que um ser necessário é contingente sobre si mesmo, e tem propriedades contingentes.

Se o Deus de Ward tem propriedades contingentes, então só pode ser similar em todos os mundos possíveis, mas Ward argumenta que um ser necessariamente existente tem de ser "o mesmo" em todos os mundos possíveis.

Como é que um ser pode ser o mesmo em todos os mundos possíveis se tem propriedades diferentes em mundos diferentes?

O Professor Ward continua:

"Assim, chegamos à melhor razão para a existência deste universo: foi escolhido por uma questão de bondade, a bondade da sua contemplação por uma mente consciente de todos os estados possíveis que poderiam existir, com os valores e problemas que comportam consigo [...] Isso explicaria por que este universo é precisamente de um modo que leva seres conscientes a acreditar que podem conhecer e amar Deus."

Portanto a razão por que temos uma terra com biliões de anos (não milhões, como o Professor Ward afirma) e um universo, a maior parte do qual é totalmente hostil à vida, é para que seres humanos possam amar Deus.

Isto é egocentrismo numa escala verdadeiramente cósmica! A razão de Ward para a existência do universo certamente não é uma razão que possa ser demonstrada cientificamente. Se ele acredita na sua razão, então tem de admitir que está a abandonar a ciência como um meio de descobrir a razão para a existência do universo.

Se o nosso universo realmente é precisamente planeado para criar pessoas como Francisco de Assis e Albert Schweitzer, então não pode ser negado que também é precisamente planeado para criar pessoas como Heinrich Himmler e Pol Pot. Como é que o Professor Ward sabe que pessoas como Himmler não são o que Deus procurava obter quando criou o universo? Que evidência apresenta ele para mostrar que valores humanos bons era o que Deus planeava e não valores humanos maus?

Naturalmente, o Professor Ward não faz qualquer tentativa de mostrar que há uma "mente consciente de todos os estados possíveis que poderiam existir".

Ele dedica a maior parte do capítulo 3, não a mostrar por que a explicação dele é boa, mas a mostrar como Peter Atkins cometeu erros filosóficos.

Peter Atkins escreveu no seu livro Creation Revisited: "Portanto, fórmulas são declarações sobre as relações entre números". Ward diz que esta afirmação é falaciosa (realmente!) e conclui que a hipótese de que "Deus fez isso" deve ser a melhor explicação.

A lógica dele realmente reduz-se a isso.

Será que Ward mostra que "Deus fez isso" é a melhor explicação?

Ward escreve que um ser necessariamente existente é um ser que existe em todos os mundos que poderiam possivelmente existir. Os cristãos insistem que Deus não existe neste mundo. Eles insistem que Deus existe fora do nosso espaço e tempo. Eles insistem que o universo não é Deus. O universo não é feito de matéria-Deus. Se é assim, então como é que um ser necessariamente existente pode criar algo que não é ele mesmo?

Se Ward pensa que "Deus fez isso" é a melhor explicação, então tem de apresentar uma explicação sobre como o universo passou a existir. Ele tem de mostrar como é que a matéria veio da não-matéria, o tempo do não-tempo, e o espaço do não-espaço, especialmente porque ele diz que todas as teorias científicas que foram propostas tentam explicar "criação a partir de algo", não "criação a partir do nada". Se não há mecanismo natural que pode explicar "criação a partir do nada", então como é que Deus o fez? Por que é que Ward pensa que está a fazer ciência quando diz que o mundo foi criado do nada e nunca pode haver um mecanismo que o fez, pois esse mecanismo seria "algo", não seria "nada"?

Concedo que na página 57 ele explica como é que o universo foi criado. Foi criado por "acção criativa" e "a mente cósmica escolheu-o para existir". Esta é uma maneira incrivelmente fácil de fazer ciência. Como é que a gravidade funciona? Por acção gravitacional. Electricidade? Acção eléctrica. Magnetismo? Acção magnética. A força nuclear forte? Acção da força nuclear forte.

Como curiosidade, o Professor Ward diz que a realidade física foi trazida à existência de forma contingente [dependente], ou livremente, por acção criativa. Se esta acção foi contingente [dependente] de algo, como é que podia ter sido feita livremente?

É realmente possível dizer que Deus é a melhor explicação para a criação do mundo e depois dizer que o mundo foi criado por "acção criativa"? É isso o melhor que 2.000 anos de teologia são capazes de apresentar?

Esse não é o único non sequitur no livro.

O que explica "com completa adequação a extraordinária precisão do Big Bang que iniciou este universo"? Segundo Ward, a explicação completamente adequada é: "Alguma mente [...] pretende trazer à existência um domínio físico que concretiza um subconjunto de possibilidades elegantes" (página 46). Ficamos a pensar por que será que as pessoas estão a gastar biliões de dólares no Grande Acelerador de Partículas quando já têm uma explicação completamente adequada do Big Bang -- Deus queria "concretizar um subconjunto de possibilidades elegantes". Como é que isto explica as leis matemáticas precisas que governam o Big Bang? No capítulo 5, Ward queixa-se que Richard Dawkins "equivoca-se deliberadamente sobre a natureza da crença em Deus", que "não é uma teoria inventada para explicar ocorrências particulares no mundo" e "nós não introduzimos Deus para explicar por que alguns fenómenos físicos ocorrem".

Portanto a crença em Deus explica de forma completamente adequada a extraordinária precisão do Big Bang apesar de nunca se ter pretendido que explicasse ocorrências particulares no mundo!

Naturalmente, Ward não faz qualquer tentativa de mostrar como é que pretender trazer algo à existência de facto traz algo à existência. Num livro que tenta mostrar que as crenças religiosas são compatíveis com a ciência, espera-se que Ward mostre como é que a crença religiosa dele, segundo a qual Deus apenas tem de querer algo para que isso aconteça, é compatível com a ciência.

Ward também tem de mostrar como é que um criador do nosso espaço e tempo, existindo fora do nosso espaço e tempo, pode comunicar com o nosso espaço e tempo. Ele tem de mostrar, partindo da sua definição de um "ser que existe em todos os mundos possíveis", por que razão a mera existência garante a este ser o poder de criar universos.

Ward tenta responder a esta questão na página 46. Pode um universo ser criado por outro ser diferente de Deus? Ward 'refuta' isso escrevendo: "Pois na hipótese de Deus, nenhum universo pode existir sem uma causa, e nenhum universo pode ser criado por um ser supremamente mau, porque Deus impediria que isso acontecesse".

Acho espantoso que um Professor de Divindade em Oxford não consiga responder à pergunta mais óbvia sem assumir precisamente a coisa que está a tentar mostrar -- que a hipótese de Deus é uma boa hipótese. Isso não passa de uma petição de princípio.

Também é espantoso que o Professor Ward pense que pode responder a perguntas dizendo que Deus não permitiria que um acto mau ocorresse.

Como é que o Holocausto ocorreu? Certamente Deus impediria que isso acontecesse. Por que razão alguns bebés nascem mortos? Certamente Deus impediria que isso acontecesse. Por que razão algumas mulheres têm abortos? Certamente Deus impediria que isso acontecesse.

A 'resposta' de Ward nem sequer é uma resposta, a menos que ele consiga mostrar que Deus impede rotineiramente que aconteçam actos maus. A 'resposta' de Ward também não responde à pergunta: "Um anjo poderoso e bom, criado por Deus, pode ter criado o universo?"

Para "a melhor explicação possível", há um grande número de perguntas sem resposta.

Ele tem de mostrar por que ser necessariamente existente implica que o Deus dele tem de ser necessariamente omnipotente. Ele tem de mostrar por que um ser tem de ser infinitamente poderoso para criar um universo, e não apenas muito, muito poderoso.

Naturalmente, ele não faz qualquer tentativa de mostrar isso.

Se Ward critica o Professor Atkins por este ter escrito: "Fórmulas são declarações generalizadas sobre as relações entre quantidades" (dificilmente uma afirmação controversa), então que diremos do Professor Ward quando escreve: "[...] há um lugar para o mistério, para aquilo que está para além da análise intelectual, e que no entanto ultrapassa o intelecto finito, abstracto e discursivo por uma inteligibilidade que vai infinitamente para além dos seus poderes." Isto vem logo depois de uma passagem que diz: "Os teístas não [...] dizem 'Não tente entender isto; é conhecimento proibido'."

Será que a melhor explicação possível pode ser um mistério que está infinitamente para além dos poderes do nosso intelecto? Como é que isso se encaixa na suposição científica que tudo pode ser compreendido -- uma afirmação que Ward diz que os monoteístas reconhecem como sua própria e que é fortemente motivada por fé num Deus sábio?

Em "From Face to Faith" ("Da Face à Fé"), em Outubro de 1993, Ward escreveu sobre a "completa incomensurabilidade de todos os pensamentos humanos com a realidade que é Deus". Portanto Ward está a tentar usar argumentos mutuamente contraditórios. Deus pode ser conhecido e amado mas é "completamente incomensurável" com os pensamentos humanos. Ele quer mostrar que a hipótese de Deus explica coisas, mas é incapaz de apresentar explicações e como último recurso diz que essa hipótese ultrapassa o nosso intelecto finito.

Conclusão dos Capítulos 1-3

O Professor Ward está certo ao dizer que todas as teorias científicas da criação do universo envolvem criação a partir de algo. Porém, isto significa que a doutrina cristã da criação a partir do nada não tem sustentação científica.

O Professor Ward está errado ao dizer que, como todas as teorias científicas envolvem criação a partir de algo, então Deus deve ter criado o mundo a partir do nada. Ele tem de mostrar que o mundo foi realmente criado a partir do nada, e tem de apresentar um mecanismo que permita a Deus transformar o nada em algo.

Ele não precisa de apresentar um mecanismo se conceder que a doutrina cristã não é algo que possa ser testado pela ciência. Mas se fizer isso, terá de abandonar a sua alegação de que os teístas não colocam uma barreira à frente dos cientistas nem dizem: "Isto é conhecimento proibido".

Ward alega que a sua explicação teísta é a melhor, mas esta não explica nada sobre como aconteceu a criação do universo, só diz: "Aconteceu". Levanta um grande número de perguntas, nenhuma das quais é respondida no livro. Apontei algumas das perguntas não respondidas no texto acima.

A explicação de Ward é um mistério e ele argumenta recorrendo ao mistério e louvando Deus. Por exemplo, que dizer dos seus parágrafos finais?

"Que a mente faz nascer o universo sem ser diminuída de nenhum modo. Na sua infinidade sem nome, fica sempre para além, e no entanto abraça e engloba todos os mundos finitos do tempo e mudança. É infinitamente longe, e no entanto nenhuma distância o separa de qualquer coisa que tenha ser. É o ser de todas as coisas que têm ser, que o recebem e podem pensar que o possuem, até ser levado de volta para a sua fonte."

"Essa mente, a partir da sua potência infinita, selecciona as leis e os limites fundamentais deste universo, e coloca-o no seu caminho emergente em direcção à criação das galáxias. Porém, sustenta cada novo momento pela sua presença constante, e sem ela cada momento cairia na inexistência. Aquele, sem nome ou forma, é a profundeza infinita, o oceano infinito do ser. À superfície todos os seres vêm a ser e vão embora, como a espuma numa onda, deixando a profundeza serena e imperturbável pela sua passagem. No entanto, eles são parte dela, expelidos da sua infinidade. O seu poder é dado mas nunca possuído, e eles depois têm de voltar Àquele que o dá."

Não vou fazer de conta que compreendo isso, nem vou tentar adivinhar o que podem significar expressões como: "ser de todas as coisas que têm ser". Penso que Ward está a dizer que o Deus da Bíblia, chamado Iavé na Bíblia, não tem um nome e é "Aquele".

Mas é óbvio que nada disso é minimamente científico e as crenças de Ward baseiam-se em misticismo, não se baseiam em ciência.

Capítulo 4: Darwin e a Selecção Natural

Neste capítulo, o Professor Ward tenta mostrar que a evolução é compatível com a moderna ideia teísta de que Deus usou processos naturais para criar seres humanos.

Ele escreve:

"[...] uma evolução de um estado em que nenhuns valores são apreendidos para estados em que valores podem ser tanto criados como desfrutados dá uma impressão esmagadora de propósito ou design. Portanto, há toda a razão para pensar que um relato evolutivo científico e uma crença religiosa numa força criativa controladora não só são compatíveis, mas reforçam-se mutuamente."

Ward faz essa declaração e repete-a várias vezes, mas não apresenta qualquer evidência de uma força criativa e controladora, excepto que, na opinião dele, o universo parece ter sido projectado.

Ward conclui na página 92: "O pensamento de que milhões de espécies se extinguiram pode levar a uma impressão de desperdício e destruição na evolução, que parece inconsistente com bom design." Na página 93, ele escreve sobre "A aparente exterminação destrutiva de indivíduos e espécies [...]", que é "de facto, o melhor caminho."

Portanto, parece que o mundo aparenta ter sido projectado para produzir "estados de valor muito grande" num "sistema de leis elegante e eficiente". E que dizer da destruição e da aleatoridade? "A melhor maneira de lidar com esta dificuldade é abandonar todas as ideias ingénuas de Deus como um pai que gostaria, se pudesse, de eliminar toda a destruição e aleatoridade. Essas ideias podem impedir que vejamos a verdadeira intencionalidade do processo evolutivo."

Portanto devemos abandonar as nossas ideias "ingénuas" sobre a exterminação "aparentemente" desperdiçadora de milhões de espécies. De facto, isto "parece inconsistente com bom design", mas não devemos deixar que tais pensamentos nos 'impeçam' de ver a verdade. Abandone esses pensamentos. Coloque-os longe da sua mente. Não pense neles.

Ele depois diz sobre os seus oponentes: "Isto, porém, é mais uma asserção cega e, até ao momento, não substanciada, do que um argumento". O livro de Ward, do princípio ao fim, consiste em argumento por asserção, conforme acabámos de ver acima na sua alegação de que devemos abandonar ideias que nos impedem de ver o [alegado] verdadeiro propósito.

Por exemplo, neste capítulo Ward não tenta mostrar que existe realmente um Deus que tem sido responsável pela evolução de seres humanos. Ele dedica a maior parte do texto a mostrar que a selecção natural não pode ser responsável pelo desenvolvimento de seres humanos complexos e conscientes. O argumento dele parece ser que se a selecção natural não é uma explicação adequada, então Deus deve ser uma explicação melhor, presumivelmente devido ao princípio de que como tudo pode ser feito por Deus, tudo pode ser explicado dizendo que Deus deve estar por detrás disso.

Na página 560 do seu livro Como a Mente Funciona, de 1997, Steven Pinker escreveu:

"O problema da solução religiosa foi apontado por Mencken quando escreveu: 'A teologia é o esforço de explicar o que não é possível conhecer em termos do que não vale a pena conhecer'. Para alguém com uma curiosidade intelectual persistente, não vale a pena conhecer as explicações religiosas porque amontoam enigmas igualmente confusos em cima dos enigmas originais. Quem deu a Deus uma mente, livre arbítrio, conhecimento e certeza sobre o certo e o errado? Como é que ele os introduz num universo que parece funcionar perfeitamente bem segundo leis físicas? Como é que ele faz almas fantasmagóricas interagir com matéria palpável? [...] Sentimo-nos defraudados porque não foi apresentado qualquer entendimento [...]"

No livro de Ward, não foi apresentado qualquer entendimento. Nunca aprendemos como é que Deus faz o truque de criar seres humanos. Ward afirma que Deus cria leis naturais que fazem o truque, mas nunca diz como é que isso acontece.

Ward declara que a selecção natural é "demasiado improvável e precária" e que a "melhor explicação" é "uma actividade causal contínua de Deus". Ward pensa que Deus fez com que os seres humanos passassem a existir através de "actividade causal", da mesma forma que Ele criou o universo através de "acção criativa".

Por outras palavras, tal como ao longo de todo o livro, Ward pensa que "Deus fez isso" é a melhor explicação e é a melhor explicação porque as explicações científicas actuais têm problemas. Mais uma vez, Ward nunca explica como é que "Deus fez isso" ajudaria os cientistas a fazer ciência. O uso que Ward faz dos termos "actividade causal" e "acção criativa" são pouco mais do que dizer "Deus fez isso, e ele fê-lo fazendo-o". As melhores explicações de Ward são incompatíveis com a ciência, porque não conduzem a nenhum entendimento científico.

Numa reunião pública em 4 de Dezembro de 1997 em Bradford, Inglaterra, perguntei ao Professor Ward que experiências os cientistas fariam de forma diferente se todos eles se convertessem à crença de Ward de que Deus está por detrás do universo. Ele disse que os cientistas não fariam nada de modo diferente.

Perguntei-lhe sobre um problema científico específico. O Modelo Standard da física das partículas tem muitos parâmetros livres, que na realidade deviam ser eliminados se tivéssemos uma apropriada teoria científica de física de partículas. Perguntei ao Professor Ward como é que a hipótese de Deus ajudaria os cientistas a conseguir uma compreensão mais completa do Modelo Standard. Ele disse que não ajudaria.

E ele ainda diz que Deus é a melhor explicação. Afinal vemos que as crenças de Ward são inúteis para explicar por que as coisas são como são.

Ward Sobre a Selecção Natural

Ward acredita que o principal problema que a biologia evolutiva enfrenta é explicar a complexidade crescente. Ele afirma correctamente que a selecção natural não é tendenciosa a favor da complexidade crescente. Portanto, a selecção natural é uma explicação inadequada.

A dificuldade é que o problema que os biólogos evolutivos enfrentam é explicar por que os animais têm um design para fazer as coisas que fazem, não é explicar a complexidade crescente. Há muitos casos em que o melhor design envolve reduzir a complexidade, não aumentá-la. Muitos parasitas tornam-se mais simples, não mais complexos. A selecção natural seria de facto inadequada para explicar um aumento contínuo de complexidade, mas aumentos contínuos de complexidade não são o que a selecção natural tem de explicar.

Ward nunca mostra que houve um aumento contínuo de complexidade, excepto nos termos mais gerais. Ele afirma que "agentes morais sensíveis e racionais" emergiram de "células semelhantes a vírus". (Como um aparte, vírus não são unicelulares, mas ignoremos isso.)

Ward acredita que o único propósito da evolução é produzir seres humanos, que é o que ele quer dizer com "agentes morais sensíveis e racionais". A teologia dele é completamente egocêntrica e especiosa. É um ponto de vista rejeitado pela maioria dos biólogos evolutivos. A "Grande Cadeia do Ser", que classificava os seres numa escala desde a ameba e o peixe numa extremidade até aos cães, macaco e finalmente o homem na outra extremidade, foi totalmente abandonada pelos biólogos.

Se Deus realmente preparou todo o cenário para produzir seres humanos, por que permitiu que o homem de Neandertal se extinguisse? Será que eles não eram suficientemente "sensíveis, racionais e morais"? Será que eram Untermenschen [sub-humanos] geneticamente inferiores (literalmente) que tinham de ser eliminados para abrir caminho para o Homo sapiens moralmente superior?

Stephen Jay Gould escreveu que as formas de vida dominantes nesta terra têm sido, são e serão sempre as bactérias. Alguém certa vez perguntou a J. B. S. Haldane que podia ele dizer sobre Deus, através da observação do mundo natural. Haldane respondeu que Deus parecia ter uma afeição desmesurada por escaravelhos.2

No livro O Rio Que Saía do Éden (página 105), Richard Dawkins explica o que acha que o mundo natural diz acerca de [um alegado] Deus:

"Os dentes, garras, olhos, nariz, músculos das pernas, espinha dorsal e cérebro de uma chita são todos eles precisamente o que esperaríamos se o propósito de Deus ao conceber as chitas fosse maximizar a morte entre os antílopes [...] É como se as chitas tivessem sido concebidas por uma deidade e os antílopes por uma deidade rival. Alternativamente, se só existe um criador que fez o tigre e o cordeiro, a chita e a gazela, a que está Ele a brincar? É Ele um sádico que gosta de assistir a desportos sangrentos?"

Selecção Natural e Teologia

Ward escreve que "Certamente agora sabemos que o sofrimento e a morte já existiam entre os animais muito antes do aparecimento dos primeiros seres humanos". Ele diz: "Isto impõe uma modificação nas concepções religiosas primitivas sobre a vida na terra [...]". Ele continua: "Consequentemente, temos de compreender a morte que o primeiro pecado consciente trouxe, não como um fim físico da vida, mas como uma morte espiritual, uma separação de Deus, a única fonte de vida".

Há algumas declarações espantosas dentro desse parágrafo.

Antes de mais, Ward concede que os teólogos tiveram de se virar para os cientistas para que estes lhes dissessem que as suas concepções religiosas sobre Génesis 3 estavam erradas.

Também é interessante que Ward não apresente quaisquer citações bíblicas para apoiar as suas alegações de que Génesis não está a falar sobre um fim físico da vida. Eu estaria interessado em ver a explicação dele sobre Romanos 5:12, por exemplo.

Em Génesis 1:29-30, Deus diz: "Eu vos dou todas as ervas que dão semente [...] e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas". Ward não diz por que não devemos tomar isso literalmente, embora ele concorde que havia carnívoros antes de haver seres humanos.

Génesis 3:16-24 deixa claro qual foi a punição pelo primeiro pecado consciente. Ward concorda que a punição pelo primeiro pecado consciente foi que as mulheres teriam dores de parto grandemente aumentadas e que os homens teriam de trabalhar duramente para sobreviver? Não consigo encontrar nada em Génesis 3:16-24 que diga que a punição seria a separação de Deus. Deus separa os seres humanos do Éden, não de si mesmo.

A declaração de Ward também deixa implícito que nenhum dos ancestrais da criatura que cometeu o primeiro pecado consciente estava separado de Deus, e esses ancestrais tiveram uma morte espiritual. O céu vai estar cheio de Australopitecos?

Como Ward acredita que "todos os acontecimentos na natureza são influenciados de alguma forma pelos objectivos e intenções de Deus", é difícil ver o que a "separação de Deus" pode significar. Há algum acontecimento que seja separado de Deus? Se eu deixar cair um martelo de uma janela de um sexto andar em cima da cabeça de um bebé, a obediência do martelo à lei da gravidade é influenciada pela vontade de Deus? Será que o martelo deixaria de cair e não acertaria no bebé se Deus não o mantivesse em movimento durante a queda mortal?

Objecções à Selecção Natural

Ward faz muitas objecções à selecção natural.

Ele relega a objecção mais devastadora para uma nota de rodapé na página 94, que vale a pena citar por inteiro:

"Richard Dawkins mostra como mutações grandes diminuiriam muito as hipóteses de sobrevivência; veja O Relojoeiro Cego, pp. 72 e seguintes. Mutações muito pequenas fariam a selecção cumulativa muito lenta. Mutações completamente arbitrárias, ou verdadeiramente aleatórias, minariam completamente a selecção cumulativa."

À primeira vista, a nota parece deixar implícito que o livro de Richard Dawkins diz que mutações muito pequenas fariam a selecção cumulativa muito lenta. Naturalmente, Dawkins não acredita nisso -- é a crença do Professor Ward.

Ward não apresenta qualquer argumento para apoiar a sua alegação de que a selecção cumulativa é demasiado lenta. Ele escreveu no capítulo 2 que a terra foi formada "há milhões de anos". Se ele realmente acredita que a terra tem milhões, em vez de milhares de milhões de anos, então talvez ele esteja certo ao dizer que a selecção cumulativa é demasiado lenta. No entanto, penso que a conversa dele sobre uma terra que tem milhões de anos é apenas escrita desmazelada -- certamente ele sabe que a terra tem 4,5 milhares de milhões de anos.

Será que ele pensa mesmo que mutações muito pequenas tornariam a selecção cumulativa demasiado lenta? Nós conseguimos produzir cães tão diferentes como um Great Dane e um poodle em apenas uns poucos de milhares de anos, portanto grandes mudanças na forma podem acontecer no decurso de pequenos períodos de tempo.

Suponha que ratos aumentavam de tamanho em 0,01% em cada 100 gerações, com 4 gerações por ano. Esta parece uma taxa muito pequena. Significa que os ratos duplicariam de tamanho a cada 173.000 anos. Esta taxa de mutação minúscula significaria que os ratos pesariam mais do que elefantes em cerca de 3,5 milhões de anos -- aproximadamente o tempo que levou para o Homo sapiens se desenvolver a partir da Lucy.

A selecção natural é realmente muito poderosa -- demasiado poderosa para ser rejeitada com uma frase simplista do género 'mutações muito pequenas são demasiado lentas'. Ward tem de apoiar isso com cálculos matemáticos.

Ward também afirma na página 78, sobre a selecção natural: "não pode tornar mais prováveis as mutações iniciais que geram sistemas de processamento de informação mais exactos".

Parece que Ward sabe pouco sobre a teoria da selecção natural de Darwin. A selecção natural não explica, nem pode explicar, como as mutações ocorrem. Nunca se pretendeu que explica isso. A selecção natural toma as mutações como dados em bruto ['matéria prima'], coisas que acontecem, e selecciona as mutações que dão aos animais o maior sucesso reprodutivo.

Ward queixa-se que a selecção natural não pode explicar como a evolução tomou um rumo em vez de outro. Ele diz: "Não é difícil imaginar uma raça de baleias que gradualmente passam a gostar cada vez mais de terra [...] até que seja produzida uma criatura tão peluda como um urso". Ele pensa que isto significa que a selecção natural pode explicar tudo e por essa razão nada explica.

Além da ironia que é acreditar que um Deus todo-poderoso é uma boa explicação para alguma coisa, e depois queixar-se que uma teoria científica pode explicar tudo e mais alguma coisa, Ward não percebeu o ponto.

É de facto fácil imaginar que as baleias pudessem mudar-se de volta para terra e depois tornar-se peludas. Mas por que é que isso diminui o poder explicativo da selecção natural? As baleias só se mudariam de volta para terra se estivessem reunidas as condições certas para elas fazerem isso. Todas as teorias dirão que coisas diferentes acontecem sob condições diferentes, e não podem predizer sempre que condições existirão no futuro.

Eduardo VIII abdicou porque se apaixonou pela Sr.ª Simpson. É fácil imaginar que ele podia não se ter apaixonado por ela, ou podia ter-se apaixonado por outra pessoa. Nesse caso, podiam acontecer coisas diferentes. Será que isto significa que é impossível explicar como os humanos se comportam dizendo que eles se apaixonam uns pelos outros? Será que a 'teoria do amor' tem de predizer exactamente quem se apaixonou por quem ao longo de todo o curso da história antes que o Professor Ward aceite que podemos explicar como um homem se comporta para com a sua esposa ao dizermos que ele está apaixonado por ela?

O Relojoeiro Cego

O Professor Ward cita um livro intitulado O Relojoeiro Cego, de Richard Dawkins e depois queixa-se que a selecção natural é cega. Nós não podemos dizer o que o futuro trará, e o que agora é uma vantagem poderá não sê-lo no futuro.

Tudo isto é muito verdade, mas não refuta a selecção natural que, conforme todos os seus proponentes concordam, não pode prever o futuro. Os animais são seleccionados aqui e agora. Não são seleccionados por terem alguma característica que os ajudará daqui a um milhão de anos.

Evolução é Apenas Raciocínio Circular?

No entanto, Ward vai ainda mais além e diz na página 69: "Não se pode afirmar que as mutações que sobrevivem fazem-no por terem um alto valor de sobrevivência (como se isso pudesse ser estabelecido independentemente de ver se sobrevivem ou não)". Bem, penso que consigo prever com segurança, sem usar raciocínio circular, que um bebé que nasce sem braços e sem cérebro terá poucas hipóteses de sobreviver. Penso que posso dizer que um animal que nasce com melhor audição ou visão terá uma maior chance de sobreviver do que outros da sua espécie. Acredito realmente que estou em terreno seguro neste ponto.

Não há raciocínio circular ao usarmos frases como "sobrevivência do mais apto", e depois medirmos a "aptidão" vendo quem sobrevive. Uma boa analogia é uma equipa de futebol. Definimos uma equipa de futebol como melhor do que outra se marcar mais golos. Usando essa definição, podemos então ver que tipo de atributos poderão tornar uma pessoa um melhor jogador de futebol do que outra.

Na opinião de Ward, porém, isto é puramente raciocínio circular, pois só podemos ver se uma equipa marca mais golos do que outra vendo o que de facto acontece em jogos entre equipas de futebol, e só sabemos se os atributos que tornam um jogador melhor do que outro estão certos vendo se realmente levam a mais golos.

É verdade que só podemos mostrar que, por exemplo, a selecção nacional brasileira é uma melhor equipa de futebol do que uma equipa de raparigas com menos de 9 anos de idade vendo o que acontece em jogos de futebol, mas isso não significa que é "raciocínio circular" dizermos que um jogador é melhor do que outro. Podemos medir atributos como "apto para o futebol" porque sabemos que levam a mais golos, embora tenhamos definido "levam a mais golos" como aquilo que torna um atributo "apto para o futebol". Não há raciocínio circular envolvido.3

A Evolução Explica Tudo

Ward dá um exemplo do seu raciocínio:

"Em climas árcticos, os ursos que têm pelo branco estarão melhor protegidos do que aqueles que têm pelo castanho -- se o clima não mudar, se houver comida suficiente, se não houver predadores que gostem particularmente de pelo branco, se a mutação de pelo branco não acarretar nenhum outro gene desvantajoso com ela, e se não houver uma mutação ainda melhor entre os ursos castanhos -- talvez dentes venenosos, por exemplo. O processo tem muitos 'ses'."

Ward parece estar a dizer que se as coisas fossem diferentes, os ursos polares não seriam brancos. Concordo que se parasse de nevar no Pólo Norte os ursos polares não teriam vantagem em serem brancos. No entanto, não vejo qual é o ponto de Ward aqui.

Talvez possamos aplicar o raciocínio de Ward a outras teorias científicas. A teoria da gravidade explica por que a água cai das cataratas do Niagara. No entanto, se o clima mudasse de modo que não houvesse água, ou não houvesse precipício por onde a água caísse, então não haveriam cataratas do Niagara. Isso leva-nos a duvidar da teoria da gravidade?

Ward também afirma que a selecção natural não pode explicar a consciência. "Para os materialistas, a consciência não desempenha qualquer papel no processo causal do mundo natural, portanto é estritamente irrelevante para a sobrevivência." Conheço muitos materialistas que dizem que a consciência desempenha um papel no mundo natural. Não sei por que Ward não apresenta citações de materialistas que pensam que pessoas inconscientes têm probabilidades de sobrevivência tão boas como pessoas com consciência. Talvez os leitores me possam fornecer citações.

Na realidade, é a hipótese de Deus de Ward que não consegue explicar a consciência e a moralidade humanas. Por que razão Deus deu moralidade e valores aos seres humanos em vez de, por exemplo, aos dinossauros ou aos cães? Os ancestrais do primeiro ser que teve valores humanos não podiam ter valores humanos, e o Professor Ward insiste que eles não teriam desenvolvido a consciência por si mesmos, então o que os separou das outras espécies para receber esta dádiva divina?

Será que Deus simplesmente escolheu uma espécie aleatoriamente e disse: "Vou dar a essa espécie o dom da moralidade"? A hipótese teísta de Ward não pode distinguir entre a espécie que mais tarde receberia a moralidade e os valores e todas as outras espécies às quais não foi dada moralidade nem valores. Não pode haver outra explicação além do raciocínio circular que diz que "os humanos são especiais porque foram-lhes dados valores por Deus e foram-lhes dados valores por Deus porque eram especiais."

Ward, Eldredge e Stephen Jay Gould

Ward tenta tirar partido da teoria do "equilíbrio pontuado" desenvolvida por Niles Eldredge e Stephen Jay Gould. Ward acredita que esta teoria mostra que "embora a própria selecção natural desempenhe uma parte necessária na compreensão, não é de modo nenhum uma explicação completa da evolução".

A afirmação de que a selecção natural não é uma explicação completa da evolução não destrói a perspectiva dos darwinistas, que concordam plenamente que outros processos como a deriva genética ou a selecção sexual estiveram envolvidos, portanto não se percebe por que razão Ward pensa que descobriu uma falha fundamental.

Será que Ward retrata bem os pontos de vista de Eldredge e Gould? Em Reinventing Darwin (página 92), Eldredge escreveu: "Toda a gente concorda que a selecção natural é o processo determinista que pega na variabilidade e modela-a em formas orgânicas modificadas. É o motor da mudança evolutiva adaptativa".

A selecção natural explica mudança evolutiva adaptativa, não explica toda a mudança evolutiva. Usa a variabilidade, mas não explica de onde vem a variabilidade.

Ward afirma que a teoria do equilíbrio pontuado de Eldredge e Gould tem "acontecimentos episódicos em que mudanças genéticas grandes, rápidas e saltacionistas (i.e., mudanças por grandes saltos súbitos) ocorrem em condições de relativo isolamento genético". Ele também escreve: "Do ponto de vista do equilíbrio pontuado, alguns indivíduos podem acumular subitamente grandes vantagens [...] Isto só podia acontecer se, tal como no desenvolvimento do cérebro de um hominídeo, o salto acarretasse uma grande vantagem de sobrevivência" (página 75).

Então, será que Eldredge é um saltacionista? Ele acredita que a Natureza dá saltos?

Em Reinventing Darwin (página 98), Eldredge escreveu: "Entre as acusações, talvez a mais proeminente e mais importante foi a de que tínhamos abandonado completamente o campo darwinista, promulgando em seu lugar uma forma de saltacionismo [...]".

Na página 99: "Apesar disso, fomos acusados de sermos saltacionistas".

Na página 100: "Gould e eu fomos regularmente ridicularizados e rejeitados como neo-saltacionistas durante muitos anos depois disso [...]".

Na página 121: "[...] como parte da acusação lançada contra nós de que somos saltacionistas Goldschmidtianos mal disfarçados".

Portanto parece que Ward pensa que Eldredge e Gould devastaram o darwinismo e introduziram grandes saltos, ao passo que Eldredge pensa que essa é uma acusação selvagem dos seus oponentes, que estão a ser muito injustos ao reduzirem a sua teoria a esses termos.

Conclusão

As objecções de Ward à selecção natural não são muito profundas. Ele muitas vezes afirma que a selecção natural sofre de um defeito que na realidade acabamos por verificar ser uma parte integrante da teoria. Ele acusa a selecção natural de ser incapaz de explicar o exacto percurso da história evolutiva, como se fosse possível reconstituir isso a esta distância no tempo.

Por fim, ele acusa a selecção natural de ser incapaz de produzir o mundo que, segundo ele, a sua hipótese de Deus consegue explicar, mas ele não consegue apresentar nenhuma descrição detalhada de como isso foi feito além de dizer que foi "actividade causal".

Se ele pensa que a selecção natural não consegue explicar um mundo com Deus dentro dele, então talvez seja correcto dizer que a crença religiosa é incompatível com a ciência.

Capítulo 5: A Metafísica do Teísmo

Neste capítulo, o Professor Ward diz que Richard Dawkins "equivoca-se completamente, até mesmo deliberadamente, sobre a natureza da crença em Deus, e sobre o tipo de razões pelas quais uma pessoa inteligente pode concordar com tal crença". Ward diz que isto leva Dawkins a "inventar conflitos onde eles não existem".

Claramente, o Professor Ward não gosta dos escritos de Richard Dawkins, que são uma "ridicularização e demonização sistemáticas dos pontos de vista concorrentes" e "são expressos numa linguagem altamente emotiva". Como o Professor Ward escreve neste capítulo que Deus é "uma realidade de perfeição suprema" e "o ser supremamente perfeito" e "é a base da confiança no valor objectivo e triunfo final da verdade, beleza e bondade (e portanto a base da moralidade [...])", ficamos sem saber qual é a objecção dele em relação à linguagem altamente emotiva. Ele diz que não se deve demonizar pontos de vista concorrentes e depois afirma que a verdade, a beleza, a bondade e a moralidade estão do lado dele?

O capítulo suplementa uma discussão entre Richard Dawkins e Michael Poole:

  • A Critique of Aspects of the Philosophy and Theology of Richard Dawkins
  • A Reply to Poole by Richard Dawkins
  • A Response to Dawkins by Michael Poole

No primeiro artigo acima, Michael Poole escreve: "A fé cristã está alicerçada numa combinação de evidência, incluindo aquela derivada da história, experiência pessoal e o mundo à nossa volta".

Neste capítulo, Ward escreve: "Não é uma teoria inventada para explicar ocorrências particulares no mundo" e "Precisamos de ter em mente que o conceito de Deus não é primariamente uma hipótese explicativa de modo nenhum".

Então, a crença em Deus está alicerçada em evidência e no mundo à nossa volta, como Poole defende ou, como Ward mantém, a crença em Deus não é baseada na necessidade de explicar a evidência e o mundo à nossa volta?

Tanto Poole como Ward concordam que Dawkins está errado ao levantar perguntas como "Quem criou Deus?" ou "De onde vêm os atributos de Deus?" Eles dizem que essas perguntas são inválidas.

No entanto, penso que Richard Dawkins tem razão quando escreveu no seu artigo citado acima: "Mas isto não acontecerá se for decidido que está fora do alcance de argumentos críticos. Não se lhe pode permitir a reivindicação de uma espécie de imunidade diplomática espúria por fazer faiscar sobre nós o seu salvo-conduto religioso."

Por que razão não querem permitir que Dawkins pergunte de onde veio o design de Deus? Será que as pessoas só são autorizadas a discutir a teologia cristã se concordarem de antemão que têm de aceitar as alegações cristãs de que é logicamente impossível para Deus ser criado ou projectado? Alguma vez o Professor Ward concordaria que as únicas pessoas autorizadas a discutir teologia islâmica são aqueles que concordam antecipadamente que é logicamente impossível Deus ter um Filho?

É perfeitamente válido Dawkins perguntar de onde vieram os atributos de Deus. O atributo de Deus de perdoar os pecados do Professor Ward está dependente de ele se arrepender. Se podemos ver o que é necessário para que alguns atributos de Deus existam, por que perguntas sobre outros atributos de Deus são consideradas inaceitáveis -- além do facto de o Professor Ward não lhe conseguir responder?

Neste capítulo Ward argumenta que Deus não é uma crença científica. Isto pode ser demonstrado facilmente quando ele escreve: "Portanto, não é surpreendente que, para o crente, Deus não é uma hipótese tentativa que devêssemos estar sempre a procurar testar para destrui-la por activamente procurar contra-evidência" e "existem, claro, factos que podem contar contra a nossa ideia de Deus e não podem ser ignorados. No entanto, é inteiramente racional um crente deixar esses assuntos para outros [...]".

Para mim, uma crença que só pode ser fortalecida nunca procurando evidência contra ela não é uma crença que valha a pena ter.


Notas

1 Tradução para português por Publicações Europa-América (Portugal), 1998, ISBN: 972-1-04455-5. (N. do T.)

2 Existem mais de 300.000 espécies de escaravelhos. (N. do T.)

3 Para outras refutações mais detalhadas do argumento do raciocínio circular, veja Philip Kitcher, Abusing Science (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1998), pp. 55-60; Stephen Jay Gould, "Darwin's Untimely Burial -- Again!" in Laurie R. Godfrey, Scientists Confront Creationism (New York: W. W. Norton & Company, 1984), pp. 139-146; Robert T. Pennock, Tower of Babel (Cambridge, Mass.: MIT Press, 2000), pp. 98-101. (N. do T.)


Índice · English · Tradução © 2002 João Rodrigues · http://corior.blogspot.com/2006/02/str-evolucao-critica-ao-livro-de-keith.html