Transfusão de Sangue — Transplante de Órgão ou Refeição?

Lee Elder e Jan Haugland


Quando a proibição sobre as transfusões foi inicialmente estabelecida, a Sociedade Torre de Vigia argumentou que uma transfusão de sangue era o mesmo que comer sangue. Naquele tempo, quando eles também proibiram vacinas e soros, estabeleceram a retórica que ainda é usada hoje:

"Muitos dizem que uma transfusão não é semelhante a comer sangue. É sólido este ponto de vista?

Um paciente no hospital pode ser alimentado através da boca, através do nariz, ou através das veias. Quando soluções de açúcar são dadas por via intravenosa, isso é chamado alimentação intravenosa. Portanto a própria terminologia do hospital reconhece como alimentação o processo de colocar nutrição no nosso sistema através das veias. Consequentemente, o enfermeiro que administra a transfusão está a alimentar o paciente com sangue através das veias, e o paciente que recebe o sangue está a comê-lo através das veias." (The Watchtower [A Sentinela], 1.º de julho de 1951, p. 415 [em inglês])

O raciocínio atual da Sociedade Torre de Vigia continua a ser o mesmo: uma transfusão de sangue é comer através das veias:

"Algumas pessoas podem raciocinar que receber uma transfusão de sangue realmente não é comer. Mas não é verdade que quando um paciente está impossibilitado de comer através da boca, os médicos freqüentemente alimentam-no pelo mesmo método através do qual uma transfusão de sangue é administrada? Examine as escrituras cuidadosamente e note que elas nos dizem para nos mantermos livres de sangue e nos abstermos de sangue. (Atos 15:20, 29) O que significa isto? Se um médico lhe dissesse para se abster de álcool, será que isso significaria simplesmente que você não devia tomar álcool através da boca mas que o podia transfundir diretamente nas suas veias? É claro que não! Assim também abster-se de sangue significa não introduzi-lo nos nossos corpos de modo nenhum." (The Watchtower [A Sentinela], 1.º de junho de 1969, pp. 326-327 [em inglês])

Se o leitor já foi Testemunha de Jeová durante algum tempo, ouviu essa analogia muitas vezes. Será que é uma analogia válida? Não, pois o álcool e o sangue são fluidos muito diferentes. O álcool já está numa forma que pode ser utilizada pelas células do corpo e absorvido como alimento ou nutriente. O sangue, por outro lado, é completamente diferente. Depois de transfundido, não é digerido nem utilizado como alimento. Permanece o mesmo tecido fluido com a mesma forma e a mesma função. Para que o sangue fosse utilizado como alimento, primeiro teria de ser literalmente comido e depois passar pelo sistema digestivo. Que isto é assim, pode ser prontamente constatado considerando simplesmente a razão por que um médico prescreve uma transfusão de sangue. Será que ele o faz porque o paciente está mal nutrido e precisa de uma boa refeição? É claro que não. Ele ordena a transfusão porque o paciente precisa que seja transportado oxigênio para as suas células em quantidade suficiente.

É sobre esse argumento que se baseia toda a proibição do sangue. Será que o argumento é válido?

Definitivamente, não! Considere o caso de dois pacientes que são admitidos num hospital porque não conseguem comer e assim sustentar-se desse modo. A um paciente, é dada uma transfusão de sangue, ao passo que ao outro é dado por via intravenosa Dextrose ou um produto equivalente. Qual dos dois sobreviverá? Obviamente, é aquele a quem foi dada por via intravenosa Dextrose, que pode ser usado pelo corpo como alimento. O paciente a quem foi dada a transfusão morrerá porque sangue transfundido não é alimento, é simplesmente o veículo usado para transportar alimento.

Conforme vimos anteriormente, a Sociedade Torre de Vigia recorreu a certos médicos para apoiar as suas idéias de que uma transfusão de sangue é comer sangue:

"Não faz diferença que o sangue seja introduzido no corpo através das veias em vez de através da boca. Também não tem peso a alegação de alguns, de que não é o mesmo que alimentação intravenosa. O fato é que isso nutre ou sustém a vida do corpo. Em harmonia com isto, está uma declaração no livro Hemorrhage and Transfusion [Hemorragia e Transfusão], de George W. Crile, A.M., M.D., que cita uma carta de Denys, médico francês e investigador pioneiro no campo das transfusões. Diz: 'Ao realizar uma transfusão, isso nada mais é do que nutrir através de um caminho mais curto do que o normal -- ou seja, colocar nas veias sangue já feito em vez de tomar alimento que só depois de várias mudanças se transforma em sangue.'" (The Watchtower [A Sentinela], 15 de setembro de 1961, p. 558 [em inglês])

O que a Sociedade Torre de Vigia não diz aos seus leitores é que esse médico, Jean Baptiste Denys, viveu no século 17! A ciência médica abandonou essa idéia há muito tempo. Mais tarde, a Sociedade tentou recorrer a outra autoridade, Dane Thomas Bartholin, mas desta vez pelo menos admitiram que ele viveu no século 17. Por que é que a Sociedade Torre de Vigia não encontrou apoio para a sua idéia peculiar entre os peritos médicos mais recentes? Porque não há nenhuns que apoiem a sua idéia. Nem mesmo os médicos que são Testemunhas de Jeová estão dispostos a arruinar a sua reputação apoiando essa alegação.

O fato simples é que uma transfusão de sangue é um transplante de órgão, não é nutrição!

Este fato é agora admitido pela Sociedade Torre de Vigia:

"Como observa Denton Cooley, cirurgião cardiovascular: 'Uma transfusão de sangue é um transplante de órgão.'" (Despertai!, 22 de outubro de 1990, p. 9)

"Quando os médicos realizam um transplante de coração, do fígado, ou de outro órgão, o sistema imunológico do receptor pode detectar a presença do tecido estranho, e rejeitá-lo. Todavia, uma transfusão é um transplante de tecido." (Como Pode o Sangue Salvar a Sua Vida? (1990), p. 8; ênfase no original.)

No passado, a Sociedade argumentou que uma transfusão de sangue era inaceitável porque era o mesmo que comer sangue:

"De cada vez que a proibição do sangue é mencionada nas Escrituras, é em ligação com tomá-lo como alimento, por isso é enquanto nutriente que estamos preocupados com a sua proibição." (The Watchtower [A Sentinela], 15 de setembro de 1958, p. 575, "Perguntas dos Leitores" [em inglês])

Quando finalmente eles se atualizaram com o conhecimento científico dos 60 anos anteriores, em meados da década de 1960, e viram que as transfusões de sangue não são "alimentar-se de sangue", confrontaram-se com um dilema. Durante as últimas décadas, a Sociedade Torre de Vigia tem tentado contornar este problema referindo-se às transfusões de sangue, não como 'comer sangue', mas como 'sustentar a vida através do sangue'. Esta é uma inserção injustificada de um conceito que não é bíblico, conforme já vimos. Ironicamente, os componentes do sangue que a Sociedade permite são tomados precisamente para sustentar a vida.

Conforme já foi discutido, para o sangue se tornar alimento, teria de ser comido, passar pelo sistema digestivo e ser decomposto em componentes que podem ser usados pelas células do corpo. Isto não acontece durante uma transfusão de sangue. O sangue mantém a sua função de sangue, e é usado tal como era usado no corpo do dador: para transportar nutrição e oxigênio para as diferentes partes do corpo. Uma transfusão de sangue não é nutrição, exatamente como um transplante de rim também não é nutrição.

Conforme vemos, a Sociedade sabe disto. Então, por que é que a liderança das Testemunhas de Jeová continua a afirmar que uma transfusão de sangue é o mesmo que comer sangue, quando na realidade não há qualquer tipo de apoio para essa afirmação, e quando ao mesmo tempo diz que uma transfusão de sangue é um transplante de órgão? Repare bem neste ponto:

Uma transfusão de sangue não pode ser um transplante de órgão e uma refeição simultaneamente!

A Sociedade Torre de Vigia proibiu transplantes de órgãos entre 1967 e 1980, alegando que isso era canibalismo. Embora essa posição fosse obviamente não bíblica e ilógica, pelo menos era consistente com a proibição do sangue. Nesse tempo, eles argumentavam que.

  • Comer um rim é o mesmo que aceitar um transplante de rim.
  • Comer sangue é o mesmo que aceitar uma transfusão de sangue.

Porém, quando a proibição sobre os transplantes de órgãos foi abandonada, isto mudou para.

  • Comer um rim não é o mesmo que aceitar um transplante de rim.
  • Comer sangue é o mesmo que aceitar uma transfusão de sangue.

A inconsistência de manter a proibição sobre as transfusões de sangue ao mesmo tempo que se abandona a proibição dos transplantes de órgãos é algo que o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová tem de enfrentar.

Mais recentemente, a ligação entre a transfusão de sangue e comer sangue tem continuado a ser feita de maneira subtil. Por exemplo, o livro Raciocínios na página 73 tenta estabelecer um elo de ligação através de uma analogia:

"considere o caso de um homem a quem o médico dissesse que precisa abster-se de álcool. Estaria ele obedecendo à ordem, se deixasse de beber álcool, mas fizesse que este lhe fosse injetado diretamente nas veias?" (Raciocínios à Base das Escrituras (1989), p. 345)

No caso de substâncias como o álcool e algumas drogas, não faz diferença o modo como são administradas, porque o resultado final, a absorção pelo corpo, é o mesmo. Porém, que dizer se o resultado final não for o mesmo? O erro dessa analogia pode ser ilustrado com uma analogia semelhante:

Considere um homem a quem o médico dissesse que precisa abster-se de carne. Estaria ele obedecendo à ordem, se deixasse de comer carne, mas aceitasse um transplante de órgão?

Obviamente, comer um órgão e receber um transplante de órgão são coisas completamente diferentes, da mesma forma que comer sangue e transfundir sangue são coisas diferentes.

Então por que razão mantêm eles a proibição sobre as transfusões de sangue? A Sociedade Torre de Vigia não quer levantar a sua proibição e admitir que isso foi um equívoco trágico desde o início. Foi derramado demasiado sangue literal, demasiadas vítimas jovens e idosas foram aclamadas pela Sociedade Torre de Vigia como heróis, e os irmãos e irmãs passaram por tanta dor, tantos casos em tribunal, medos e perdas, que haveria um clamor sem precedentes entre as Testemunhas de Jeová e as pessoas de fora se a proibição fosse subitamente abandonada, e no entanto isso é o que tem de acontecer.

Isto parece ser bem conhecido dentro dos muros da organização Torre de Vigia. É interessante observar que as revistas A Sentinela e Despertai! relatam ansiosamente qualquer indicação de que a ciência médica pode um dia tornar a necessidade de transfusões de sangue uma coisa do passado. Um exemplo: notícias sobre o desenvolvimento de "sangue artificial" apareceram muitas vezes desde 1970. No Watchtower Publications Index 1930-1985 [Índice das Publicações da Torre de Vigia 1930-1985, em inglês] encontramos a entrada seguinte sob o tópico "substitutos do sangue", mostrando que este tópico outrora raramente coberto foi mencionado em 16 artigos:

"'sangue artificial': w85 4/15 21; w83 11/1 23; w82 5/1 7; g82 6/22 26; g81 6/22 29-30; g80 2/22 21-3; g80 8/8 29-30; w79 11/15 29; g79 8/8 31; g79 10/8 29; g78 2/8 29; g74 6/22 22; g73 7/8 31; g72 6/22 29-30; g70 1/22 30; g70 2/8 30" [w é a abreviatura da revista A Sentinela; g é a abreviatura da revista Despertai!]

Este é apenas um pequeno exemplo dos artigos da Sociedade Torre de Vigia dedicados a "substitutos do sangue". É um fato que a Sociedade usa enormes recursos para encontrar alternativas às transfusões de sangue para minimizar as baixas. Mais ainda, o fato de substitutos apropriados para as transfusões de sangue não terem aparecido como a Sociedade esperava levaram-na a abandonar lentamente a sua posição sobre o sangue, mas de um modo que muitos não se aperceberam, até mesmo anciãos muitas vezes não estão a par de como a Sociedade flexibilizou a sua posição. Embora a flexibilização seja positiva em si mesma, certamente vemos que ao fazer isso a Sociedade mostra que já não acredita realmente que as transfusões de sangue são erradas. O trabalho feito para minimizar as baixas não é louvável de modo nenhum quando sabemos que esta posição é sustida principalmente para manter a imagem da organização e o prestígio do Corpo Governante, com o custo de muitas vidas e muito sofrimento.

Enquanto a Sociedade Torre de Vigia está à espera que a ciência médica a salve do dilema mortal em que se meteu, demonstrou falta de fé nas suas próprias doutrinas ao comprometer os princípios que alega defender. Por que é que você deveria morrer por algo em que nem sequer eles acreditam?


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